Ética médica

Tatuagem do Bem: até onde interfere no serviço Médico | Colunistas

Tatuagem é a arte de gravar na pele, uma tradição milenar que atualmente está cada vez mais sendo introduzida na medicina a fim de identificar doenças e condições crônicas, como também, desejos entre vida e morte.

“Não ressuscitar”, “alergia à penicilina”, “alergia à AAS”, “Diabetes tipo 1”, “uso de anticoagulantes” são algumas das tatuagens que você pode encontrar no seu plantão.
De fato, um paciente desacordado, sem acompanhante, é um enigma, mas se vier com uma pista, torna o tratamento mais orientado e assertivo, levando a equipe a procurar por outras alternativas de tratamento e evitar possíveis complicações.

O que são as “tatuagens do bem”?

As “tatuagens do bem”, movimento iniciado nos EUA em 2006, vêm tomando proporções cada vez maiores.

Tatuadores oferecem o serviço a preço de custo, em prol do bem-estar e segurança da saúde de seus clientes.

Quando o paciente apresenta condições crônicas, que por vezes ameaçam a vida caso o tratamento adequado não seja rápido, esse recado torna-se um alerta para a equipe médica, mas e quando a tatuagem acaba por interferir de forma negativa na vida? É o caso daquelas que trazem a mensagem de “NÃO RESSUSCITAR”.

Tatuagem “Não Ressuscitar”, o que fazer?

Aprendemos durante a faculdade que a autonomia do paciente deve ser respeitada, mas também fazemos o juramento de salvá-lo. Um dilema que pode atrasar o tratamento e ter consequências irreversíveis.

Ao receber um paciente que traz consigo essa tatuagem, a equipe de emergência e os médicos não são obrigados a acatar a mensagem.

Se o paciente está responsivo, como no caso daqueles com doenças crônicas terminais, ou até oncológicos, a tatuagem traz à tona uma conversa sobre os valores e vontades do paciente.
 Com respaldo da Resolução 1995/2012 do Conselho Federal de Medicina, que estabelece um estudo de final de vida, sem confrontar qualquer texto legal, ajustada com a ética legal, lê-se:

 “Artigo 1º: Definir diretivas antecipadas de vontade como o conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade.”

Assim, tanto no paciente ambulatorial, quanto naquele desconhecido nas salas de emergências, faz-se necessária a presença do documento chamado “Diretrizes Antecipadas de Vontade do Paciente” ou “Testamento Vital”, podendo ser revogado a qualquer momento.

Sem a presença do documento, que deve ser citado no prontuário, assinado pelo paciente em questão, permanece a inviolabilidade do direito à vida. Ou seja, a ressuscitação deverá ser feita.

O caso que trouxe essa discussão foi de um senhor de 70 anos nos EUA, cardiopata, diabético, levado ao pronto socorro, inconsciente e sem acompanhante (1).

A equipe se deparou com a tatuagem “DO NOT RESUSCITATE” (D.N.R) em seu peito. O caso foi levado ao comitê de ética do hospital, e optou-se por respeitar a vontade do paciente.

Porém, no mesmo país, ocorreu um caso semelhante (2) com um desfecho inusitado. Um homem de 59 anos, diabético, cardiopata, dislipidêmico, é admitido no hospital por feridas que não cicatrizavam.

Durante o exame físico, observou-se a presença da tatuagem D.N.R em seu peito. Em conversa com a equipe, fora constatado que o paciente desejava ser ressuscitado, e que a tatuagem era resultado de uma aposta num jogo de poker.

Fica o questionamento: e se não tivessem visto essa tatuagem a tempo? A tatuagem por si é suficiente para demonstrar o desígnio do paciente?

Conclusão

 
Leve como principal mensagem, primeiramente, a importância da inspeção no exame físico.
Talvez, após muito tempo de atuação, acabamos por negligenciar alguns passos da anamnese, fazendo tudo de forma automática.

Contudo, encontrar uma tatuagem médica pode mudar totalmente sua conduta, bem como, definir uma possível RCP ou não. No caso de pacientes conscientes que possuam tatuagens com ordem de não ressuscitar, sempre converse novamente sobre seus desejos e valores.

Se ainda assim, for sua vontade, garanta os documentos necessários, visto que apenas a tatuagem não tem validade legal aqui no Brasil.

Já para os pacientes na sala de emergência, sem histórico prévio ou documentos que comprovem seu desejo, o direito à vida prevalece.

REFERÊNCIAS

1 – Gregory E. Holt, M.D., Ph.D. et al. An Unconscious Patient with a DNR Tattoo.  University of Miami, Miami, FL , N Engl J Med 2017; 377:2192-2193      DOI: 10.1056/NEJMc1713344

2- Cooper, L. & Aronowitz, DNR Tattoos: A Cautionary Tale.   P. J GEN INTERN MED (2012) 27: 1383. https://doi.org/10.1007/s11606-012-2059-8


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