Alergologia e imunologia

Vacina nasal contra o coronavírus: vanguarda da imunização? | Colunistas

Vacina nasal contra o coronavírus: vanguarda da imunização? | Colunistas

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João Flávio Almeida

7 minhá 64 dias

Introdução

Sempre que se fala em vacinas, existe aquele engraçadinho que dispara: “só vou tomar a vacina quando sair em gota”. A Universidade de São Paulo (USP) está desenvolvendo uma vacina contra o SARS-CoV-2/COVID-19 que não é em gota, nem oral, porém tem via de aplicação tão simples quanto.

O estudo, realizado no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, com parceria da Universidade de Campinas (UNICAMP) visa à elaboração e aprovação de uma vacina contra o coronavírus por via nasal.

A vacina, que é 100% nacional, começou a ser desenvolvida em Abril de 2020, e já está sendo testada em camundongos. Espera-se que a vacina comece a ser testada em humanos ao final de 2021 ou início de 2022.

O termo vanguarda vem do francês “avant garde”, literalmente significa “a parte frontal de um exército, aquela que entra primeiro na guerra”, mas é utilizada como sinônimo de “pioneirismo”; “inovação”. Seria o desenvolvimento da vacina por via nasal vanguarda para novas formas de imunização que não a tradicional “injeção”?

A Vacina

Após estudo laboratorial de amostras séricas de 220 pacientes infectados pelo COVID-19, os cientistas identificaram o principal alvo da resposta imune: uma proteína presente na espícula do vírus chamada RBD (Receptor Binding Protein – Proteína ligante ao receptor). Essa proteína se acopla ao receptor da enzima conversora de angiotensina-2 (ECA-2 ou ACE-2 em inglês), e a partir de sua ligação, o vírus penetra as defesas do organismo e passa a infectar o hospedeiro.

A partir disso, os cientistas começaram a desenvolver uma vacina que combina fragmentos que induzem a resposta de células T e fragmentos da RBD, por meio de nanotecnologia, gerando no paciente resposta imune que irá criar defesas específicas para o antígeno e assim impedir sua ligação com o receptor do hospedeiro e, consequentemente, sua contaminação.

Mecanismo de Ação

O motivo de se preferir a via nasal nessa vacina é simples, e, ao mesmo tempo, complexo. Segundo Jorge Kalil Filho, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor-HCFMUSP, “tem duas formas de nós combatermos o vírus: não o deixando entrar em uma célula, ou, caso ele tenha entrado em uma célula e a infectado, ele pode ser morto por outra célula do sistema imune”. O mecanismo de ação das vacinas injetáveis, geralmente, é obtido pela formação de anticorpos específicos, principalmente nas formas das imunoglobulinas G (IgG) e M (IgM), que, uma vez que o vírus se encontra na corrente sanguínea, começam a atacar o vírus, principalmente ao opsonizar sua cápsula, assim os “marcando” para serem destruídos por outras células. A vacina que está sendo desenvolvida pretende impedir a entrada do vírus até mesmo na corrente sanguínea, uma vez que o vírus já seria destruído na barreira mucosa do trato respiratório (uma das nossas três barreiras de defesa inata).

 O anticorpo envolvido nesse processo também é diferente da vacina convencional: enquanto a injeção induz a formação de IgM e IgG, o principal anticorpo envolvido no tecido epitelial da mucosa nasal é o IgA. Apesar disso, essa vacina também é capaz de gerar resposta imune humoral em nível sanguíneo com a produção de IgG, bem como a vacina convencional, ou seja: a vacina nasal gera uma nova via de resposta imune ao COVID-19, sem perder o efeito sobre a imunidade humoral sanguínea, sendo também efetiva se, porventura, o vírus ainda assim atingir a corrente sanguínea.

