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Você é responsável direto pelo seu bem-estar | Colunistas

Produção de cuidado de si: Autocuidado de quem cuida

O bem-estar físico, mental e social está inserido na concepção de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), e também está ancorado no cuidado e o processo de sua produção. Mas, uma indagação muito pertinente é: “Quem cuida de quem cuida?”

Para responder essa questão, por se tratar de um tema pouco explorado e complexo, importa que múltiplos fatores sejam considerados. É sabido que um dos aspectos que distingue os seres humanos dos demais seres é a capacidade de desenvolver simbolismos e práticas que beneficiem a si e aos outros, após observação de sua realidade e ambiente. Partindo dessa premissa, torna-se evidente que profissionais de saúde possuem como desafio romper o limbo de também assumir a responsabilidade de seu próprio bem-estar, apesar da nobreza de querer colocar em destaque o bem-estar alheio.

Nesse contexto, salienta-se a produção do cuidado, que, em definição simplista, abarca a conjugação de intervenções ou ações que contribuem para o fortalecimento de conceitos de organização, autonomia, o sentido de viver e resgata a humanização do ser. Tal processo, quando aplicado em si, constitui o autocuidado, cujo paradigma está embasado na ótica holística do indivíduo, ou seja, compreende os aspectos físicos e biológicos, psicológicos, sociais e espirituais.

Vale destacar que uma tendência do ser humano, de maneira geral, é reconhecer a prática do autocuidado como magna apenas em situações extremas, em que o adoecimento se instala, e, nos profissionais, sobretudo, somente quando gera uma perturbação na execução de suas atividades. Em outras palavras, a necessidade da mudança no estilo de vida só é percebida quando o profissional se vê suscetível a mais erros e menos efetivo no labor… ou até mesmo antes de obter o tão sonhado diploma, quando o rendimento diminui.

O olhar atento ao autocuidado deve iniciar na graduação

Não é incomum a descrição de um cenário estafante, sendo quase sinônimo da Faculdade de Medicina. Noites mal dormidas, conteúdos em excesso, copos e mais copos de café, enfoque no desempenho, em detrimento do lazer, da vida social e do fortalecimento dos vínculos afetivos. Um estudo nacional, realizado em 2016, revelou que a prevalência de transtornos mentais no público em questão, podem chegar a 50%. São dados alarmantes, tendo em vista que no ambiente acadêmico é abordada, de maneira cálida, a importância da humanização na relação médico-paciente. Tal ato se pauta, sobretudo, na escuta ativa e na prática da medicina com objetivo primaz de oferecer assistência digna.

É lindo o anseio do resgate dessa medicina mais empática, mas é de suma relevância compreender que a essência da carreira médica é humana – em outras palavras, são seres humanos se dedicando ao cuidado de outros seres humanos-. Logo, não é uma responsabilidade fragmentada. Assumir o zelo pelos pacientes, implica que o zelo de si também seja prioridade.

Exercendo o cuidado de si

Decerto, para que o cuidado de si seja bem-sucedido, é imprescindível que seja multifatorial, ou seja, que todos os âmbitos mencionados anteriormente recebam atenção. No que concerne à conjuntura física e biológica: é crucial que sejam utilizados os equipamentos de proteção individual, que os períodos de descanso e carga horária sejam respeitados e que a alimentação tenha sua devida relevância – a cena de profissionais e acadêmicos consumindo fast food, produtos alimentícios ultraprocessados, de pé, sem mastigar corretamente, nos corredores, é uma perturbadora realidade- . No tocante ao psicológico e social: ponderar o fato do ambiente de trabalho ser fatigante, constantemente zelar pelas relações interpessoais e procurar auxílio.

Ademais, lembrar que o bem-estar é um conceito internamente construído, auxilia no desenvolvimento da autonomia ao corroborar com a necessidade de cada um ter uma postura incisiva e subjetiva sobre as atitudes que deve tomar para a manutenção de todos os determinantes promotores. Todavia, ele pode ser alcançado, quando trabalhadas as habilidades que o constituem: a resiliência, que se traduz como a capacidade de reencontrar a motivação e a persistência apesar das intempéries e frustrações; perspectiva, que permite o deleite no âmbito de aprendizado, mesmo em situações ditas negativas, podendo ser interpretada como “olhar otimista”; atenção, que na geração atual, imbrica-se com a diminuição do tempo de tela ou certo distanciamento de redes sociais, fazendo com que diminua a comparação e aumente a concentração nas demais atividades; conhecimento, de si, principalmente, buscando ampliá-lo, consequentemente há elevação da autoestima e estímulo da interação consigo e com o outro. Por último, mas não menos importante, a generosidade, a qual nutre um sentimento de esperança em si e na humanidade.

Em todas as medidas propostas, fica em evidência a imprescindibilidade de uma automonitoria e de um frequente cultivo de todos os componentes. Conclui-se, portanto, que é indispensável que os acadêmicos da área da saúde, e os profissionais já atuantes, assumam a responsabilidade pelo seu bem-estar através do resgate do autocuidado, a fim de que se oportunize a promoção da saúde e alcance o pleno exercício da profissão.

Sobre a Autora: Ana Carolina Costa (Acadêmica de Medicina (UFRJ – Macaé) – 4º período; Nutricionista (UFRJ – Macaé) – CRN-4: 18101837; @arrobacarolinaa; Whatsapp: (22) 9 9224-9716)

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