Anatomia de órgãos e sistemas

Síndrome de Burnout: capítulos ocultos sobre o papel do médico | Colunistas

Síndrome de Burnout: capítulos ocultos sobre o papel do médico | Colunistas

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Morgana Trojahn

4 minhá 47 dias

Salvar vidas e ajudar as pessoas. Essa é a justificativa da maioria dos estudantes de medicina quando questionados sobre sua escolha profissional. Mesmo que verdadeiro, esse discurso é distante e, de certa forma, inocente quanto à realidade. A grande exposição a estímulos negativos e estressantes no ambiente de trabalho faz da classe médica uma das mais predispostas a adoecer física e mentalmente. Segundo uma pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina, cerca de 23,1% dos médicos brasileiros manifestam Burnout em grau elevado.

                A Síndrome de Burnout é definida como um estado de exaustão diretamente relacionada às condições de trabalho caracterizada por 3 principais aspectos: esgotamento emocional, despersonalização e insatisfação profissional. Essa doença é multifatorial e desencadeada pelo estresse laboral contínuo, que pode resultar em sintomas físicos como perda de apetite, alteração do sono, irritabilidade, dores musculares, dificuldade de concentração e memória e instabilidade de humor.

                O profissional com Burnout apresenta maior propensão a manifestar comorbidades como hipertensão arterial, depressão, transtorno de ansiedade, doenças cardíacas, declínio do sistema imunológico e tendência ao abuso de álcool e drogas. Além das consequências individuais, essa pessoa também apresenta risco para terceiros e para o sistema de saúde como um todo: segundo um estudo publicado na Mayo Clinic Proceedings, médicos com queixas dos principais sintomas de Burnout foram pelo menos 2 vezes mais predispostos a cometer algum erro médico grave nos últimos 3 meses.

                Esse distúrbio é diagnosticado de forma clínica, e seu tratamento é feito com psicoterapia e, quando necessário, com antidepressivos e/ou ansiolíticos. Contudo, a Síndrome de Burnout é extremamente negligenciada e subestimada pelos profissionais da saúde, causando uma naturalização dos seus sintomas. Assim, o trabalho que deveria ser uma fonte de prazer e satisfação, torna-se um fardo. Um editorial de 2017 da revista The Lancet afirmou que, nos Estados Unidos, havia uma taxa de suicídios de 400 médicos por ano, ultrapassando o dobro dessas ocorrências entre a população geral.

A narrativa de “conhecer o paciente e sua história, tratar adequadamente e dar alta” na rotina médica é imensamente romantizada, visto que essa história tem muitos outros capítulos não contados. Ninguém fala da RCP sem sucesso, do paciente que não segue o tratamento indicado, dos ambulatórios sem os EPIs básicos, do bêbado agressivo que chega para aloprar o plantão. Pouco se dialoga sobre os altos riscos biológicos, ou quanto à tensão que inúmeros dilemas decisivos podem trazer. Não comentam sobre como é difícil segurar as pontas vendo o choro de luto de uma mãe, como é desanimador ver um paciente retornando poucos dias após receber alta. Não avisam sobre os atendimentos que exigem reforço policial, sobre paciente que morre sem um diagnóstico conclusivo, ou sobre as senhorinhas que moram mais no hospital que na própria casa.  O estudante de medicina não é preparado para os capítulos sombrios de “ser médico”, quando deveria conhecer a história por completo durante a graduação.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

Dias S, Queirós C, Carlotto MS. Síndrome de burnout e fatores associados em profissionais da área da saúde: um estudo comparativo entre Brasil e Portugal. Aletheia. 2010;32:4-21.

Hoelz L, Campello L. Relação entre Síndrome de Burnout, erro médico e longa jornada de trabalho em residentes de medicina. Rev Bras Med Trab. 2015;13(2):126-34

SILVEIRA, K. L. et al. Adoecimento médico: Um estudo de revisão. Braz. J. Hea. Rev., Curitiba, v. 3, n. 4, p. 9696-9711 jul./aug. 2020

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