O sistema de recompensa e a dependência química: drogas de abuso | Colunistas

Há mais de meio século, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu que o uso de substâncias lícitas e ilícitas de forma abusiva se caracteriza como uma dependência e não como um vício ou habituação. A justificativa é que tal comportamento acarreta mudanças cerebrais que condicionam o uso frequente das substâncias, tornando difícil abandonar seu consumo, como será demonstrado ao longo do texto. Na dependência química, a droga de abuso se torna parte das necessidades diárias do indivíduo, assim como comer e dormir, o que se deve às alterações cerebrais relacionadas ao equilíbrio fisiológico e psíquico. Ao longo do texto você conhecerá o principal mecanismo relacionado a dependência, o sistema de recompensa cerebral, bem como a neuroadaptação. Princípios (reforços, etc) Para compreender a dependência química, é importante conhecer alguns conceitos da toxicologia social. Reforço primário é o potencial de uso contínuo influenciado pela própria substância, ou seja, características específicas, intrínsecas à droga, que estimulam o usuário a buscá-la novamente. A exemplo, cita-se a heroína (opioide), substância que possui maior potencial de reforço primário do que o etanol (álcool etílico), podendo causar dependência mais rapidamente. Também relacionados aos efeitos próprios de cada substância, referente ao potencial de uso contínuo da droga, se tem o reforço negativo e o reforço positivo. O primeiro ocorre em situações nas quais o usuário busca novamente a droga devido a seus efeitos depressores, capazes de diminuir a ansiedade, o estresse e a dor. Já no reforço positivo, a motivação para busca recorrente se deve aos efeitos excitatórios da droga, os quais causam euforia, prazer e felicidade. Por sua vez, o potencial de reforço secundário está relacionado às características sociais e ambientais que estimulam o uso da

Suicídio em idosos: manifestações e fatores associados | Colunistas

A população idosa é a que mais cresce no Brasil. Junto disso, cresce também a preocupação com as taxas de suicídio nessa população, sendo que a consumação apresenta altas taxas em comparação aos demais públicos. Saber identificar as manifestações e os principais eventos desencadeantes para a ideação e tentativa de suicídio pode auxiliar consideravelmente essa população e evitar desfechos fatais. Ideação, tentativa e consumação A ideação suicida compreende uma série de manifestações verbais e/ou comportamentais que remetem à vontade de autoextermínio. Nota-se, na maioria das vezes, que os pacientes apresentam queixas como “cansaço de viver”, “falta de esperança” e extremo pessimismo. Essas manifestações podem ser percebidas pelos companheiros, médicos e familiares próximos que observam que o idoso apresenta alterações de comportamento. Já a tentativa é o ato contra a própria vida, sendo que a via pode variar na população idosa, sobretudo considerando o grau de dependência e autonomia desse paciente. Por último, a consumação é quando o paciente consegue efetivar a tentativa. Ressalta-se que na população idosa a proporção entre a tentativa e a consumação é bastante próxima. Estudos indicam que essa proporção pode chegar a 2:1, contrapondo a população jovem de 36:1. Além disso, quando a tentativa não é consumada, frequentemente causa algum tipo de sequela nessa população. Figura 1. Ciclo de idealização, tentativa, fracasso e consumação do suicídio Manifestações verbais Apesar de ser bastante variável, alguns pontos parecem ser mais comuns na população idosa que já apresenta ideação suicida ou está sob grande risco de iniciá-la. No caso dos pacientes idosos com ideação suicida, nota-se que muitos deles podem ser mais incisivos no assunto e comentam sobre o desejo com amigos e

Transtorno de Déficit de Atenção em Adultos | Colunistas

Introdução O Transtorno de Déficit de Atenção é uma situação prejudicada do neurodesenvolvimento o qual apresenta uma combinação de sintomas de desatenção, de hiperatividade e de impulsividade. Além disso, o TDAH é mais corriqueiro no sexo masculino, com uma proporção de 2:1 em crianças e de 1,6:1 nos adultos. Também é mais frequente que mulheres apresentem os sintomas de desatenção, enquanto os homens apresentem maior hiperatividade, tudo isso ocasiona prejuízos nas diferentes áreas da vida do indivíduo como a social, a acadêmica, a profissional e os relacionamentos interpessoais. A depender da frequência dos sintomas do TDAH, ele pode se manifestar de diferentes formas: combinada; predominantemente desatenta; predominantemente hiperativa ou impulsiva. Na atual classificação do DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), ele ainda sugere uma classificação do transtorno como leve, moderado e grave, de acordo com a quantidade de sintomas presentes e o grau de comprometimento que os mesmos causam no funcionamento do indivíduo. Durante muito tempo, acreditou-se que o TDAH era um tema restrito à psiquiatria da infância e do adolescente, entretanto devido a uma série de estudos e evidências atuais, sabe-se que existe um TDAH que pode começar na fase adulta ou pode surgir um TDAH que na infância os sintomas eram leves, porém ficam mais evidentes na vida adulta. Assim, existem muitos adultos que embora capacitados e inteligentes, sofrem com os sintomas da doença e são taxados como irresponsáveis, preguiçosos e desleixados, todavia eles apresentam esse quadro neurobiológico que não está sendo tratado. Logo, esse texto irá percorrer sobre o quadro clínico, comorbidades relacionadas com o transtorno e as consequências funcionais do TDAH em adultos. Quadro Clínico De maneira geral, o sintoma de desatenção é mais prevalente que

