Obstetrícia

O que preciso saber sobre violência obstétrica?| Colunistas

O que preciso saber sobre violência obstétrica?| Colunistas

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Imagem de perfil de Geovanna R. B. Castro

Violência obstétrica é um tema polêmico e que precisa ser discutido pela comunidade médica. Saiba mais!

A evolução da medicina proporcionou a evolução e perpetuação da humanidade. Na obstetrícia não poderia ser diferente, o avanço contribuiu para melhores indicadores de morbimortalidade materna e perinatal. 

O que é ser mãe? Há quem diga que ser mãe é deixar de pensar em si e pensar naquele que vem ao mundo através do seu ventre. Há aquelas que digam que é um pedaço do seu peito que bate fora do corpo. Mãe é vínculo, amor, luz, tudo isso em um único momento, um único ser. Para tanto, por que motivo arrancar dos braços, gritar durante o parto, arrancar de dentro se tudo se faz em um momento?!

Violência obstétrica e a medicina

Violência obstétrica é um tema polêmico! E ao contrário do que se diz: sobre temas polêmicos se discute sim! Claro, com muito referencial teórico, informações seguras e educação. Então falemos de violência obstétrica, a fim de entender e poder orientar para que quebremos esse grande tabu que ainda é parir.

O que é parir?

Deixem as mulheres parir! Mas parir? Sim! Parir! Há um grande preconceito e tabu em torno do parto. A descoberta de uma gestação é importante para o planejamento familiar, hábitos de vida e, fundamentalmente, para um pré-natal adequado.

Essa descoberta pode ser feita laboratorialmente, através do beta-hCG, através de sinais e sintomas de gravidez e/ou por meio de método ultrassonográfico.

A gestação muda a vida de uma mulher de uma forma avassaladora, esteja ela sozinha ou com uma ampla rede de apoio. E essa mudança pode ser boa ou ruim, nem entraremos, nesse momento, no âmbito das gestações não planejadas, não desejadas e sem o famoso imprinting, ou seja, o ato do filho reconhecer a mãe assim que nasce. Ato esse que é de forma crucial iniciado durante a gestação com base no vínculo e apego entre mãe e filho.

Como acontece o parto?

O parto se inicia na anatomia da mulher, que estruturalmente é feita para recepcionar, gerar e parir um filho, permeia a estática fetal que é essencial no momento do parto, até chegar nas fases clínicas do parto propriamente ditas.

O corpo da mulher é tão sábio em sua natureza que ele mesmo, antes do trabalho de parto, coloca todo esse maquinário em um período premonitório com contrações intermitentes, dilatação do colo uterino, saída do muco cervical, dores lombares para preparar tudo para a passagem dessa vida do meio intraútero para esse mundo aqui fora. Mas dores? Parir dói.

Naturalmente. Dói para seu corpo acomodar em um espaço tão pequeno (útero) um ser que cresce dia após dia. É esse crescimento, quando não cabe mais na casinha que é a barriga da mamãe, que dá o start na dilatação que vai iniciar o ato de parir. 

A fase de dilatação inicia-se com as primeiras contrações dolorosas que alteram a cérvix uterina e termina com a dilatação total de 10cm. Durante essa fase, o ideal é que haja o mínimo de intervenções.

É preciso respeitar a autonomia da mulher. E é aqui que está o X da questão. Violência obstétrica não é apenas aqueles casos super comercializados de episiotomia ou do médico que fez cesariana sem o desejo da mãe. “Militar” (palavra na moda) também é violência obstétrica. Não escutar a paciente, também é violência obstétrica. Obrigar a paciente parir deitada, também é violência obstétrica. Acabamos de dizer que parir dói, por que obrigar essa paciente sentir dor deitada, sem tomar água, sem comer? 

O que é violência obstétrica afinal?

Você sabia que violência obstétrica é perceber que esse bebê está em sofrimento fetal e não usar um vácuo ou um fórceps?! Ah, mas me disseram que fórceps e episiotomia É violência obstétrica! Fórceps, no momento certo, da forma certa, salva vidas, tanto fetais quanto maternas.

Episiotomia, no momento certo, da forma certa e extensão correta, evita lacerações catastróficas. Claro, subir em cima da mãe para Manobra de Kristeller não é bonito, nem confortável, e é violência sim! Usar ocitocina como ROTINA é violência! Preste atenção, digo quando usada de forma ROTINEIRA. Ocitocina pode ser fundamental em um caso que a mãe precisa E QUER ajuda.

Nunca vou esquecer a experiência crua de perguntar a um querido professor obstetra se ele fazia parto em determinado hospital… ele me respondeu: eu não faço parto. Eu assisto. Quem faz é a mãe. Estou ali para auxiliá-la. Foi a resposta mais humana que eu já ouvi sobre parto. Sobre parir.

E por que motivo eu estou falando em parir o texto todo? Parir não é para animal? Segundo Aristóteles, somos animais racionais. E depois desse pensamento, todos os historiadores consideraram o ser humano como racional.

Parir tem a etimologia do latim PARERE, que significa criar, desenvolver, gerar. Por que então não usar esse termo?! O parto é um momento cheio de sensibilidade e emoção, ainda que envolto de dores. Há um tempo determinado para todas as coisas, e isso não é diferente na gestação. O bebê precisa estar pronto para nascer, é uma experiência única mesmo que essa mãe tenha vários filhos. 

Dados sobre violência obstétrica

Segundo pesquisa da Fiocruz divulgada em 2021, a violência obstétrica atinge 36% das gestantes, tanto na rede pública quanto na privada.

