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Um resumo sobre a espironolactona | Colunistas

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A espironolactona é um fármaco com atividade diurética amplamente utilizado na prática médica. E entender bem a farmacologia e as indicações desse medicamento são essenciais na prática médica!

História da Espironolactona

Após a descoberta da atividade natriurética da progesterona não demorou muito para que fosse elaborado um composto sintético com atividade anti-mineralocorticóide a partir desse hormônio. Em 1961 foi patenteada essa substância sintetizada quatro anos antes que ganhou o nome de espironolactona. Essa droga ganhou o mercado no ano de 1959 e ao longo do seu uso efeitos colaterais como ação antiandrogênica e ginecomastia foram detectados. Esses efeitos fizeram com que esse medicamento logo fosse sugerido para tratamento de hirsutismo em mulheres e anti-androgênios para mulheres transsexuais. Em 2016 essa droga já ocupava a posição 66 entre as drogas mais prescritas nos Estados Unidos da América.

Farmacologia da Espironolactona

Características Químicas

A espironolactona é um antagonista do receptor de mineralocorticóide, proveniente da progesterona. Ela é produzida pela substituição de alguns grupamentos da progesterona cuja consequência é aumento da biodisponibilidade e da potência quando usada oralmente (características que a progesterona não possui). Além disso, a espironolactona tem grande atividade antiandrogênica e baixa atividade progestagênica como características que a separam do seu composto originário.

Farmacocinética da Espironolactona

Figura 1- Estrutura química da Espironolactona ​​por Ayacop – PubChem, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1524277

A principal característica da Espironolactona é sua atividade anti-mineralocorticóide, mas ela também carreia consigo atividade antiandrogênica moderada, fraca inibição da esteroidogênese. Esse medicamento na verdade é uma pró-droga, que é metabolizada em agentes ativos

Efeitos anti-mineralocorticóides

Sua ação anti-mineralocorticóide se dá pela ligação ao receptor de mineralocorticóide e bloqueio deste. Essa atividade que dá seu uso no tratamento de:

  • Edema
  • Hipertensão arterial sistêmica
  • Insuficiência cardíaca
  • Hiperaldosteronismo
  • Ascite cirrótica. 

Os efeitos principais da espironolactona também são provenientes da interação da droga com o receptor de mineralocorticóide:

  • Aumento da frequência urinária
  • Desidratação
  • Hiponatremia
  • Hipotensão arterial
  • Fadiga
  • Tontura
  • Acidose metabólica
  • Queda de função renal
  • Hipercalemia (risco)

E um dos efeitos séricos da espironolactona é o aumento da aldosterona circulante, que pode ser reflexo da tentativa de retomada homeostática do corpo.

Efeitos Antiandrogênicos

A espironolactona também apresenta efeitos anti androgênicos, que se dão pela atividade antagonista desse fármaco no receptor androgênico. Por conta dessa atividade a espironolactona também é empregada no tratamento de condições dermatológicas que ocorrem na dependência de ação de testosterona e dihidrotestosterona:

  • Acne
  • Seborreia
  • Hirsutismo
  • Alopécia androgenética
  • Hiperandrogenismo em mulheres
  • Puberdade precoce em meninos com testotoxicose
  • Terapia hormonal feminilizante em mulheres transsexuais

Também por conta dos efeitos antiandrogênicos que os usuários podem apresentar efeitos colaterais ao uso de espironolactona:

  • Mastalgia
  • Ginecomastia em homens
  • Femilinização
  • Demasculinização em homens

Efeitos Inibidores da Esteroidogênese

A ação inibidora da esteroidogênese da espironolactona se dá pela sua ação sobre enzimas dessa cadeia de síntese de esteróides. Essa ação foi vista in vitro, porém os resultados de estudos clínicos são discordantes, mesmo nos que utilizaram altas doses de espironolactona. Uma das explicações da baixa atividade inibitória de esteróides dessa droga é a regulação aumentada de vias alternativas que mantém os níveis hormonais normais ou próximos da normalidade. 

Essa atividade pode ser o cerne das irregularidades menstruais vistas em mulheres que fazem uso de espironolactona, assim como auxiliar no efeito antiandrogênico desse medicamento. 

Farmacodinâmica da Espironolactona

Absorção da Espironolactona

A espironolactona tem biodisponibilidade entre 60 e 90% quando usada via oral e é elevada quando o medicamento é usado junto com a alimentação do paciente, que pode estar associada a uma menor metabolização de primeira passagem do fármaco. 

Distribuição da Espironolactona

A espironolactona e seu metabólito ativo são carreados pelo plasma em sua maior parte ligados à albumina. Esse fármaco não tem capacidade de se ligar às proteínas de carreamento de corticóides e de esteróides sexuais em taxas altas o suficiente para deslocar o equilíbrio desses compostos. 

Metabolização da espironolactona

Quando usada via oral a espironolactona tem metabolização rápida e de primeira passagem principalmente no fígado, tendo uma meia vida de cerca de 1:30 e características de pró-droga. Já seus metabólitos ativos chegam a circular por até 16:30. Os três principais metabólitos dessa droga são:

  • 7-α-tiometilespironolactona
  • 6-β-7-α-tiometilespironolactona
  • Canrenona

A metabolização da espironolactona se dá por duas principais vias: hidrolização ou desacetilação por carboxilesterases. 

