Carreira em Medicina

Vascularização, drenagem linfática e inervação do fígado|Colunistas

Vascularização, drenagem linfática e inervação do fígado|Colunistas

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Introdução

O fígado é a maior glândula do corpo e, depois da pele, o maior órgão. Pesa cerca de 1.500 g e representa aproximadamente 2,5% do peso corporal do adulto. No feto maduro – no qual também atua como órgão hematopoético – é proporcionalmente duas vezes maior (5% do peso corporal).

Com exceção da gordura, todos os nutrientes absorvidos pelo sistema digestório são levados primeiro ao fígado pelo sistema venoso porta. Além de suas muitas atividades metabólicas, o fígado armazena glicogênio e secreta bile, um líquido amarelo-acastanhado ou verde que ajuda na emulsificação das gorduras.

Após a leitura do texto, você será capaz de entender a anatomia vascular, linfática e nervosa do fígado e também fazer relações entre essas estruturas e algumas patologias que as acometem.

Vascularização hepática

Anatomia

O fígado, como os pulmões, tem irrigação dupla (vasos aferentes): uma venosa dominante e uma arterial menor. A veia porta traz 75 a 80% do sangue para o fígado. O sangue portal, que contém aproximadamente 40% mais oxigênio do que o sangue que retorna ao coração pelo circuito sistêmico, sustenta o parênquima hepático (hepatócitos). A veia porta conduz praticamente todos os nutrientes absorvidos pelo sistema digestório para os sinusoides hepáticos. A exceção são os lipídios, que são absorvidos pelo sistema linfático e não passam pelo fígado. O sangue da artéria hepática, que representa apenas 20 a 25% do sangue recebido pelo fígado, é distribuído inicialmente para estruturas não parenquimatosas, sobretudo os ductos biliares intra-hepáticos.

A veia porta do fígado, curta e larga, é formada pela união das veias mesentérica superior e esplênica, posteriormente ao colo do pâncreas. Ascende anteriormente à VCI como parte da tríade portal no ligamento hepatoduodenal. A artéria hepática, um ramo do tronco celíaco, pode ser dividida em artéria hepática comum, do tronco celíaco até a origem da artéria gastroduodenal, e artéria hepática própria, da origem da artéria gastroduodenal até a bifurcação da artéria hepática própria. Na porta do fígado, ou perto dela, a artéria hepática própria e a veia porta terminam dividindo-se em ramos direito e esquerdo; esses ramos primários suprem as partes direita e esquerda do fígado, respectivamente. Nas partes direita e esquerda do fígado, as ramificações secundárias simultâneas da veia porta e da artéria hepática suprem as divisões medial e lateral das partes direita e esquerda do fígado, com três dos quatro ramos secundários sofrendo ramificações adicionais (terciárias) para suprirem independentemente sete dos oito segmentos hepáticos.

Entre as divisões estão as veias hepáticas direita, intermédia e esquerda, que são intersegmentares em sua distribuição e função, drenando partes dos segmentos adjacentes. As veias hepáticas, formadas pela união das veias coletoras que, por sua vez, drenam as veias centrais do parênquima hepático, abrem-se na VCI logo abaixo do diafragma. A ligação dessas veias à VCI ajuda a manter o fígado em posição.

Doenças vasculares do fígado

Trombose da veia porta

É uma causa pouco frequente de hipertensão portal, sendo devida a um obstáculo localizado na veia porta, levando ao aumento da pressão no território portal, o qual é transmitido à veia esplênica, determinando esplenomegalia. A obstrução da veia porta e suas tributárias (TVP) pode estar relacionada com a invasão ou compressão tumoral ou ser ocasionada por fenômenos trombogênicos. No início da obstrução aguda da veia porta, há poucos danos hepáticos devido à compensação feita pelo aumento do fluxo arterial do fígado. O sofrimento intestinal está relacionado com a extensão da trombose na parte proximal do sistema venoso portal. O envolvimento das veias mesentéricas é associado a congestão intestinal, isquemia e infarto, que pode evoluir com peritonite.

