Colunistas

Vacinas astrazeneca e johnson & johnson: possíveis preocupações | Colunistas

Vacinas astrazeneca e johnson & johnson: possíveis preocupações | Colunistas

Compartilhar

Jéssica N. Borba

11 min há 109 dias

Desde que a pandemia do SARS-COV-2 iniciou e se intensificou, deu-se uma largada à corrida mundial incansável por vacinas para toda a população de modo o mais rápido possível. No Brasil, as vacinas disponíveis são Coronavac, Astrazeneca e Pfizer. É importante destacar que assim como um medicamento pode acarretar efeitos colaterais no organismo, as vacinas também, e a maioria deles são normais e previsíveis.

Nesse momento vamos focar em duas vacinas: a AstraZeneca e a Johnson & Johnson, entenderemos suas vantagens e as preocupações quanto aos seus usos.

Palavras-chaves: Vacina. AstraZeneca. Johnson & Johnson. Efeitos. SARS COV 2.

AstraZeneca: o que se sabe atualmente

A vacina ChAdOx1 nCoV-19, baseada em vetores virais, desenvolvida na Universidade de Oxford, na Inglaterra, em parceria com o laboratório AstraZeneca, induz boa resposta imune, incluindo resposta celular, após a aplicação de duas doses. Ela utiliza, como vetor, um adenovírus de chimpanzé não replicante que expressa a proteína S do SARS-CoV-2. Os estudos de fase 1 e 2, envolvendo grupo controle com vacina conjugada meningocócica em adultos saudáveis, mostraram resposta específica de células T no 14° dia após aplicação, com anticorpos neutralizantes detectados entre 91 e 100% dos pacientes, apresentando perfil de segurança aceitável.

Recentemente, casos de trombose e trombocitopenia associados à administração da vacina ChAdOx1 nCov-19 (Vaxzevria e Covishield). O The New England Journal of Medicine publicou dois casos: o primeiro descreve profissionais de saúde entre 32 e 54 anos com trombose em lugares atípicos e trombocitopenia diagnosticados de 7 a 10 dias após a vacinação. Destes, 4 tiveram hemorragia cerebral e 3 evoluíram para óbito. O segundo descreve 11 pacientes com idades entre 22 e 49 anos, sendo 9 mulheres, com pelo menos um evento trombótico ou hemorrágico detectado entre 5 a 16 dias após a vacinação. Entre os eventos trombóticos, 9 pacientes apresentaram trombose venosa cerebral, 3 apresentaram trombose de veia esplênica, 3 apresentaram TEP e 4, outros tipos de trombose. Na série de casos foram relatados 6 óbitos e 5 casos de coagulação intravascular disseminada.

O mecanismo pelo qual a vacinação com a ChAdOx1 nCov-19 elicita a produção de anticorpos anti-PF4 e é capaz de induzir uma condição de trombocitopenia e estado de hipercoagulabilidade semelhante a trombocitopenia induzida por heparina (HIT) clássica ainda não é conhecido. Embora até o momento só tenham sido descritos casos com a vacina ChAdOx1 nCov-19, a OMS reconhece que não é possível excluir que a Síndrome de trombose com trombocitopenia seja um evento adverso relacionado a vacinas que tenham adenovírus como vetor viral. Por esse motivo, outras vacinas com a mesma plataforma, como a vacina Johnson & Johnson, também serão monitoradas para a ocorrência de eventos semelhantes.

No momento, no Brasil e em alguns países do mundo há restrições ao uso da vacina AstraZeneca, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu a imunização de gestantes com essa vacina, o motivo foi a morte de uma gestante que havia se vacinado. O caso ainda está sendo analisado pela Anvisa e pelo Ministério.

Johnson & Johnson (J & J): vantagens e desvantagens.