  • O que você acha sobre negar direito a acompanhante no parto?
  • Sobre a mulher ser menosprezada ou mal tratada pela equipe de enfermagem quando pede água ou pede para sair da cama?
  • Ou sobre ser repreendida por chorar ou gritar durante o atendimento médico no parto?
  • Ainda, sobre não receber informações sobre a cesárea que ela vai fazer?
  • Você sabia que tudo isso é violência obstétrica?!

As pessoas focaram na episiotomia e fórceps e muitas nem sabem que violência obstétrica não se refere apenas a parto normal, que cabe violência em cesárea também.

A mulher ser impedida de contato com o seu bebê logo após o nascimento ou amamentar na primeira hora de vida ou ficar com o bebê em alojamento conjunto, seja após cesárea ou parto natural, é violência obstétrica! 

Reflexão sobre violência obstétrica

Parando um pouco, e pensando em tudo que acabamos de ler, conseguimos entender que evitar violência obstétrica é nada mais que exercer o óbvio?! Trata-se de entender e praticar acolhimento e empatia! Apenas.

Vários estados criaram leis próprias contra esse tipo de violência, torcemos pelo dia que não passe do exercício do óbvio, seja apenas um ato de acolher alguém que está em sofrimento momentâneo. 

É preciso ter bastante entendimento também, para não ultrapassar a linha do bom senso e cair no abismo de partos caseiros que mais oferecem riscos, à mãe e ao bebê, do que acolhimento e conforto. Muito se fala sobre o parto de Gisele Bündchen na banheira do quarto em sua mansão, e aconteceram alguns desastres tentando reproduzir o evento.

O que poucos sabem é que a casa dela estava a 20 minutos de um hospital e que em sua casa estava presente uma parteira americana que possuía equipamentos de emergência. Em todos os âmbitos é preciso muito bom senso e conhecimento. 

Conclusão

Não se esqueça que o simples fato de tentar impor algo sobre o desejo de uma gestante (seja o desejo por parto natural OU cesárea) é violência obstétrica, independente do seu ponto de vista.

A portaria Nº 306, de 28 de março de 2016, aprova as Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana. Também é direito da gestante optar por cesariana. Para tanto, o que se faz essencial ao tema? Informação! Informe-se, e diga não à violência obstétrica! Essa é uma luta diária.

De fato, é um tema que não se esgota em alguns minutos de leitura. O intuito deste artigo é instigar você, leitor, sendo médico já formado ou estudante de medicina ou leigo sobre o assunto, a conhecer e se interessar pelo tema, pois sempre há uma tia, prima ou irmã gestante que tem dúvidas e medos.

Desta forma, além do referencial utilizado no decorrer do artigo, deixarei alguns textos fundamentais sobre alternativas que contribuem para a redução da violência obstétrica, a percepção das mulheres sobre a violência Obstétrica na Espanha (não é algo que acontece apenas no Brasil), experiências de parto e uma visão da violência obstétrica no cotidiano assistencial e suas características. Informe-se e passe adiante. 

Autora: Geovanna R. B. Castro

Instagram: @georbcastro

Referências

COMISSÃO NACIONAL DE INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS NO SUS. Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação cesariana. Nº 179 Março/2016. Disponível em: https://documentos.mpsc.mp.br/portal/manager/resourcesDB.aspx?path=3752. 

Jardim DMB, Modena CM. Obstetric violence in the daily routine of care and its characteristics. Rev Lat Am Enfermagem. 2018 Nov 29;26:e3069. doi: 10.1590/1518-8345.2450.3069. PMID: 30517571; PMCID: PMC6280177.

Lansky S, Souza KV, Peixoto ERM, Oliveira BJ, Diniz CSG, Vieira NF, Cunha RO, Friche AAL. Obstetric violence: influences of the Senses of Birth exhibition in pregnant women childbirth experience. Cien Saude Colet. 2019 Aug 5;24(8):2811-2824. Portuguese, English. doi: 10.1590/1413-81232018248.30102017. PMID: 31389530.

Marques GM, Nascimento DZD. Alternativas que contribuem para a redução da violência obstétrica [Alternatives that contribute to the reduction of obstetric violence]. Cien Saude Colet. 2019 Dec;24(12):4743-4744. Portuguese. doi: 10.1590/1413-812320182412.236612019. PMID: 31778523.

Mena-Tudela D, Iglesias-Casás S, González-Chordá VM, Cervera-Gasch Á, Andreu-Pejó L, Valero-Chilleron MJ. Obstetric Violence in Spain (Part I): Women’s Perception and Interterritorial Differences. Int J Environ Res Public Health. 2020 Oct 22;17(21):7726. doi: 10.3390/ijerph17217726. PMID: 33105788; PMCID: PMC7660046.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Diretrizes nacionais de assistência ao parto normal. Versão resumida. Brasília-DF, 2017. Disponível em: https://documentos.mpsc.mp.br/portal/manager/resourcesDB.aspx?path=3751. 

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Parto normal. Deixe a vida acontecer naturalmente. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/parto_normal_deixe_vida_acontecer.pdf.

MINISTÉRIO PÚBLICO SANTA CATARINA. Violência obstétrica. Informe-se e diga não. Disponível em: https://documentos.mpsc.mp.br/portal/manager/resourcesDB.aspx?path=5146.

PUREPEOPLE. Gisele Bündchen fala sobre opção pelo parto natural no nascimento dos filhos. Disponível em: https://www.purepeople.com.br/noticia/gisele-bundchen-fala-sobre-opcao-pelo-parto-natural-no-nascimento-dos-filhos_a4799/1. 
Zugaib M, Francisco RPV. Zugaib obstetrícia. 4. ed. Barueri: Manole; 2020.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

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