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Teste da orelhinha e do coraçãozinho: principais aspectos desses testes de triagem neonatal | Colunistas

Teste da orelhinha e do coraçãozinho: principais aspectos desses testes de triagem neonatal | Colunistas

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Jéssica N. Borba

9 min há 7 dias

Introdução:

Existem várias doenças que acometem o ser humano desde a gestação, outras são detectadas ao nascer e medidas preventivas podem ser tomadas para evitá-las. Esse é o objetivo dos testes de triagem neonatal e a detecção precoce salva vidas ou melhora a qualidade delas.

A OMS, em 2005, constatou que milhões de pessoas têm perdas auditivas de grau moderado a profundo, sendo que metade desses casos de deficiência auditiva poderia ser prevenida e seus efeitos minimizados se a intervenção fosse iniciada precocemente, como pelo teste da orelha nas primeiras horas de vida. Segundo dados de diferentes estudos epidemiológicos, a prevalência da deficiência auditiva varia de um a seis neonatos para cada mil nascidos vivos, e de um a quatro para cada cem recém-nascidos provenientes de Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN).

Além disso, a mortalidade neonatal precoce representa cerca de 60 a 70% da mortalidade infantil, sendo 25% dessas mortes no primeiro dia de vida. Nesse viés, as cardiopatias congênitas correspondem a cerca de 10% dos óbitos infantis, sendo 20 a 40% dos óbitos decorrentes de malformações. É importante salientar que no período neonatal concentram-se riscos biológicos, ambientais, socioeconômicos e culturais, havendo necessidade de cuidados especiais e triagens preventivas na atenção básica à saúde.

Palavra-chave: triagem neonatal; teste da orelha; teste do coraçãozinho

TRIAGEM AUDITIVA NEONATAL – TAN 

O que é?

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o Teste da Orelhinha, ou “exame de emissões otoacústicas evocadas”, é o método mais moderno para constatar problemas auditivos nos recém-nascidos, em que há uma avaliação através de exames eletrofisiológicos e eletroacústicos, com objetivo de detectar perda auditiva no período neonatal. Ele consiste na produção de um estímulo sonoro e na captação do seu retorno por meio de uma delicada sonda introduzida na orelhinha do RN. 

É rápido, seguro e indolor. Além de que é um teste assegurado por lei e todos os bebês devem fazer para saber se está tudo bem com a audição.

Quando e onde fazer?

É feito ainda no hospital, com o RN dormindo, preferencialmente nas primeiras 24 a 48 horas de vida, ou, quando não é possível , deve ser feito ainda no primeiro mês de vida, como nos casos em que a criança tenha nascido em domicílio ou em serviço de saúde sem disponibilidade do exame. Ele leva de 5 a 10 minutos para ser concluído. No caso de suspeita de alguma anormalidade, haverá encaminhamento para uma avaliação otológica pediátrica e audiológica completa.

Por que fazer?

A audição é um dos sentidos mais importantes para o desenvolvimento completo da criança. O feto inicia a escuta por volta do quinto mês de gestação, em que ele ouve a voz e os sons do corpo da mãe e inicia o desenvolvimento da linguagem. Qualquer perda na capacidade auditiva, mesmo que pequena, impede a criança de receber adequadamente as informações sonoras essenciais para a fala.

Existem duas metodologias utilizadas na triagem:

  1. Emissões Otoacústicas Evocadas (EOAE): é um teste rápido, simples, não invasivo, com alta sensibilidade e especificidade, capaz de identificar a maioria das perdas auditivas cocleares; 
  2. Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico (PEATE ou, em inglês, Brainstem Evoked Response Audiometry – BERA): é utilizado como primeira escolha em neonatos e lactentes com Indicadores de Risco para Deficiência Auditiva (IRDA) devido à maior prevalência de perdas auditivas retrococleares nessa população e não identificáveis por meio do registro das EOAE.

Indicadores de Risco para Perda Auditiva (IRDA)

Congênitos e perinatais:

  • História familiar de surdez permanente na infância de instalação precoce, progressiva ou tardia.
  • UTI neonatal por mais de 5 dias.
  • Hiperbilirrubinemia com exsanguineotransfusão independente de tempo de permanência em UTI.
  • Uso de aminoglicosídeos por mais de 5 dias.
  • Asfixia ou encefalopatia hipóxico-isquêmica.
  • Uso de oxigenação extracorpórea (ECMO).
  • Infecções intraútero por toxoplasmose, sífilis, rubéola, citomegalovírus, herpes (TORCH) ou Zika.
  • Malformações craniofaciais.
  • Microcefalia congênita.
  • Hidrocefalia congênita ou adquirida.
  • Anormalidades do osso temporal.
  • Síndromes que cursam com surdez.

Perinatais ou tardias:

  • Infecções que cursam com surdez como meningites e encefalites bacterianas ou virais (especialmente vírus herpes e varicela).
  • Trauma craniano (especialmente base de crânio e temporal).
  • Quimioterapia.
  • Suspeita familiar de surdez, alteração de fala ou linguagem e atraso ou regressão do desenvolvimento.

