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Tudo o que você precisa saber sobre Polissonografia | Colunistas

Oportunidades objetivas para o estudo do sono datam do século XX. Em 1929, o psiquiatra alemão Hans Berger, por meio de gravação da atividade elétrica cerebral, descreveu as ondas α e β, sendo o pioneiro ao demonstrar as diferenças entre a vigília e o sono. Em 1968, Rechtschaffen e Kales iniciam a avaliação do sono por meio da polissonografia (PSG).

Atualmente a PSG é considerada pela American Academy of Sleep Medicine (AASM) como o método padrão-ouro para o diagnóstico de distúrbios respiratórios do sono (DRS). Seguem as indicações de rotina de PSG:

  • Diagnóstico de Distúrbios Respiratórios do Sono (DRS);
  • Titulação de pressão positiva (CPAP ou Binível) em pacientes com DRS;
  • Avaliação de eficácia terapêutica em casos selecionados;
  • Confirmação do diagnóstico de narcolepsia, em associação com o Teste das Latências Múltiplas do Sono;
  • Avaliação de comportamentos relacionados ao sono de caráter violento ou com risco à segurança;
  • Avaliação de parassonias de apresentação atípica

A polissonografia pode ser dividida didaticamente em tipo 1, 2, 3 e 4, de acordo com a quantidade de canais mensurados: 7, 7, 4-7 e 2, respectivamente.

No tipo 1, chamado polissonografia basal, o exame é realizado no laboratório do sono com auxílio de técnico treinado para montagem dos eletrodos e sensores; contém o eletroencefalograma (EEG). Também pode ser realizada a titulação de pressão positiva para tratamento da apneia do sono e monitoramento com vídeo. O custo da infraestrutura do laboratório, logística operacional e tempo gasto para o laudo são os principais fatores negativos.

O segundo tipo difere do primeiro por ser realizado fora do laboratório de polissonografia, no domicílio do paciente. Também contém EEG e em casos selecionados, pode ser realizada titulação de pressão positiva. Os custos relacionados ao laboratório são dirimidos.

Na polissonografia tipo 3, o foco é avaliação de apneia obstrutiva do sono, o que corresponde à principal indicação do exame. Não dispõe de EEG, somente sensores respiratórios. O tipo 4 apresenta 2 canais, sendo um deles a oximetria não invasiva.

Os parâmetros gerais da PSG basal incluem derivações do eletroencefalograma (EEG), derivações do eletro-oculograma (EOG), eletrocardiograma (ECG), eletromiografia (EMG) de queixo e de membros, sensores de fluxo nasal por transdutor de pressão e oronasal por termístor, sensores de esforço respiratório por pletismografia de indutância, sensores de ronco por microfone ou sensores piezelétricos, saturação da oxiemoglobina por oximetria de pulso e posição corporal. Todos esses parâmetros são avaliados conjuntamente, expressos graficamente como um hipnograma (figura1).

O papel central do EEG na PSG é o estagiamento do sono ao identificar e diferenciar o estágio vigília das diferentes fases do sono: NREM1, NREM2 e NREM3 e REM. As proporções de fase de sono variam com a idade e sofrem efeitos de medicamentos e comorbidades.  
Os distúrbios respiratórios são avaliados por, no mínimo, 3 canais:
1) sensores de detecção do fluxo aéreo (termístor/termopar e transdutor de pressão);
2) esforço respiratório (cintas de pletismografia de indutância preferencialmente, ou piezelétricas, torácica e abdominal);
3) saturação arterial de oxigênio (oxímetro de pulso).

Logo, os eventos respiratórios são divididos por sua apresentação em apneias (obstrutivas, mistas e centrais) e hipopneias. A quantidade de eventos observados durante o exame é dividido pelo tempo de avaliação resultando no índice de apneia-hipopneia (IAH). O IAH é determinante para definição terapêutica.

            A polissonografia tem evoluído para aparelhos cada vez menores e mais acessíveis, com monitoramento remoto em tempo real e laudo automático. A alta prevalência de apneia obstrutiva do sono tem exigido exames mais baratos, acessíveis e confiáveis, principalmente quanto ao rastreio em populações de risco.
A tecnologia de desenvolvimento de softwares, inteligência artificial e big data superam a velocidade de revisão dos dados e consequentemente, as publicações científicas andam um passo atrás. Porém apesar desse crescimento exponencial, devemos focar em pensar nos distúrbios do sono, solicitar e interpretar a polissonografia adequadamente.

Figura1. Hipnograma. No eixo vertical temos os parâmetros mensurados (despertares, estágios de sono, posição corporal, movimento de pernas, dessaturação, oximetria, frequência cardíaca, ronco, atividade corporal, apneia e hipopneias, respectivamente. No eixo horizontal, a hora. (Acervo do autor)

imagem-hipnograma

Referências

  1. Berger H. Über das Elektrenkephalogramm des Menschen. Sechste Mitteilung. Arch Psychiatr Nervenkr. 1933; 102:555 – 574.
  2. Heinzer et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in the general population: the HypnoLaus study. Lancet Respir Med. 2015 Apr; 3(4): 310–318
  3. Costa LE, Uchôa CHG, Harmon RR, et al. Potential underdiagnosis of obstructive sleep apnoea in the cardiology outpatient setting. Heart 2015;101:1288-1292
  4. Berry RB, Brooks R, Gamaldo CE, et al. for the American Academy of Sleep Medicine. The AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events: Rules, Terminology and Technical Specifications. Darien, IL: American Academy of Sleep Medicine; 2017. Version 2.4.
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