Coronavírus

Veja as evidências que descartam tratamento precoce contra a COVID-19

Veja as evidências que descartam tratamento precoce contra a COVID-19

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Sanar

6 min há 144 dias

Algumas entidades públicas têm defendido um suposto tratamento precoce contra a COVID-19. Entre os medicamentos que integram o coquetel estão hidroxicloroquina, antimaláricos, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina, além de suplementos de zinco e vitaminas C e D.

Porém, estudos rigorosos realizados ao redor do mundo já apontam que os fármacos que compõem o “kit covid” já se mostraram ineficazes e, muitas vezes, até prejudiciais à saúde. 

Leia também: Vacina da covid-19: perguntas e respostas

Por isso, eles não são recomendados por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

“As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘tratamento precoce’ para a COVID-19 até o presente momento. Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil”, publicou a SBI em informe de 19 de janeiro de 2021.

A corrida contra a pandemia

Durante o processo de produção de um medicamento, uma série de etapas científicas devem ser respeitadas até que a substância possa ser indicada para um tratamento. O processo é longo, criterioso e com testes variados.

De cada 5.000 moléculas testadas em células e cobaias, apenas uma consegue passar por todas as etapas e chegar às farmácias e aos hospitais, o que leva, em média, 12 anos para acontecer e envolve investimentos que ultrapassam US$ 2 bilhões.

Porém, durante uma pandemia que ceifa vidas, os cientistas adotam estratégias que permitem agilizar alguns processos. A principal delas é o chamado reposicionamento de fármacos, que consiste na avaliação de eficácia de remédios já disponíveis para tratar outras doenças.

Quase como uma peneira, os cientistas descartam o material sem serventia e selecionam os que podem ajudar de alguma maneira. E fazem estudos randomizados, duplo cegos e controlados para comprovar o valor da droga selecionada.

Tão logo começou a pandemia da COVID-19, especialistas ao redor do mundo iniciaram uma corrida para conferir se algum produto farmacêutico já aprovado pelas agências regulatórias, e, portanto, relativamente seguros à saúde humana, ajudaria no combate ao novo coronavírus.

O que diz a ciência sobre cada medicamento?

A BBC Brasil reuniu algumas das principais evidências científicas que comprovam que ainda não há qualquer tratamento precoce contra a COVID-19. Confira a seguir um resumo dos achados:

Hidroxicloroquina

Nos últimos meses, vários estudos foram publicados sobre o medicamento. Um dos mais importante deles foi feito no Reino Unido e é conhecido como Recovery Trial. Numa análise de mais de 4.500 pacientes hospitalizados, o uso de hidroxicloroquina e azitromicina não trouxe benefício algum.

O mesmo resultado foi observado na pesquisa da Coalizão Covid-19 Brasil, com cerca de 500 voluntários brasileiros com infecção pelo coronavírus em estágios leves ou moderados.

Além disso, os tratamentos testados foram associados a efeitos adversos mais frequentes, como maior risco para arritmia e aumento de enzimas TGO/TGP no sangue, alteração que pode indicar lesão no fígado. Há ainda outros efeitos colaterais possíveis apontados pela SBI, como retinopatias, hipoglicemia grave e toxidade cardíaca, além de diarreia, náusea, mudanças de humor e feridas na pele.

Ivermectina

A ivermectina, outra promessa contra a COVID-19, foi descartada a partir de uma revisão de um estudo prévio, que utilizou uma dose irreal do medicamento no estudo inicial da droga. Cálculos posteriores mostraram que para que o fármaco mate o coronavírus num cenário real de infecção, seria preciso uma dose muito alta, com risco de efeitos colaterais gravíssimos e até overdose em pacientes.

Aqui você confere informações detalhadas sobre os estudos que envolveram o medicamento.

Azitromicina

Em setembro de 2020, um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na Lancet afirmou que a azitromicina não leva a melhoras em pacientes hospitalizados e, portanto, não tem indicação de uso para casos graves.

Os pacientes foram divididos aleatoriamente em dois grupos — 214 deles receberam azitromicina mais o tratamento padrão, e outros 183 receberam apenas o tratamento padrão, sem azitromicina. Não houve diferença entre os dois grupos em relação ao número de óbitos nem ao tempo de internação.

Nitazoxanida

O vermífugo nitazoxanida ganhou os holofotes no Brasil em outubro, quando o presidente Bolsonaro e o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, anunciaram um estudo que mostrava que essa droga poderia ser útil como tratamento precoce.

Alguns dias depois, os resultados dessa pesquisa foram publicados no periódico científico European Respiratory Journal. De acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem da BBC Brasil, as conclusões do teste foram consideradas muito fracas e sem nenhuma aplicação prática

Dexametasona

Diferente dos anteriores, este medicamento, representante da classe dos corticoides, já mostrou seu valor nos quadros graves de infecção pelo coronavírus.

Um estudo capitaneado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, revelou que esse medicamento é um aliado valioso para os quadros que necessitam de internação.

“Em alguns pacientes, a infecção pelo coronavírus desencadeia uma forte reação inflamatória do organismo. Isso, por sua vez, passa a afetar diferentes órgãos e pode até causar a morte”, disse à BBC Brasil o médico Momtchilo Russo, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

A dexametasona, então, ameniza a pane inflamatória que se instala em parte dos quadros agravados de COVID-19. No entanto, o corticoide não é um tratamento precoce e só deve ser usado com indicação médica, a partir de uma avaliação caso a caso.

Além de saber os dados científicos que descartam o tratamento precoce contra a COVID-19, veja também o relato de infectologista sobre complicações em pacientes que acreditaram no “tratamento precoce” de COVID-19.

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