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Suplementação em crianças: quando é necessária? | Colunistas

Suplementação em crianças: quando é necessária? | Colunistas

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Stephanie Seif

9 min17 days ago

Devido ao rápido crescimento e desenvolvimento infantil, as crianças representam um grupo de vulnerabilidade para deficiências de macro e micronutrientes e, apesar da grande carga de conhecimento que temos atualmente, este é um tema amplamente discutido sem verdade absoluta.

O crescimento cerebral, que tem seu pico a partir do terceiro trimestre de gestação até os dois anos de vida, é resultado de intensa neurogênese, acompanhada de mielinização e sinaptogênese. Uma falha na oferta nutritiva nesta fase de neurodesenvolvimento pode causar consequências a longo prazo, como a ocorrência de doenças crônico-degenerativas.

Uma criança “saudável” (e com isso quero dizer sem causas aparentes de desnutrição ou doença) teoricamente não necessitaria de suplementação, mas existem outros fatores que influenciam suas indicações, como: tipo de dieta, local onde vive e atividades diárias. O leite materno contém baixas concentrações de vitamina K, vitamina D e ferro, sendo motivo para o Departamento de Nutrologia da SBP fazer recomendações referentes a esses nutrientes. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prioriza a suplementação das vitaminas A e D e dos minerais iodo, zinco e ferro, os quais estão associados à maior deficiência devido ao alto impacto social destes em todo o mundo.

Recomendações

2.1.  Vitamina D

            A deficiência de vitamina D é muito frequente em todo o mundo e muito comum em lactentes, crianças e adolescentes no Brasil. Apresenta papel crucial na saúde óssea, e, além disso, estudos apontam que a hipovitaminose D pode estar associada a várias comorbidades, como: diabetes melito tipo 1, asma, dermatite atópica, alergia alimentar, doença inflamatória intestinal, artrite reumatoide, doença cardiovascular, esquizofrenia, depressão e variadas neoplasias (mama, próstata, pâncreas, cólon).

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Academia Americana de Pediatria (AAP) e o Global Consensus Recommendations on Prevention and Management of Nutritional Rickets recomendam a suplementação preventiva universal de vitamina D da seguinte forma: 

A termo:

  • 400UI por dia para lactentes de 0-12 meses a partir da primeira semana de vida (independentemente da alimentação);
  • 600UI por dia para maiores de 1 ano até 2 anos.

Pré-termo:

  • 400UI por dia, quando o peso for superior a 1.500 gramas e houver tolerância à ingestão oral;
  • 600UI por dia dos 12 aos 24 meses.

Quais são os parâmetros para definir suficiência vitamina D?

  • Suficiência: 25(OH)D > 20ng/ml.
  • Insuficiência: 25(OH)D entre 12-20ng/ml.
  • Deficiência: 25(OH)D < 12ng/ml.
  • Toxicidade: 25(OH)D > 100ng/ml.

            A mensuração de vitamina D só deve ser feita na suspeita de insuficiência em grupos que pertencem aos grupos de risco ou quando a situação clínica é relevante (raquitismo, osteomalácia, quedas e fraturas frequentes).

Para o tratamento de hipovitaminose D, o Global Consensus Recommendations on Prevention and Management of Nutritional Rickets preconiza o seguinte esquema:

Idade Dose diária Dose de manutenção
< 1 ano 2.000UI por 12 semanas Pelo menos 400UI/dia
1-12 anos 3.000 – 6.000UI por 12 semanas Pelo menos 600UI/dia
> 12 anos 6.000UI por 12 semanas Pelo menos 600UI/dia

            Além da suplementação, crianças maiores e adultos devem satisfazer as necessidades nutricionais através da alimentação e exposição solar.

2.2. Vitamina A

            O Ministério da Saúde possui o Programa de Suplementação de Vitamina A e preconiza a utilização de megadose única para:

  • Crianças de 6-12 meses: dose de 100.000UI;
  • Crianças de 12-72 meses: dose de 200.000UI.

2.3. Ferro

            A anemia por deficiência de ferro é muito prevalente entre crianças, principalmente nos países em desenvolvimento. Esta é considerada a carência nutricional mais comum e exige conduta corretora, pois prejudica o desenvolvimento mental e psicomotor da criança, reduz o desempenho individual em tarefas diárias e afeta a resistência a infecções.

