Anatomia de órgãos e sistemas

Sinal de Kussmaul: uma breve revisão fisiopatológica | Colunistas

Sinal de Kussmaul: uma breve revisão fisiopatológica | Colunistas

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Franciele Tenani

6 minhá 50 dias

De maneira clara e direta: o sinal de Kussmaul consiste em uma pulsação jugular visualizada na região do pescoço quando o paciente realiza inspiração respiratória. No entanto, antes de iniciarmos esse assunto, vamos relembrar alguns aspectos da anatomia e funcionamento cardíaco?

Revisando a anatomia cardiovascular

O coração age como uma bomba propulsora graças às mudanças de pressão interna. É dividido em átrios e ventrículos e, com a contração do musculo cardíaco, o fluxo sanguíneo segue entre esses segmentos em direção aos grandes vasos sanguíneos. O objetivo principal desse mecanismo é garantir que o fluxo sanguíneo siga o percurso correto e realize trocas gasosas inerentes ao funcionamento do organismo.

Além disso, é importante relembramos que, separando cada segmento, temos válvulas responsáveis por realizar o movimento unidirecional sanguíneo dentro do coração, graças aos seus movimentos de aberturas e fechamentos. Logo, quando o sangue pobre em oxigênio chega ao átrio direito, através da veia cava superior (VCS), veia cava inferior (VCI) e seio coronário, a pressão interna faz com que a válvula tricúspide se abra e permita a passagem para o ventrículo direito (fechando a válvula), de onde segue para a artéria pulmonar através da abertura da válvula pulmonar. Enquanto, do lado esquerdo, o sangue rico em oxigênio chega através das veias pulmonares ao átrio esquerdo, cuja contração abre a válvula mitral, levando o fluido sanguíneo ao ventrículo esquerdo, de onde segue para a artéria aorta através da abertura da válvula aórtica e fechamento da válvula mitral.

Qual a relação do sinal de Kussmaul com o fluxo sanguíneo?

Para compreender melhor essa relação, nosso foco a partir de agora será o átrio direito!

Conforme já relembramos, o sangue venoso chega através das veias cavas superiores e inferiores e seio coronário a essa fração. Através de anastomoses, a veia cava superior recebe o fluxo venoso superior, provenientes principalmente do crânio. Um dos principais vasos responsáveis por essa drenagem é a veia jugular interna direita e esquerda, responsáveis por formar anastomose com as veias subclávias direita e esquerda. Por conseguinte, essas originam as veias braquiocefálicas, que enfim se juntam e formam a veia cava superior. Já a veia cava inferior recebe o fluxo venoso principalmente dos membros inferiores e componentes abdominais.

Quando, ao chegar na região atrial direita, o sangue não segue o fluxo unidirecional, ele permanece represado em grande quantidade, aumentando a pressão no local. Esse mecanismo ocorre nos casos de estenose tricúspide, por exemplo, condição que causa obstrução atrial. Dessa forma, ocorre uma regurgitação sanguínea, diminuição do fluxo sanguíneo entre átrio e ventrículo e provoca retorno sanguíneo nas veias cavas superior e inferior. Por consequência, a pressão jugular passa a ser maior e facilita a visualização de pulsações no exame físico do pescoço.

Por que esse sinal é melhor visualizado na inspiração?

As mudanças de pressão intratorácica possuem um papel crucial nesse aspecto clínico. Quando realizamos o movimento de inspiração, ocorre uma diminuição da pressão torácica, facilitando o retorno venoso à câmara atrial cardíaca direita, aumentando o escoamento no átrio direito. Portanto, a pulsação da jugular interna torna-se evidente.

O sucesso da avaliação está ligado à correta execução

É de grande importância acomodar o paciente na posição correta. O exame deve ser realizado com o paciente posicionado em um ângulo de 45°, formando uma supinação de tronco e com repouso da cabeça. Este é um aspecto importante, uma vez que fornece meios para o relaxamento dos músculos do pescoço. Dentre eles, o esternocleidomastoideo (ECOM), que possui limites com a veia jugular.

A posição incorreta do paciente pode comprometer a avaliação

Existem posições que alteram a avaliação do pulsar venoso jugular. Quando o seu paciente estiver em decúbito dorsal, haverá uma facilitação de retorno venoso, deixando a veia jugular com um fluxo sanguíneo maior (aumento de pressão local), podendo dar uma falsa impressão de sinal de Kussmaul. Ao passo que, quando seu paciente estiver formando um ângulo reto na relação tronco e membros inferiores ou até mesmo em pé, ocorrerá o colapso da mesma. Assim, o sinal de Kussmaul poderá passar despercebido.

Sinais e sintomas clínicos

Uma das causas do Sinal de Kussmaul é a insuficiência cardíaca congestiva. Além da pulsação jugular, um sinal físico que poderá ser visível ou relatado por seus pacientes durante o atendimento é a presença de edema em membros inferiores, causado pela regurgitação sanguínea em veia cava inferior.

Conclusão

Conhecer como uma determinada patologia atua sobre a anatomia e a fisiologia do corpo humano atua na construção de uma via de mão dupla: fomenta a criação de um raciocínio clinico, ao passo que permite a avaliação do paciente de maneira ampla.

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Referências:

Guyton, A. C.; Hall, J. E. Guyton & Hall – Tratado De Fisiologia Médica. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan 2017

Porto, C. C.; Porto, A. L. Exame clínico. ­ 8. ed. ­ Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017

Porto, C. C.; Porto, A. L. Semiologia Médica. 7ª Edição. 2013. Editora Guanabara Koogan.

Pabst, R. Putz, R. Sobotta – Atlas de Anatomia Humana. 21ª Edição, Vol. 1. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.

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