Infectologia

Sífilis Congênita: Resumo com mapa mental | Ligas

Sífilis Congênita: Resumo com mapa mental | Ligas

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Definição

A sífilis congênita é a infecção causada pela disseminação hematogênica da bactéria Treponema pallidum, transmitida da mãe, principalmente por via transplacentária, ao concepto.

  • A transmissão vertical da bactéria em questão é possível de ocorrer em todos os estágios clínicos da infecção da mãe e também em todas as fases da gestação. Contudo, a chance de que ocorra tal transmissão ao feto depende principalmente do estágio da infecção materna, visto que a taxa de infecção da transmissão vertical é menor nas fases tardias da doença, e do tempo que o feto foi exposto durante a gestação.

Além da via transplacentária, a bactéria Treponema pallidum pode ser transmitida diretamente ao concepto através do canal de parto, quando em presença de lesões genitais na gestante, e no momento do aleitamento, porém apenas quando se tem presente lesão mamária por sífilis na gestante.

Epidemiologia da Sífilis Congênita

De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), um quarto de gestações de mulheres com sífilis em atividade resulta em óbito fetal, enquanto um quarto resulta em neonatos com infecção neonatal grave ou classificados como de baixo peso.

  • Segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde, a taxa de incidência de sífilis congênita foi de 8,2 casos/1.000 nascidos vivos no país no ano de 2019.

É necessário ressaltar que a sífilis congênita é uma doença de notificação compulsória, sendo inclusa no SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação).

Fisiopatologia

A gestante infectada, quando sem diagnóstico e tratamento durante o desenvolvimento fetal, tem como desfecho de 50 a 100% de recém-nascidos infectados. A chance de aborto, natimortalidade e óbito perinatal é estimada em 40% nas situações com transmissão da infecção ao feto.

A ocorrência da infecção pela interface entre mãe e feto e a posterior ocorrência de alterações clínicas prejudiciais depende de certos mecanismos, como:

  • invasão: antecede a colonização e disseminação da bactéria;
  • evasão: compreende o escape da bactéria contra as defesas do organismo;
  • resposta imunológica: compreende os mecanismos de defesa e os aspectos clínicos observáveis da doença.

No neonato com sífilis congênita, a bactéria Treponema pallidum afeta todos os seus órgãos, ao causar um processo inflamatório e produzir lesões em ossos, vísceras, mucosas e pele, além de afetar o sistema nervoso central.

Quadro clínico da Sífilis Congênita

As manifestações da sífilis congênita podem ser classificadas em:

  • sífilis congênita precoce: quando ocorre em menores de dois anos e é em função da infecção ativa;
  • sífilis congênita tardia: quando ocorre após dois anos de vida e é caracterizada por consequências da doença prévia.

Na sífilis congênita precoce, as principais manifestações clínicas são: baixo peso ao nascer, prematuridade, hepatomegalia, pênfigo palmoplantar, condiloma plano, pseudoparalisia de Parrot, rinite serossanguinolenta, sofrimento respiratório, condições ósseas, como osteíte, anemia, entre outros.

Já na sífilis congênita tardia, tem-se: condições ósseas, como articulações de Clutton e tíbia em “lâmina de sabre”, nariz “em sela”, fronte “olímpica”, dentes de Hutchinson, molares em “amora”, surdez, entre outros.

Pênfigo palmoplantar.
Fonte: http://enfermeiropsf.blogspot.com/2013/03/sifilis-congenita.html

Diagnóstico da Sífilis Congênita

O diagnóstico laboratorial envolve diferentes métodos:

  • pesquisa pelo Treponema pallidum: é o padrão-ouro;
  • testes sorológicos: compreendem testes não treponêmicos (VDRL e RPR) e treponêmicos (TPHA, FTA-Abs e ELISA).

Os testes não treponêmicos são recomendados para o diagnóstico inicial, porém, deve-se notar que, mesmo em neonatos não infectados, filhos de mães infectadas, é possível encontrar anticorpos previamente recebidos por via transplacentária. Já os testes treponêmicos identificam anticorpos antitreponêmicos, muito específicos e, com isso, podem ser utilizados para corroborar o diagnóstico de sífilis congênita.

Para o diagnóstico, segue-se:

  • sífilis congênita confirmada: identificação do Treponema pallidum por material coletado de lesão cutâneo-mucosa;
  • sífilis congênita provável: neonato com mãe diagnosticada com sífilis e tratamento inadequado, mesmo que não apresente achados clínicos e laboratoriais ou neonato que apresentou teste não treponêmico positivo e que apresente um ou mais itens, como, por exemplo, evidência clínica ou radiológica que indique sífilis congênita, líquor que apresente VDRL positivo e/ou com maior quantidade de proteínas ou celularidade;
  • neurossífilis: frente a um caso suspeito, deve-se analisar o líquor e julga-se como neurossífilis confirmada quando o VDRL mostra-se positivo e neurossífilis possível quando o neonato possui diagnóstico confirmado ou provável de sífilis congênita, sem análise do líquor, ou quando se tem alterações no líquor com VDRL sérico positivo.

Tratamento da Sífilis Congênita

Para sífilis congênita, quando confirmada ou considerada como provável, os principais procedimentos são os seguintes.

  • Neonatos com mães tratadas de forma inadequada para sífilis:
    • neonato com VDRL positivo e/ou com alterações clínicas, hematológicas e/ou radiológicas, ausente de alterações neurológicas: penicilina cristalina EV ao longo de 10 dias, 50.000 UI/kg/dose de 12 em 12 horas nos primeiros sete dias e, após isso, de oito em oito horas, ou penicilina procaína IM 50.000 UI/kg/dose de 24 em 24 horas por 10 dias;
    • neonato com alteração no líquor ou quando não é possível colher o mesmo: penicilina cristalina EV ao longo de 10 dias, 50.000 UI/kg/dose, de 12 em 12 horas nos primeiros sete dias e, após isso, de oito em oito horas;
    • neonato com VDRL negativo, ausente em alterações clínicas, hematológicas, radiológicas ou no líquor: penicilina benzatina, 50.000 UI/kg em dose única IM.
  • Neonatos com mães tratadas de forma adequada para sífilis:
    • neonato com VDRL positivo com título acima do encontrado na mãe: investigar outras alterações e, caso ausente em alterações no líquor, deve-se empregar a mesma conduta supracitada para o primeiro caso;
    • líquor apresentando alterações: penicilina cristalina EV ao longo de 10 dias, 50.000 UI/kg/dose de 12 em 12 horas;
    • se não for possível o seguimento: penicilina benzatina, 50.000 UI/kg em dose única IM.

Além disso, o seguimento clínico e laboratorial é indicado, em vista da probabilidade de reativação da sífilis congênita.

Autores, revisores e orientadores:

Autor(a): Ana Carolina Delfino Portella – @anacarolinadelfinop

Revisor(a): Milena Rocha – @_milrock

Orientador(a): Ana Luiza Oliveira Silva – @analuiza_ped

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

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Referências:

Tratado de Pediatria: Sociedade Brasileira de Pediatria, 4. ed. Barueri, SP: Manole, 2017.

Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Programa Nacional de DST/AIDS. Diretrizes para o Controle da Sífilis Congênita: manual de bolso. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006.

Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico Especial. Boletim Epidemiológico de Sífilis. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2020.

CASAL, C. A. D. ARAÚJO, E. D. CORVELO. Aspectos imunopatogênicos da sífilis materno-fetal: revisão de literatura. 2012. Acesso em: 21 out. 2021. http://files.bvs.br/upload/S/0101-5907/2012/v26n2/a3212.pdf