A vacina J & J tem suas vantagens evidentes. Até o momento sua aplicação é única, ao contrário do esquema de duas doses ao longo de um mês, recomendado para qualquer vacina de mRNA, embora haja estudos pensando em uma segunda dose com dois meses da primeira aplicação para aumentar sua eficácia. Ela também é mais estável e durável em temperaturas mais quentes, o que significa que pode ser armazenada em geladeira comum por mais tempo e sem a preocupação imediata de se deteriorar depois de retirada. Além disso, a vacina da J&J foi testada nos EUA, América do Sul e África do Sul, durante um período em que novas variantes do coronavírus começaram a surgir, sugerindo que a vacina ainda deve fornecer boa proteção, embora ligeiramente reduzida, contra a variante encontrada pela primeira vez na África do Sul. Também pode oferecer alguma proteção contra infecções assintomáticas, o que será ótimo na redução da taxa de transmissão.

De acordo com uma análise feita pela Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês), a partir de ensaios clínicos realizados em cerca de 40.000 voluntários, a vacina da J&J foi considerada 77% eficaz na prevenção de doenças graves a críticas no prazo de 14 dias após a vacinação e 85% em 28 dias depois. De modo geral, foi considerada 66% eficaz na prevenção de doenças moderadas a graves em 14 dias ou mais.

Como ocorre a reação imunológica no organismo?

No caso da vacina Johnson & Johnson há um código genético para a produção de proteínas de espícula, as quais estão localizadas na superfície do novo coronavírus, o que permite que ele infecte as células humanas. Quando as células humanas recebem essas instruções, elas produzem cópias da proteína de espícula. Mas como as células imunológicas produzem apenas uma porção do vírus, e não todo o patógeno em si, a doença não se instala. Porém, essa proteína ainda pode ativar uma resposta imune de duas etapas — exatamente como se espera, ou seja, efeitos colaterais previsíveis.

A princípio, o sistema imune inato proporciona a reação física imediata à vacina. Quando uma pessoa recebe uma dose, um grande número de macrófagos e neutrófilos são acionados para o local da injeção e começam a produzir citocinas, substâncias químicas sinalizadoras. Essa resposta desencadeia diversos sintomas, desde inflamação e inchaço no local da injeção até febre, fadiga e calafrios. Essa resposta — denominada de “reatogenicidade” — significa que as vacinas provocam uma resposta imune inicial forte, desencadeando diversos sintomas. Mesmo que uma pessoa não tenha uma reação desagradável, as vacinas ainda funcionam.

Em seguida, espera-se uma resposta imune adaptativa, numa segunda fase. Durante essa fase, a proteína de espícula gerada pela vacina condiciona os linfócitos B a produzir anticorpos específicos contra o vírus, e os linfócitos T a buscar e destruir as células infectadas. Nesse processo, o organismo leva dias e semanas para fornecer essa proteção de longa duração contra o vírus, por isso as pessoas costumam ter reações mais fortes após a segunda dose. Três semanas após a primeira injeção, o sistema imunológico já foi preparado e os linfócitos B e T estão prontos para combater o vírus, respondendo com os sistemas inato e adaptativo.

O que os dados revelam dos efeitos colaterais e adversos?

Classificam-se os efeitos conforme a gravidade e a incidência: dos “muito frequentes”, observados em um 1 de cada 10 pacientes, aos “muito raros”, detectados em um em cada 10.000 ou mais. É importante destacar que nem todos apresentam efeitos colaterais e/ou adversos após tomar uma vacina contra a covid-19 e os cientistas não sabem exatamente o porquê. “Todos temos nosso sistema imunológico individualizado”, diz John Wherry, diretor do instituto de imunologia da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia. “É quase como nossa própria impressão digital imunológica caracterizada pela genética, sexo, alimentação, nosso ambiente e até mesmo nossa história de vida, que são os fatores aos quais nosso sistema imunológico foi exposto no passado e treinado para responder ao longo dos anos.”

Das cerca de 3,6 milhões de pessoas vacinadas que participaram de uma pesquisa em fevereiro, aproximadamente 70% relataram dor no local da injeção, 33% sentiram fadiga, 29% apresentaram dor de cabeça, 22% tiveram dores musculares e 11% apresentaram calafrios e febre após a primeira dose de uma vacina contra a covid-19. Os sintomas foram ainda mais acentuados após a segunda dose.