Síndrome de Budd-Chiari

A síndrome de Budd-Chiari (SBC) agrupa um conjunto de alterações anatômicas e fisiológicas decorrentes da obstrução total ou parcial das veias hepáticas ou do segmento terminal da veia cava inferior, desde sua parte intra-hepática até o átrio direito, sendo a trombose o principal mecanismo responsável pela obstrução. A SBC está associada a fatores trombofílicos em cerca de 75 a 85% dos casos, e mais raramente com fatores locais. As desordens mieloproliferativas são responsáveis por 35 a 50% dos casos, síndrome antifosfolipídica por 20%, deficiência de proteína C (10 a 20%), fator V de Leiden (25 a 30%) e hemoglobinúria paroxística noturna por 5%. A obstrução aguda das veias hepáticas determina dilatação sinusoidal, sufusões hemorrágicas e necrose hepatocitária, predominantemente na região centrolobular. As manifestações clínicas devem-se à aumentada pressão sinusoidal e à diminuição da perfusão sanguínea sinusoidal. Nos casos crônicos, as lesões se mostram menos intensas, acompanhadas de fibrose centrolobular, podendo com a evolução observar-se cirrose hepática constituída.

Hepatite Isquêmica

Hepatite isquêmica é o termo utilizado para caracterizar a necrose hepática difusa, de gravidade variável, produzida pela hipoperfusão hepática em virtude da insuficiência circulatória aguda. Três fatores são responsáveis: isquemia, congestão venosa passiva e hipoxemia arterial, ocasionando necrose hepatocitária centrolobular e sufusões hemorrágicas.

Drenagem linfática do fígado

O fígado é um importante órgão produtor de linfa, e 25% a 50% da linfa recebida pelo ducto torácico provém do fígado.

Os vasos linfáticos do fígado ocorrem como linfáticos superficiais na cápsula fibrosa do fígado subperitoneal (cápsula de Glisson), que forma sua face externa, e como linfáticos profundos no tecido conjuntivo, que acompanham as ramificações da tríade portal e veias hepáticas. A maior parte da linfa é formada nos espaços perissinusoidais (de Disse) e drena para os linfáticos profundos nas tríades portais intralobulares adjacentes.

Os vasos linfáticos superficiais das partes anteriores das faces diafragmática e visceral do fígado e os vasos linfáticos profundos que acompanham as tríades portais convergem em direção à porta do fígado. Os vasos linfáticos superficiais drenam para os linfonodos hepáticos dispersos ao longo dos vasos e ductos hepáticos no omento menor. Os vasos linfáticos eferentes dos linfonodos hepáticos drenam para os linfonodos celíacos que, por sua vez, drenam para a cisterna do quilo, um saco dilatado na extremidade inferior do ducto torácico.

Os vasos linfáticos superficiais das partes posteriores das faces diafragmática e visceral do fígado drenam para a área nua do fígado. Aqui eles drenam para os linfonodos frênicos, ou unem-se aos vasos linfáticos profundos que acompanharam as veias hepáticas que convergem na VCI, e seguem com essa grande veia através do diafragma para drenar nos linfonodos mediastinais posteriores. Os vasos linfáticos eferentes desses linfonodos unem-se aos ductos linfático direito e torácico.

Inervação do fígado

Os nervos do fígado são derivados do plexo hepático, o maior derivado do plexo celíaco. O plexo hepático acompanha os ramos da artéria hepática e da veia porta até o fígado. Esse plexo é formado por fibras simpáticas do plexo celíaco e fibras parassimpáticas dos troncos vagais anterior e posterior. As fibras nervosas acompanham os vasos e os ductos biliares da tríade portal. Além da vasoconstrição, sua função não é clara.

Autor: Vitório Benicá

Instagram: @vicbenica

Referências:

L., Moore, Keith, et al. Anatomia Orientada para Clínica, 8ª edição. Grupo GEN, 2018.

Netter, Frank H. Netter – Atlas de Anatomia Humana, 7ª edição. Grupo GEN, 2018.

Renato, Dani,, e PASSOS, Maria do Carmo Friche Gastroenterologia Essencial, 4ª edição. Grupo GEN, 2011.


O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.