Prescrição em psiquiatria

A prescrição em psiquiatria em uma unidade de internação possui uma formatação própria determinada pelo OMS. Antes de começar a aprender a ordem e componentes, sempre importante lembrar: toda folha de prescrição deve ter nome, registro de prontuário, data e hora! São requisitos indispensáveis na leitura e elaboração de uma prescrição. A segurança do seu paciente depende disso. As prescrições devem ser organizadas/sintetizadas a depender da via, tal que IV > IM > VO. Seguindo a ordem droga > dose > via > intervalo. Os itens são organizados na seguinte ordem: Item 1: Antipsicótico Em unidades de internação psiquiátricas é muito comum observar a prescrição de Haldol. Esse medicamento nas primeiras semanas de internação é administrado por via intramuscular na primeira semana que o paciente interna, para ter certeza que ele está fazendo uso correto da medicação. Exemplo de prescrição: 2 ampolas de 10 mg, uma de manhã, outra à noite. Item 2: Benzodiazepínico Se precisar que o paciente seja sedado, introduzir benzodiazepínico (item 2). Entretanto, como na primeira semana a via mais utilizada é a intramuscular e essa via leva a uma absorção errática dos benzodiazepínicos (via preferível é a intravenosa), a medicação de escolha, nesse momento, é o fenergam (prometazina), anti-histamínico utilizado para obter seu efeito colateral (sedação). Utilizado bastante no Brasil, porém, raramente utilizado em outros países. Clorpromazina também é uma possibilidade. Exemplo de prescrição: Seringa a noite com 2 ml de haloperidol + 2 ml de fenergam. Item 3: Antiparkinsoniano Quando o paciente apresenta sensibilidade ao antipsicótico, sintomasextrapiramidais, usar um antiparkinsonianos: biperideno é um exemplo bem comum.

Diretriz de Transtorno de Pânico: Diagnóstico – AMB | Ligas

O Transtorno de Pânico (TP) é geralmente incapacitante visto que, a longo prazo, está intimamente relacionado a fatores como a perda da qualidade de vida, da produtividade e da interação social, por exemplo. Por possuir sinais e sintomas semelhantes a muitos quadros clínicos, o processo de diagnóstico dessa condição tende a ser dificultado e acaba sendo realizado tardiamente. A concomitância com uso abusivo e dependente de álcool e drogas ilícitas, doenças clínicas e com demais transtornos, como a depressão, pode estar associada a casos mais graves e com a dificuldade na remissão do Transtorno de Pânico. A agorafobia, apesar de estar presente em 1/3 dos pacientes afetados pelo TP, é comumente subdiagonosticada e subtratada. Aspectos como origem do ataque de pânico, crenças do medo e história clínica do paciente são fundamentais não só para a identificação de comorbidades, mas principalmente para o diagnóstico diferencial em relação a outras doenças e transtornos. A presença de diagnósticos precoces e adequados contribui para a obtenção de melhor tratamento e remissão da TP. O que mudou na diretriz de Transtorno do Pânico: Diagnóstico em relação à anterior Diferente da diretriz anterior, a atual mostra o início de TP em idades médias entre 20 e 24 no Estados Unidos, ao invés de atrelar a maioria das primeiras manifestações aos adolescentes. Além disso, há o acréscimo de reflexões sobre a presença de diferentes taxas para diferentes idades. Em relação ao diagnóstico, a nova diretriz elucida a necessidade de determinados elementos como o fato de um ataque de pânico ser completo e inesperado para que haja o correto diagnóstico. Também houve o acréscimo dos sentimentos de desrealização e despersonalizacão e a consideração de agentes que provocam ataques de pânico como

Diretrizes para a Gestão do Comportamento Suicida – Parte 2: Triagem, Intervenção e Prevenção – ABP | Ligas

As diretrizes de gestão do comportamento suicida com ênfase na triagem, intervenção, prevenção e promoção trazem evidências – ainda que insatisfatórias e às vezes controversas – sobre a eficácia de medidas para pacientes de comportamento suicida no Brasil. Dos últimos anos para cá, as taxas de suicídio têm se tornado cada vez mais expressivas, e hoje é uma das principais causas de morte no mundo. Esse preocupante cenário reforça a necessidade e a importância da construção das diretrizes de gestão do comportamento suicida pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), na tentativa de manejar da melhor forma essa emergência médica. Pioneirismo da diretriz no Brasil A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) até pouco tempo não possuía uma diretriz única sobre o tratamento do comportamento suicida no Brasil. Apesar de existirem outras diversas diretrizes instituídas sobre o assunto, não existia uma publicação recente nacional e que se encaixasse na realidade de suicídio do Brasil. Portanto, em 2020, viu-se a necessidade pela ABP de elaborar dois documentos com diretrizes exclusivas para a gestão dessa questão da saúde pública brasileira. A sua confecção contou com a contribuição de treze psiquiatras e um psicólogo selecionados pela Comissão de Emergências Psiquiátricas da ABP.  O documento de parte 1 aborda os fatores de risco, fatores de proteção e avaliação, e o de parte 2 – que iremos aprofundar mais aqui – trata-se da triagem, intervenção e prevenção/promoção. Epidemiologia/Etiologia O suicídio é definido como: “um ato deliberado, iniciado e levado a cabo por uma pessoa com pleno conhecimento ou expectativa de um resultado fatal”, para a Organização Mundial de Saúde. Além disso, é considerado uma emergência médica mundial, devido às suas altas e crescentes taxas, principalmente entre os
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