Fonte: Academia Brasileira de Audiologia et al. (2020)

Fluxograma 

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2021), adaptado de Ministério da Saúde (2012)

Teste do coraçãozinho

O Departamento de Cardiologia e Neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria realizou uma pesquisa em que cerca de 1 a 2 de cada 1000 recém-nascidos vivos apresentam cardiopatia congênita crítica e que, 30% destes recém-nascidos recebem alta hospitalar sem o diagnóstico, podendo evoluir para choque, hipóxia ou óbito precoce, antes de receber tratamento adequado.

Quais são consideradas cardiopatias congênitas críticas? 

Aquelas onde a apresentação clínica decorre do fechamento ou restrição do canal arterial (cardiopatias canal-dependentes), tais como:

  1. Cardiopatias com fluxo pulmonar dependente do canal arterial: Atresia pulmonar e similares;
  2. Cardiopatias com fluxo sistêmico dependente do canal arterial: Síndrome de hipoplasia do coração esquerdo, coartação de aorta crítica e similares;
  3. Cardiopatias com circulação em paralelo: transposição das grandes artérias.

Quando e onde é realizada?

Na maioria das Unidades Neonatais, a alta hospitalar é realizada entre 36 e 48 horas de vida. Nesta fase, a manifestação clínica das cardiopatias críticas pode ainda não ter ocorrido principalmente nas cardiopatias com fluxo sistêmico dependente de canal arterial. A ausculta cardíaca pode ser aparentemente normal nesta fase.

Importância do teste

Realizar o teste de triagem permite o diagnóstico precoce, que é fundamental, pois pode evitar choque, acidose, parada cardíaca ou agravo neurológico antes do tratamento da cardiopatia. Vale salientar que melhorar o diagnóstico destas cardiopatias poderá reduzir a taxa de mortalidade neonatal.

O método ideal para o diagnóstico de cardiopatia congênita é o ecocardiograma com mapeamento de fluxo em cores seja fetal ou pós-natal, porém a sua utilização como ferramenta de triagem é inviável.

Aspectos gerais sobre o teste

  • Momento da aferição: Entre 24 e 48 horas de vida, antes da alta hospitalar.
  • Resultado normal: Saturação periférica maior ou igual a 95% em ambas as medidas (membro superior direito e membro inferior) e diferença menor que 3% entre as medidas do membro superior direito e membro inferior.
  • Resultado anormal: Caso qualquer medida da SpO2 seja menor que 95% ou houver uma diferença igual ou maior que 3% entre as medidas do membro superior direito e membro inferior, uma nova aferição deverá ser realizada após 1 hora. Caso o resultado se confirme,um ecocardiograma deverá ser realizado dentro das 24 horas seguintes.
  • Limitações: apresenta sensibilidade de 75% e especificidade de 99%. Portanto, algumas cardiopatias críticas podem não ser detectadas através dele, principalmente aquelas do tipo coartação de aorta. Destaca-se que a realização deste teste não descarta a necessidade de realização de exame físico minucioso e detalhado em todo recém-nascido, antes da alta hospitalar.
oximetria de pulso

Conclusão

É indiscutível que a realização dos testes de triagem permitem evitar danos e mortes neonatais em tempo mais hábil. Qualquer perda na capacidade auditiva, mesmo que pequena, impede a criança de receber adequadamente as informações sonoras essenciais para a fala. Além disso, é garantido por lei o teste da orelhinha e do coraçãozinho.

É fato que, muitas vezes, a criança nasce aparentemente com normalidade, mas no final da primeira semana ou do primeiro mês de vida, desenvolve um quadro de choque e/ou de hipóxia (falta de oxigênio) sem ter a disposição um atendimento hábil. Porém deve-se destacar que auscultar o bebê pode não ser o bastante e a oximetria não substitui outros exames, como o Ecocardiograma fetal, com 20 semanas. Por isso, a história da gestação, a anamnese, o exame físico e os testes de triagem são imprescindíveis no diagnóstico precoce feito ainda no recém-nascido.

Autora: Jéssica N. Borba

Instagram: @jessborba_

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências bibliográficas:

Cardiologia e Neonatologia da SBP chamam atenção para o Teste do Coraçãozinho. Link para acesso: https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/cardiologia-e-neonatologia-da-sbp-chamam-atencao-para-o-teste-do-coracaozinho/.

Teste da orelhinha: o que é, quando deve ser realizado e qual a conduta em caso de falha? Link para acesso: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/teste-da-orelhinha/.

Teste da orelhinha-SBP. Link para acesso: https://www.sbp.com.br/especiais/pediatria-para-familias/cuidados-com-o-bebe/teste-da-orelhinha/.

TESTE DO CORAÇÃOZINHO (OXIMETRIA DE PULSO) NA TRIAGEM NEONATAL. Link de acesso: http://conitec.gov.br/images/Incorporados/TesteCoracaozinho-FINAL.pdf.

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