A vacina seria capaz de induzir forte reação imunológica local, facilitando o combate do vírus pelas próprias células de defesa na mucosa nasal. Além disso, a vacina seria nacional e com produção e armazenamento simples, se comparado às demais vacinas, provavelmente sendo uma alternativa com melhor custo-benefício. Finalmente, a vacinação por via nasal é mais simples que por via injetável, não requerendo profissional com treinamento específico, nem uso de agulhas ou seringas (que geram custos e diminuem a disponibilidade), além de ter uma adesão maior (uma vez que muitas são as pessoas que tem medo da injeção).

A vacina funciona praticamente da mesma forma que um spray de rinite alérgica atual, por meio de um jato de partículas que age na mucosa nasal, induzindo sua resposta, podendo também ser armazenada da mesma forma. Apesar de já haver outras vacinas (no caso, injetáveis) para imunização contra o novo coronavírus, a alternativa ainda ficaria pronta para fases posteriores de vacinação. No momento, a vacina passa por testes para ver se seus componentes geram efeitos adversos ou alergias graves, além de estarem sendo feitos testes em camundongos. Segundo Kalil Filho, “Quem vence a corrida é quem chega melhor, em melhores condições de dar uma proteção mais ampla”. Neste quesito, a vacina em desenvolvimento é bastante promissora, trazendo uma nova via de funcionamento.

Liberação da vacina

Apesar de já estar em desenvolvimento, a vacina ainda deve levar tempo para estar disponível para uso. Após liberação de Comitê de Ética em Pesquisa, com comprovação da eficácia da vacina em testes com animais, a vacina segue para testes em humanos, iniciando a fase 2. Na fase 2, será estabelecido se a vacina é realmente capaz ou não de gerar imunidade contra o vírus em humanos. Por fim, o estudo entra em fase 3, em que irá quantificar a eficácia da imunização (seja em redução de sintomas graves, mortalidade geral ou imunidade total ao vírus), e a partir daí, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) gera um registro da vacina para produção, distribuição e comercialização.

Além disso, uma empresa farmacêutica deve apoiar a produção em larga escala da vacina. Do contrário, a vacina se torna apenas um artigo científico, servindo de base para o conhecimento científico, mas não saindo do papel.

Isso significa que a vacina não deve ficar pronta para ser aplicada, caso tudo dê certo, antes do final do ano. Até lá, você, médico ou estudante, muito provavelmente já terá tomado as duas doses da vacina injetável e já estará imunizado. Mas é de essencial importância que saibamos as alternativas e pesquisas que estão sendo feitas quanto à imunização contra o coronavírus. Pois serão os seus pacientes que poderão fazer uso dessa vacina nas fases posteriores de vacinação.

Conclusão

Respondendo àquela pergunta que lancei na introdução, o desenvolvimento de uma vacina por via nasal é sim uma inovação considerável, caso tenha sucesso. Mesmo que ocorra de ao término de seu desenvolvimento a população já ter sido completamente imunizada, ou que não haja apoio da indústria farmacêutica para produção e distribuição da vacina, o desenvolvimento dela abre caminho para uma nova forma de se pensar em imunização. Até o momento, não me recordo de alguma vacina que sequer foi cogitada de ser administrada por via nasal. Seu desenvolvimento pode abrir portas para que, no futuro, mais vacinas nasais possam ser desenvolvidas para outras afecções de vias aéreas, como, por exemplo, as vacinas contra Influenza. Logo, seu desenvolvimento é, sim, vanguardista.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

1. https://jornal.usp.br/ciencias/vacina-em-spray-nasal-e-nova-arma-em-desenvolvimento-contra-o-coronavirus/

2. https://www.band.uol.com.br/noticias/cientistas-ficam-perto-de-fazer-vacina-brasileira-aplicada-por-spray-nasal-16322568

3. https://exame.com/ciencia/como-funciona-a-vacina-em-spray-nasal-100-brasileira-contra-a-covid-19/

4. https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2020/09/04/covid-19-unicamp-e-usp-avancam-na-elaboracao-de-vacina-por-spray-nasal

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