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Sinal de Kernig: Funcionalidades e Interpretação | Colunistas

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Adrielly Lohany Barros

8 minhá 39 dias

Introdução

            A semiologia é a área da saúde que estuda os sinais e sintomas relacionados às doenças humanas. Estes sinais, por sua vez, orientam a conduta médica e, ao serem encontrados no exame físico, é necessário o devido conhecimento para que o profissional da saúde chegue ao diagnóstico correto. Um destes sinais é o sinal de Kernig, muito importante na prática médica em vários cenários patológicos.

Neste artigo, iremos abordar as várias funcionalidades deste teste e iremos aprender de maneira simples como interpretá-lo mediante o quadro clínico apresentado pelo paciente.

O sinal de Kernig é um sinal semiológico que possui diversas utilidades, aplicando-se à pesquisa de entidades patológicas de diferentes etiologias.

Funcionalidades

            As funcionalidades do teste de Kernig podem ser várias, mas vamos nos deter às mais usuais. Entre elas, o teste de Kernig pode ser encontrado no exame do sistema locomotor, através de quadros de lombociatalgia. Além disso, também podemos encontrá-lo em traumas, quadros de irritação meníngea, hérnias de disco e hemorragias subaracnóideas.

Anatomia

            O teste de Kernig envolve estruturas relacionadas com a medula espinhal, suas raízes nervosas e as vértebras da região.

            O nervo isquiático, também chamado de nervo ciático, é o maior nervo do corpo humano e faz parte do plexo sacral, um aglomerado de raízes nervosas que suprem a região pélvica do tronco. O nervo isquiático é tão grande que recebe da artéria glútea inferior um ramo específico, a artéria para o nervo isquiático. Este nervo atravessa o forame isquiático maior, geralmente inferior ao músculo piriforme, para entrar na região glútea, conforme representado na figura 1.

Figura 1. Nervo isquiático
Fonte: NETTER, 2000

O trajeto do nervo isquiático se estende ao longo da face posterior da coxa para suprir a face posterior da coxa, toda a perna e o pé, como pode ser observado na figura 2.

Figura 2. Trajeto do nervo isquiático
Fonte: NETTER, 2000

            O nervo isquiático supre, portanto, os músculos posteriores da coxa, todos os músculos da perna e do pé e a pele da maior parte da perna e do pé. Também envia ramos articulares para todas as articulações do membro inferior. O nervo isquiático é na verdade a junção entre os nervos fibular comum e tibial, conforme demonstrado na figura 3.

Figura 3. Nervo Ciático
Fonte: NETTER, 2000

Como o teste é feito?

            O Teste de Kernig consiste na extensão da perna, estando a coxa fletida em ângulo reto sobre a bacia e a perna sobre a coxa, conforme a figura abaixo.

Figura 4. Sinal de Kernig
Fonte: MOORE, 2014

Considera-se a prova positiva quando o paciente sente dor ao longo do trajeto do nervo ciático e tenta impedir o movimento.

Interpretação

            Quando o sinal de Kernig está presente, sua correta interpretação é muito importante, pois a conduta médica será necessariamente oposta dependendo da etiologia da entidade patológica em questão.

            Nos quadros de lombociatalgia, o paciente chega ao consultório e/ou emergência relatando uma associação entre a dor lombar e uma dor que percorre toda a extensão do membro inferior, a ciatalgia. Nestes casos, além do próprio teste de Kernig positivo, a história clínica do paciente se torna muito importante e algumas perguntas são fundamentais de serem feitas; por exemplo, quando a dor começou, quais os fatores de melhora e de piora, se houve histórico de traumas ou exercícios extenuantes, qual o ritmo da dor e se este é mecânico ou inflamatório.

            Nos casos de irritação meníngea, além do sinal de Kernig positivo, há a história clínica característica da meningite bacteriana ou viral, que deve ser investigada. Muitas vezes, o quadro de meningite está atrelado ao histórico de infecção bacteriana e/ou viral prévia, associada ao teste de Brudzinski positivo (representado na figura 5), bem como de outros testes de investigação de irritação meníngea.

Figura 5. A Sinal de Brudzinski
Fonte: MOORE, 2014
Figura 5. B Sinal de Brudzinski
Fonte: MOORE, 2014

            Nos casos de trauma devido a acidentes automobilísticos ou com motocicletas, deve-se investigar exaustivamente o exame físico. Nele, pode haver a presença de dor nos processos espinhosos das vértebras, indicando fraturas vertebrais. Ademais, devido às fraturas, pode ocorrer compressão de raízes nervosas, desencadeando a positividade do teste de Kernig no indivíduo.

            Outro exemplo clássico é a presença de hérnias de disco, que são causadas por projeções do núcleo pulposo das vértebras (representada na figura 6), pressionando as raízes nervosas adjacentes e positivando, portanto, o teste de Kernig. A hérnia de disco intervertebral lombar, que comprime e compromete o componente L5 ou S1 do nervo isquiático, causa a ciatalgia. Juntamente com as hérnias de disco, surgem os osteófitos, os chamados “bicos de papagaio” que podem estreitar ainda mais os forames intervertebrais, desencadeando a dor lancinante da ciatalgia.

Figura 6: Hérnia de disco.
Fonte: MOORE, 2017

            As hemorragias subaracnóideas espontâneas são síndromes frequentemente encontradas na clínica neurológica. Percebe-se que os casos de hemorragia subaracnóidea podem ser marcados pela presença de aneurismas ou podem ser espontâneos. Quando a hemorragia subaracnóidea é resultado da rotura de aneurisma, o paciente refere cefaleia severa desenvolvida por esforço, momentos antes da rotura do mesmo, além do teste de Kernig positivo.

Conclusão

            O teste de Kernig é, portanto, muito importante na prática clínica, bem como na conduta médica a ser seguida. Cada profissional da saúde em formação deve ter ciência de suas funcionalidades e como interpretá-lo para o melhor cuidado em saúde do paciente.

            Este teste serve para as mais diversas investigações, tanto de lombociatalgia, irritação meníngea, traumas, hérnias de disco e hemorragias subaracnóideas. Atrelado a ele, a história clínica do paciente é essencial para delimitar qual entidade patológica o teste está indicando.

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Referências Bibliográficas

MOORE, Keith L. Anatomia orientada para a clínica / Keith L. Moore, Arthur F. Dalley, Anne M.R. Agur; tradução Claudia Lucia Caetano de Araujo. – 7. ed – Rio de Janeiro: Koogan, 2014.

NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica I Celmo Celeno Port; co-editor Arnaldo Lemos Porto. –

7. ed.- Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

TURCATO, Carmen. et al. Hemorragia subaracnoide. Arquivos Catarinenses de Medicina Vol. 35, nº 02, de 2006

ARMBRUST-FIGUEIKEDO, J. Considerações Sobre O Tratamento Das Hemorragias Subaracnóideas Espontâneas. Arquivos de Neuropsiquiatria. vol.10 nº.3 São Paulo July/Sept. 1952.

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