As mulheres costumam ter reações imunes mais fortes do que os homens, o que pode ser um fator propulsor a sofrer os efeitos colaterais das vacinas. As mulheres foram a maioria a apresentar problemas graves de coagulação sanguínea com a vacina da J & J e também com a da AstraZeneca na Europa e no Reino Unido. “Existem especulações sobre os papéis desempenhados pelos hormônios — que são sempre os primeiros culpados ao se observar uma grande diferença entre os sexos”, enfatiza Wherry da Universidade da Pensilvânia.

Entre os casos muito raros até abril foram notificados 222 casos de trombose na Europa após a vacinação de 34 milhões de pessoas com o fármaco da AstraZeneca (2,2 casos por 340.000 imunizados). A pesquisa farmacológica parte do princípio de que estas consequências “muito raras” são esperáveis e, em muitos casos, imprevisíveis e inevitáveis por causa dos procedimentos do desenvolvimento dos compostos e pela falta de biomarcadores de um risco potencial.

Os coágulos sanguíneos associados às vacinas da Johnson & Johnson, ocorreram dentro de seis a 13 dias após o recebimento da injeção, podem ser perigosos e até mesmo fatais. Porém a incidência é bastante baixa; há apenas 23 casos confirmados entre 8,4 milhões de doses administradas da vacina, sendo, portanto, mais provável contrair a doença de forma grave do que obter um efeito adverso raro com a vacina.

Contudo, deve-se frisar que não se sabe se realmente se uma resposta grave às vacinas é um reflexo da potência do sistema imunológico. Também não se sabe se isso significa que alguém que não tem uma resposta inata forte será mais vulnerável à covid-19 ou mais resistente.

CONCLUSÃO

Diante dos prós e dos contras relatados, tendo em vista que a vacinação é a única forma atual mais eficiente para barrar a transmissão viral em massa, deve-se balancear a favor da sua aplicação na população, pois as preocupações surgidas vieram de efeitos já esperados e de outros raros e imprevisíveis. Desta forma, não se pode tirar conclusões precipitadas, ainda há estudos em andamento, conforme visto nem sempre é uma questão de sistema imunológico potente. Portanto, é preciso acompanhar o desenvolvimento da situação, obter dados e conduzir estudos mais abrangentes, sabendo-se que adquirir a doença de forma grave é mais fácil do que obter um efeito adverso raro de uma vacina, por isso, a positividade dos resultados é mais satisfatório do que o medo de uma reação errônea do corpo.

Autora: Jéssica N. Borba

Instagram: @jessborba_

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique no botão abaixo e participe

REFERÊNCIAS

CARA, ED. O que sabemos (até agora) sobre a vacina de dose única da Johnson & Johnson. GIZMODO, 2021. Disponível em:<https://gizmodo.uol.com.br/vacina-johnson-johnson/>. Acesso em 30 mai. 2021.

LIMA, E J F, ALMEIDA, A M, KFOURI, R Á. Vaccines for COVID-19 – state of the art. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil [online]. 2021, v. 21, n. Suppl 1, pp. 13-19. Disponível em:. Acesso em 31 mai. 2021.

LIMÓN, R. Por que os “efeitos adversos muito raros” associados à vacina da AstraZeneca são esperados, mas imprevisíveis. EL PAÍS, 2021. Disponível em:. Acesso 31 mai. 2021.

MARSA, L. Por que ocorrem efeitos colaterais da vacina e quando são preocupantes. National Geographic Brasil, 2021. Disponível em:<https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2021/05/por-que-ocorrem-efeitos-colaterais-da-vacina-e-quando-sao-preocupantes>. Acesso 31 mai. 2021.

PEBMED, 2021. Casos de trombose e trombocitopenia em vacinas da Oxford/AztraZeneca preocupam? Disponível em:<https://pebmed.com.br/casos-de-trombose-e-trombocitopenia-em-vacinas-da-oxford-aztrazeneca-preocupam/>. Acesso 30 mai. 2021.

Compartilhe com seus amigos:
Política de Privacidade © Copyright, Todos os direitos reservados.