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A importância da Classificação de Schilling nos agravos relacionados ao trabalho | Colunistas

A importância da Classificação de Schilling nos agravos relacionados ao trabalho | Colunistas

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Raquel Mello

5 minhá 11 dias

Introdução

A saúde do trabalhador é um tema que pode passar desapercebido (ou ignorado) para muitos estudantes, até porque não é dos mais interessantes, não é mesmo? Porém, certamente tem sua relevância tanto na prova de residência quanto na prática médica diária, como veremos a seguir.

Além da consequência direta à saúde do colaborador, os agravos relacionados ao trabalho têm efeitos que vão desde aspectos legais, como o recebimento de benefícios do INSS, até epidemiológicos, que podem orientar mudanças necessárias no ambiente de trabalho. 

Por esses motivos, se faz importante relembrar de alguns detalhes sobre as classificações utilizadas para estudar os agravos relacionados ao trabalho, para realizar uma avaliação adequada e tomar as medidas necessárias quando você se encontrar com esse cenário quer seja na vida, quer seja na prova.

Um pouco de história

Se seu interesse é puramente revisar a classificação em si, sugiro que vá diretamente à sessão correspondente no índice, mas, caso seja uma alma curiosa, como eu, aqui vai um pequeno resumo histórico.

 A classificação de Schilling surgiu em 1974, em um artigo publicado que foi fruto de observações feitas por Richard Schilling, professor de saúde ocupacional na Universidade de Londres. Ao estudar agravos relacionados ao trabalho, ele se deu conta de que eram subestimados por não existir uma classificação adequada para sua avaliação e, assim, sugeriu o uso dos critérios mencionados em seu artigo. A ideia foi tão acertada que continuamos usando seus critérios até hoje.  

Atualmente, o Ministério da Saúde utiliza a classificação de Schilling para separar os agravos de acordo com o nexo causal destes com a atividade laboral exercida pelo trabalhador. Em outras palavras, estabelece uma relação de causa e efeito entre as doenças e o ofício, separando-as em 3 grupos. Por meio destes, dados epidemiológicos podem ser registrados de maneira mais acertada, a terapêutica será mais direcionada e medidas de saúde pública podem ser postas em andamento.

Os grupos propostos são usados, por exemplo, pelo médico perito do INSS para definir e dimensionar essa relação causal e, assim, decidir se o assegurado tem direito aos benefícios de acidente do trabalho que lhe correspondam.

A Classificação de Schilling

Sem mais delongas, vejamos abaixo os 3 grupos desta classificação:

  1. Doenças para as quais a atividade exercida no trabalho é um fator necessário para o seu desenvolvimento;
  2. Doenças para as quais o trabalho é um fator contributivo, mas não necessário;
  3. Doenças para as quais o trabalho é um fator provocador ou fator agravador.

Para melhor entender cada grupo, vamos para uma explicação mais detalhada de cada um:

  • Nas doenças do grupo I, a atividade laboral é a causa da doença, sendo necessária para sua ocorrência. É determinante para o aparecimento do agravo pois este raramente surgiria em outra situação. São doenças que dificilmente se manifestam na população geral quando por situações de exposição não ocupacional;
  • No grupo II, estão doenças comuns e frequentes na comunidade, mas que, por conta do trabalho, se tornam mais frequentes. São agravos que poderiam acontecer mesmo se o colaborador trabalhasse em condições diferentes, mas que estas acabam contribuindo para que apareçam;
  • No grupo III, o trabalho age sobre distúrbios preexistentes ou latentes, onde a atividade não causa diretamente a doença mas acaba servindo como desencadeante ou catalisadora. É considerado um fator agravador, no caso de distúrbio pré-existente, ou provocador, no caso de um distúrbio latente.

Tabela de Exemplos

Agora que já revisamos a classificação em si, é útil ver alguns exemplos de cada categoria para concretizar esse conhecimento. Veja a tabela abaixo:

GrupoExemplos
I – Trabalho como fator necessário-Acidentes de trabalho -Pneumoconioses específicas -Doenças profissionais reconhecidas legalmente
II – Trabalho como fator contributivo-Doença coronariana -Câncer -Doenças osteomusculares
III- Trabalho como fator provocador ou agravador-Asma -Bronquite crônica -Dermatite de contato -Doenças mentais

Conclusão

Os critérios de Schilling surgiram da necessidade de otimizar o diagnóstico de doenças relacionadas ao trabalho e, até hoje, tem sido de grande utilidade ao orientar quanto ao seu nexo causal. A definição de causa e efeito tem um impacto direto na tomada de decisões,  tanto no aspecto legal quanto no aspecto terapêutico de cada paciente,  não podendo, portanto, ser ignorada.

A identificação de uma atividade laboral como causa de uma doença é de grande importante no aspecto epidemiológico, uma vez que pode levar a ações diretas, como o estudo dos ambientes de trabalho em busca de fatores de risco modificáveis.  As consequências diretas serão: melhores condições de trabalho para os colaboradores e, possivelmente, modificação do curso evolutivo do agravo ou inclusive sua prevenção e/ou eliminação.

Para o estudante, sendo esta classificação de simples entendimento e memorização, ela não deve ser o motivo de ter uma questão perdida na prova de residência, pelo contrário, depois dessa revisão certamente será um daqueles pontos ganhos tão importantes.

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Referências:

Doenças Relacionadas ao Trabalho – Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde – Ministério da Saúde. Brasília/DF. 2001.

SCHILLING, Richard. More Effective Prevention in Occupational Health Practise? J. Soc. Occup. Med. 34, 71 -79 Printed in Great Britain.  1984.

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