Cirurgia do trauma

Você sabe o que é enxerto em malha? | Colunistas

Você sabe o que é enxerto em malha? | Colunistas

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Mariana Ribeiro Machado

7 minhá 107 dias

Introdução

Que a pele é o maior órgão do corpo humano e que tem funções importantíssimas na homeostase e proteção, a gente já sabe. Mas você já pensou no que acontece quando alguém sofre um acidente e perde uma parcela importante desse órgão?  Como é feita a reconstrução quando há grandes perdas? É sobre uma das formas de recompor a pele que vamos falar hoje: o enxerto em malha.

O que é um enxerto cutâneo

Antes de falar sobre o enxerto em malha, é preciso que você entenda o que é um enxerto cutâneo, então, vamos lá!

O enxerto é um segmento cutâneo retirado de uma área integra (área doadora) e que será levado para uma área lesionada (área receptora). Diferentemente dos retalhos cutâneos, o enxerto não possui pedículo vascular, sendo inicialmente nutrido pela embebição plasmática gerada pelo plasma que transuda da área receptora, formando uma malha de fibrina. Esse processo dura cerca de 48h e depois disso pequenos capilares sanguíneos começam a surgir (fase de inosculação), sendo seguidos, por volta do 5º dia, do surgimento de uma neovascularização mais eficiente. Caso o enxerto não se vascularize, irá ocorrer necrose total ou parcial do enxerto, com consequente perda.

Como a área doadora é escolhida?

No geral, a área doadora deve possuir a maior semelhança estética possível com a área receptora. As principais localizações usadas são a coxa, o abdome, a virilha e a região supraclavicular. Nos enxertos de face, geralmente, são usadas como áreas doadoras as regiões auriculares posterior e anterior, prega nasolabial, pálpebras e couro cabeludo.

Classificações do enxerto cutâneo

Os enxertos cutâneos podem ser classificados de diferentes formas, a depender de sua espessura, dimensão, origem e composição.

Espessura

Os enxertos de pele podem ser totais ou parciais. Quando toda a derme está incluída no enxerto, ele é considerado um enxerto total. Quando apenas uma porção da derme está incluída, o enxerto é denominado parcial.

Origem

Em relação à origem, os enxertos podem ser autoenxertos, quando o doador e o receptor são a mesma pessoa, aloenxertos, quando são pessoas diferentes, isoenxertos, quando a doação é feita entre gêmeos homozigóticos, ou ainda heterólogos, quando o doador é de uma espécie diferente do receptor, como no famoso exemplo do uso de pele de tilápia para tratar grandes queimados.

Composição

Os enxertos podem possuir apenas um tipo de tecido, sendo denominados enxertos simples, ou podem possuir mais de um tipo de tecido, como pele, gordura e cartilagem, sendo considerados compostos. Esses últimos costumam ser usados quando há necessidade de recompor pavilhão auricular ou asa nasal.

Dimensão

Quanto à dimensão, podem ser: laminado, quando a pele doadora não sofre alterações em sua estrutura, ou em malha, no qual a pele doadora é incisada várias vezes, ficando com aspecto similar a uma rede/tela. É sobre esse último que iremos aprofundar nossos estudos.

Como o enxerto em malha é feito

Os enxertos em malha, também chamados de “mesh grafts” possuem diversas incisões escalonadas e paralelas ao sentido da pele que podem ser feitas manualmente, com uso de um bisturi, ou por máquinas chamadas “mesher graft” ou expansor de tecido (Figura 2), sendo a segunda forma a que gera um melhor resultado estético, por permitir maior simetria.

Quando o enxerto é preparado dessa forma, ele adquire o aspecto de uma rede, ampliando sua superfície em 1,5-9x, permitindo que um pedaço menor de área doadora seja capaz de preencher uma grande área receptora. Esse grau de expansão irá depender da quantidade de pele doadora e do tamanho e condição do leito receptor. 

Figura 2 – Enxerto sendo cortado em forma de malha pelo mesher graft. Fonte:https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/tratamento-de-queimaduras-inclui-enxerto-e-uso-de-malha-compressiva/

Como ocorre a cicatrização nos enxertos em malha?

Nas regiões incisadas/interstícios, a cicatrização irá ocorrer por epitelização e, portanto, não irão apresentar pelos, gerando um aspecto rendilhado da pele.

Só para você relembrar, cicatrização por epitelização significa que haverá uma proliferação de células epiteliais, que, nesse caso, virão da região sem fenestras em direção aos interstícios, recobrindo-os.

Qual as utilizações desse tipo de enxerto?

Como você deve ter imaginado assim que viu a Figura 1, o resultado estético desse tipo de enxerto não é tão bom quanto o do enxerto laminado. Então, para que usaríamos ele?

Tente imaginar um grande queimado, com poucas regiões doadoras e muitas regiões receptoras. Nessa situação, é praticamente impossível conseguir enxertos suficientes para recobrir toda a área queimada. Além disso, a gente sabe que a rejeição do aloenxerto é muito menor que a de outros tipos, logo, vale a pena tentar fazer esse tipo de enxerto.

A situação que você acabou de imaginar é justamente a mais relevante quando se fala em enxerto em malha, pois um dos maiores problemas do grande queimado é não possuir pele saudável suficiente para realizar a doação.

Apesar de ser menos comum, principalmente no Brasil, esse tipo de enxerto também pode ser realizado em pacientes com epidermólise bolhosa, um grupo de doenças genéticas que geram bolhas e lesões que podem ser profundas e semelhantes a queimaduras. Em casos mais graves, onde há pouca pele saudável e lesões muito expressivas na pele, pode ser feito o enxerto em malha, pois, como você aprendeu, ele precisa de uma região doadora pequena.

Conclusão

Aprendemos que o enxerto em malha consiste em um tipo de enxerto onde uma pequena região doadora é capaz de suprir uma grande região receptora, através de incisões que o deixam com aspecto de uma rede, permitindo que ele ocupe um espaço maior. Como cicatriza por epitelização, não gera um resultado estético tão bom, mas é especialmente útil em grandes queimados.

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Referências:

Enxerto autólogo de pele, em malha, com espessura completa, na reparação de feridas carpometacarpianas de cães. Resposta à irradiação laser AsGa –  https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84782002000300014

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