Eliminação da espironolactona

A eliminação da espironolactona se dá principalmente através de excreção renal.

Empregos Médicos da Espironolactona

O uso principal da espironolactona é no tratamento da insuficiência cardíaca. Mas uma diversidade de situações podem ser tratadas com o emprego deste fármaco.

Insuficiência Cardíaca e Espironolactona

A prescrição de Espironolactona em pacientes com insuficiência cardíaca se mostrou importante para a redução da morbidade e mortalidade da doença. Esse diurético não se encontra na primeira linha de medicamentos para a condição, mas pode ser empregado com objetivo de controlar:

  • Retenção de fluidos
  • Edema
  • Sintomatologia da insuficiência cardíaca

A indicação da Sociedade Americana de Cardiologia é que a espironolactona seja empregada em pacientes a partir da classe II da New York Heart Association que tenham fração de ejeção abaixo de 35%. Esse medicamento pode ser usado na fase de otimização do uso de inibidores da enzima conversora de angiotensina e betabloqueadores, como um adjuvante. Os efeitos diuréticos da espironolactona demoram até 3 dias para se instalar.

É importante salientar que pacientes com taxa de filtração glomerular abaixo de 30ml/min/1,73m² e potássio acima de 5 mEq/L devem ter a dose de espironolactona corrigida para a capacidade renal ou ainda optado por outro medicamento com ação diurética que não a espironolactona. 

Deve-se optar por curtos períodos de uso de espironolactona em homens com insuficiência cardíaca, por conta dos riscos de instalação de hipogonadismo devido aos efeitos antiandrogênicos da espironolactona.

Hipertensão Arterial Sistêmica e Espironolactona

A Sociedade Brasileira de Cardiologia coloca, em sua diretriz para o tratamento de hipertensão arterial, a espironolactona como o quarto fármaco a ser adicionado no esquema anti-hipertensivo como tentativa de controle pressórico de pacientes que têm pouca resposta ou resposta insuficiente a esquemas com três drogas em doses adequadas. 

Espironolactona na Dermatologia

Por conta dos efeitos antiandrogênicos da espironolactona é possível lançar mão desse fármaco para tratamento de acne, hirsutismo, pele oleosa, seborreia e alopécia androgenética com relativo sucesso, apesar desse fármaco não ser originalmente para essas condições.

Quando associada a pílula anticoncepcional a espironolactona tem um efeito benéfico em mulheres que sofrem com acne, pele oleosa e hirsutismo. Por conta da capacidade teratogênica de feminização de fetos masculinos é essencial que se prescrita para tratamento de mulheres em idade fértil a espironolactona seja associada a um medicamento anticoncepcional. 

Contraindicações da Espironolactona

O uso de espironolactona é contra-indicado em pacientes que apresentem hipercalemia, pacientes com doença renal crônica, com doença de Addison (insuficiência adrenal) e em uso de análogos da espironolactona. Esse diurético é considerado poupador de potássio e deve ser levado em consideração na prescrição.

Efeitos colaterais da Espironolactona

Os efeitos colaterais da Espironolactona são diversos e muitos deles são o objetivo quando se trata de algumas afecções para as quais ela é empregada. 

  • Aumento da frequência urinária
  • Desidratação
  • Hiponatremia
  • Hipotensão leve
  • Tontura
  • Sonolência
  • Pele seca
  • Rash cutâneo
  • Mastalgia
  • Ginecomastia em homens
  • Feminilização em homens
  • Demasculinização
  • Disfunção sexual
    • Perda de libido
    • Disfunção erétil
  • Atrofia testicular
  • Redução de fertilidade
    • Anormalidades de sêmen
    • Redução de motilidade de espermatozóides
  • Irregularidade menstrual 
  • Aumento de mamas em mulheres
  • Hipercalemia (o efeito mais temido)
  • Náusea
  • Vômito
  • Cólicas
  • Diarreia
  • Gastrite

Resumo: Espironolactona

A espironolactona é um diurético poupador de potássio com empregos em várias condições de saúde, em especial em pacientes com insuficiência cardíaca e hipertensão arterial. O efeito colateral mais temido dessa droga é a hipercalemia, que ocorre mais frequentemente em idosos e doentes renais crônicos. O uso em homens pode levar a hipogonadismo e efeitos colaterais feminilizantes indesejados, por conta disso deve-se optar por cursos curtos dessa droga.

A prescrição de qualquer fármaco deve ser bem avaliada pelo médico e pelo paciente para que se ofereça uma escolha informada dos efeitos benéficos e dos possíveis efeitos colaterais. Antes de tudo devemos prezar pela não maleficência do paciente!

Autora: Annelise Oliveira

@anniemnese

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

Spironolactone – https://en.wikipedia.org/wiki/Spironolactone

Efficacy and Safety of Spironolactone in Acute Heart Failure: The ATHENA-HF Randomized Clinical Trial – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28700781/

Spironolactone – ​​https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28024992/

A comparison of the aldosterone-blocking agents eplerenone and spironolactone – https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18404673/

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