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A transexualidade no contexto da medicina | Colunistas

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Este texto é baseado em reflexões oriundas do filme “A Garota Dinamarquesa” (2016) e do webdocumentário “Poptrans” (2017), tendo como ponto de partida indagações sobre a relação entre a medicina e população transsexual, entendendo ainda a importância da arte como disparadora de discussões relevantes e necessárias no meio acadêmico.

Por que precisamos discutir sobre a transexualidade no contexto da medicina?

Lili Elbe, uma mulher transsexual que nasceu no século XIX, celebrou o reencontro com sua verdadeira identidade de gênero na primeira cirurgia de redesignação de sexo realizada na história da medicina.

A história é retratada no filme “A Garota Dinamarquesa” (2016) e mostra Lili rompendo os padrões normativos de comportamento da época, enfrentando uma sociedade e medicina ainda incapazes de compreender sua necessidade de mudança, num contexto em que o próprio sistema de saúde vigente não conseguia oferecer muito (ou quase nada) em termos assistenciais. Quando Lili passa a não suportar mais sua existência em um corpo que não o feminino, a partir de pequenos “encontros” com sua verdadeira identidade, inicia uma busca desenfreada para entender as nuances que a permeava, consultando-se com diversos médicos e recebendo vários diagnósticos.

A transexualidade era cruelmente diagnosticada e entendida, tanto nos meios acadêmicos quanto sociais, como “loucura”, “esquizofrenia” ou qualquer outro termo que explique a não identificação com o gênero de nascimento como uma doença a ser tratada. Num Brasil contemporâneoé válido lembrar, no entanto, que pequenas modificações em alguns desses conceitos ainda são bem recentes e muito patologizantes: a 10ª Classificação Internacional de Doenças (CID-10), vigente desde o ano de 1990, abordava a transexualidade como um transtorno mental, enquanto que, mais recentemente, o CID-11 modificou esse conceito, tornando-o uma “condição relacionada à saúde sexual” e classificando-o como uma “incongruência de gênero”. Com esse “avanço”, ganhou-se mais espaço, notoriedade, força e embasamento legal o “Processo Transexualizador”, instituído no Brasil desde o ano de 2009, mas redefinido e ampliado pela Portaria Nº 2.803 de novembro de 2013, um marco importante para pessoas trans.

Viver trans no Brasil do século XXI ainda é um desafio. Dados recentes mostram que, no país, apenas até agosto de 2020, 129 pessoas transexuais foram assassinadas, um número maior que o total de mortes registradas em 2019. Não é preciso ir longe para entender que essa população é vulnerável e carece de políticas públicas que consolidem cada vez mais seus direitos sociais, à saúde, à educação, ao respeito. Como população vulnerável, nos ambientes assistenciais de saúde, em especial, são notáveis os empecilhos com as quais têm que lidar diariamente: a conquista do nome social, mesmo estando presente em lei e representando um direito de inegável importância, ainda esbarra nas burocracias e crenças pessoais de trabalhadores do sistema de saúde; homens trans que carecem de atendimento ginecológico, enfrentam desafios num ambiente majoritariamente feito para pessoas com “aparência feminina”.

Essas são apenas algumas das grandes inquietações que emergem em meio a uma medicina ainda muito transfóbica. Esse termo pode soar um tanto quanto pesado, mas para quem enfrenta essa realidade diariamente, não é possível viver a liberdade de identidade sem passar por importantes danos psicológicos, já que, considerando a estrutura social, familiar e de políticas do país, essa população vive, em muitos momentos de sua vida, sem o básico: o respeito à diversidade. Para exemplificar essa esfera de danos emocionais, é válido ressaltar que o recente relatório “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBTQIA+, demonstrou que 85,7% dos homens trans brasileiros já tiveram ideação suicida ou mesmo tentaram suicídio.

“As pessoas trans não se suicidam porque são trans. Elas se suicidam porque o resto da sociedade não as trata como se fossem pessoas.” 

(ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais)

Com uma medicina ainda muito abusiva com os corpos de pessoas trans, é inevitável não entender a necessidade de serviços mais acolhedores e humanizados. Sob a ótica da educação em saúde, muito pode ser feito por essa população através do uso de tecnologias leves: o próprio conhecimento e interesse, por parte dos profissionais de saúde, pelas políticas públicas voltadas para esse grupo já representa uma mudança do curso natural de uma estrutura preconceituosa. No entanto, é fato que todos esses elementos dependem também de um interesse e comprometimento pessoal em tornar possível atendimentos mais leves, atenção às reais necessidades dessa população e compreensão de que aquele corpo, como qualquer outro, possui adoecimentos para além das preconcepções arraigadas em nosso cotidiano.

Por isso, em um cenário ainda muito transfóbico como esse, a abordagem da temática no ambiente acadêmico, como um eixo importante de uma educação permanente em saúde, e fazendo uso da arte como elemento disparador de discussões, acaba sendo um ponto sensibilizador de grande potência para uma formação mais holística e que parta do princípio de que as subjetividades importam. Em um mundo ideal, seria lindo se todos fossem como Gerda Wegener e Hans Axgil, personagens de “A Garota Dinamarquesa”, que mesmo diante do sofrimento pelo desconhecido e pela mudança da figura masculina ali presente, puderam ressignificar. No entanto, a realidade para muitos homens e mulheres trans, apresenta-se bem mais cruel.

Infelizmente, em uma sociedade que vive sob a lógica heteteronormativa, o entendimento que a construção de gênero é algo feito ao longo do tempo e que a não identificação com seu sexo de nascimento não representa uma escolha, esbarra em muitas outras concepções sociais, inclusive nos próprios “papeis de gênero”, no patriarcalismo e machismo e na formação de um ambiente que sempre falha com os mais vulneráveis.

O webdocumentário “Poptrans” levanta essas concepções e desconstruções de maneira brilhante. Apesar de o filme “A Garota Dinamarquesa” ter sua beleza e o encantamento do cinema hollywoodiano, está distante, em muitas de suas cenas, da realidade trans (inclusive pela própria construção do elenco, que não possui atores transexuais). Ao contrário, a construção realista, sensível e capaz de abordar as nuances dessa população, feita pelo documentário, acaba trazendo para uma dimensão muito mais palpável, especialmente dentro do contexto brasileiro, do cotidiano, preconceitos e vivências diárias dessa população. Quando dá voz, rosto, lugar de fala e de indignação, ele permite o entendimento do sujeito trans muito menos pela ótica centrada em um CID e mais pela capacidade de visualizar a subjetividade e particularidade de cada ser. Aqui, a arte da construção realizada no documentário leva a uma sensibilização mais profunda, realista, empática e nos coloca, enquanto futuros profissionais de saúde e, antes de tudo, seres humanos, num lugar de disseminadores de falas cada vez menos preconceituosas e excludentes.

Ao final, como seres humanos, o que realmente precisamos é abandonar a zona de conforto dos nossos pensamentos “bem estabelecidos” sobre determinados assuntos e, enquanto acadêmicos ou médicos, corroborar para uma estrutura de saúde menos transfóbica, mais humanizada e respeitosa. Como bem aborda a fala de uma das entrevistadas do webdocumentário, “não exijo que me aceitem, mas exijo que me respeitem”.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


REFERÊNCIAS

A GAROTA DINAMARQUESA. Direção de Tom Hooper, 2016. Reino Unido – Estados Unidos, Universal Pictures.

SOALHEIRO, Luiza Helena Messias; CANÇADO, Paula Oliveira Mascarenhas. A Garota Dinamarquesa: reflexão sobre o direito fundamental à sexualidade. Revista Gênero, Sexualidade e Direito, 2017. Disponível em: https://www.indexlaw.org/index.php/revistagsd/article/view/2009>;. Acesso em: 05 jan. 2021.

SUDRÉ, Lu. Transexualidade deixa de ser considerada doença, mas ainda é patologizada. Brasil de Fato, 2019. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2019/06/03/transexualidade-deixa-de-ser-considerada-doenca-mas-ainda-e-patologizada#:~:text=Pessoas%20trans%20comentam%20avan%C3%A7os%20e,condi%C3%A7%C3%B5es%20relacionadas%20%C3%A0%20sa%C3%BAde%20sexual%22&text=Transexualidade%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20mais%20considerada,CID). Acesso: 04 jan. 2021. WEBDOC POPTRANS. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV), 2017.

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