            A Sociedade Brasileira de Pediatria indica a suplementação preventiva nas seguintes situações:

A termo

  • Para recém-nascido de peso adequado para a idade gestacional: 1mg de ferro elementar/kg de peso/dia, a partir do 3º mês até o 24º mês de vida.
  • A suplementação independe do aleitamento materno exclusivo, misto ou somente fórmula infantil.

Pré-termo

  • 2mg de ferro elementar/kg ou mais (conforme o peso do RN), a partir do 1º mês, por 1 ano.
  • 1mg de ferro elementar/kg de peso/dia por mais 1 ano.

Profilaxia de ferro elementar de acordo com situação do RN e posologia especificada:

Situação Posologia
RN termo, peso adequado, em aleitamento materno exclusivo ou não 1mg/kg de peso/dia (3 a 24 meses)
RN termo, peso adequado, recebendo menos de 500ml de fórmula/dia 1mg/kg de peso/dia (3 a 24 meses)
RN termo, peso < 2.500g 2mg/kg de peso/dia, a partir do 1º mês de vida por 1 ano; após, 1mg/kg de peso/dia por mais 1 ano
RN pré-termo, peso entre 1.500-2.500g 2mg/kg de peso/dia, a partir do 1º mês de vida por 1 ano; após, 1mg/kg de peso/dia por mais 1 ano
RN pré-termo, peso entre 1.000-1.500g 3mg/kg de peso/dia, a partir do 1º mês de vida por 1 ano; após, 1mg/kg de peso/dia por mais 1 ano
RN pré-termo, peso menor que 1.000g 4mg/kg de peso/dia, a partir do 1º mês de vida por 1 ano; após, 1mg/kg de peso/dia por mais 1 ano

A Academia Americana de Pediatria recomenda triagem para deficiência de ferro, sem anemia (dosagem de ferritina) ou com anemia (hemograma), aos 12 meses de vida. Se constatado deficiência, o tratamento é o seguinte:

  • 3-5mg de ferro elementar/kg de peso/dia, VO, por pelo menos 8 semanas (até correção da anemia e normalização dos níveis de ferritina) – a duração total pode durar até 3-6 meses.

Orientação nutricional 

Exames solicitados para diagnóstico de anemia ferropriva de acordo com as fases da anemia:

Fase Definição Exames
Depleção (latente) de ferro Redução do estoque de ferro no organismo Ferritina <12μg/L (6-60 meses) Ferritina <15μg/L (5-12 anos) Hb, HT, VCM, iSat, CTLT e Fe normais
Deficiência de ferro Redução agravada da deposição de ferro no sistema reticuloendotelial; redução do ferro sérico Fe sérico <30mg/dL Capacidade de total de ligação da transferrina (CTLT) aumentada (valor normal = 250-390μg/L) Índice de saturação da transferrina (iSat) <15% Ferritina baixa Hb, HT e VCM normais
Anemia por deficiência de ferro Redução do ferro para eritropoiese; microcitose e anemia Hb* <11g/dL (6-60 meses) (*OMS) Hb* <11,5g/dL (5-12 anos) Fe, Ferritina, iSat baixos CTLT aumentada VCM e HCM baixos (ref. idade)

2.4. Zinco      

O zinco é um elemento importante para o organismo, presente em abundância, com atuação no sistema imunológico, crescimento, desenvolvimento cognitivo, reparação tissular e replicação celular.

            A dosagem sérica não reflete com precisão o real estado nutricional do mineral e sua prova terapêutica é feita utilizando zinco na dosagem de:

A termo:

  • 1 mg/kg/dia e observando-se a resposta clínica em 5-10 dias de uso.

Pré-termo:

  • 0,5 ml/dia até 1 ano de idade.

Quando existe carência de zinco, o tratamento é feito da seguinte forma:

  • 1-2mg/kg/dia de zinco elementar por via oral e correção dietética adequada;

Em casos de diarreia aguda:

  • 20mg/dia para crianças acima de seis meses e 10mg/dia para crianças abaixo de seis meses.

Autor: Stephanie Kischener Seif

Instagram: @tete_seif

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