Uma das premissas da Saúde moderna é a visão do paciente como um todo. Isso vem pautado na ideia de que com o tempo os pacientes se tornaram órgãos, e a medicina passou a ser submetida de forma exclusiva à economia de mercado. Há alguns anos vem sendo realizada a tentativa de mudança de enfoque no cuidado do paciente, passando este a ser colocado no centro de um círculo de cuidado onde ao redor se coloca uma equipe multiprofissional responsável por ver o paciente como um todo e cuidar dele nas diferentes esferas que o compõem. Para isso, torna-se necessário o conhecimento de uma importante esfera: a família à qual esse paciente pertence.
A família é referida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o principal agente social de promoção de saúde e bem-estar, sendo cada vez mais possível ver evidências clínicas e epidemiológicas de que a família exerce forte influência no estado de saúde e no desenvolvimento e recuperação de doenças de um indivíduo. Isso fica ainda mais evidente quando percebemos que, para fazer as pessoas melhorarem, é preciso vê-las dentro de seus contextos e não apenas sob o prisma do diagnóstico e da doença em si.
Por isso, inicio aqui uma série de quatro textos que irão abordar essa temática e dar dicas de como abordar a família de nossos pacientes para o desenvolvimento do cuidado integral deles. Vamos iniciar conversando sobre alguns conceitos importantes sobre família e sobre cuidados para o momento em que estivermos com eles. O conhecimento, entendimento e compreensão desses conceitos será importante para nossas próximas conversas, quando falaremos sobre a entrevista familiar, os instrumentos de abordagem familiar e a visita domiciliar. E, para iniciar nossa conversa, vamos tentar entender um pouquinho mais sobre o conceito de família.
Gusso et al. define família como sendo um “grupo de pessoas que convivem, tem laços intensos de proximidade e compartilham o sentimento de identidade e pertencimento, os quais, influenciarão, de alguma forma, suas vidas”, possuindo “objetivos relacionados com a preservação, nutrição e proteção daqueles que vivem em conjunto e têm seu próprio modo de perceber o mundo”. Duncan et al. complementa Gusso ao trazer que família é um “sistema aberto, dinâmico e interconectado com outros sistemas e outros subsistemas que compõem a sociedade, sendo assim constituída por um grupo de pessoas que compartilham uma relação de cuidados, vínculos afetivos, de convivência, de parentesco, condicionada por valor socioeconômicos, geográficos e culturais, dando a esta uma significação interna contextualizada”.
Aqui é importante pontuar que cada família é única e possui seu código próprio de funcionamento, sendo ela o primeiro grupo do qual fazemos parte em nossa vida e pelo qual dificilmente deixaremos, um dia, de ser influenciados.
Com o passar dos anos, no entanto, houve uma mudança no que diz respeito à unidade familiar, tanto no tamanho quanto em sua estrutura. Mudança essa que teve diversos fatores ao longo de sua ocorrência, sendo que dois deles merecem ser pontuados: as transformações relativas ao trabalho com a inserção das mulheres no mercado e as transformações referentes às questões sociais, como a diminuição dos casamentos legais e da natalidade, a união de casais homoafetivos, entre outros. Além disso é importante ter em mente que, com a evolução tecnológica, o modo de comunicação entre uma família também sofreu alterações.
Aqui pode surgir um questionamento sobre a forma com que uma família irá se apresentar ao chegar ao consultório ou em uma visita domiciliar. Como foi comentado anteriormente, cada família é única. No entanto, podemos classificá-la quanto a sua forma de apresentação. É o que chamamos de arranjo familiar, o qual pode ser pontuado conforme o esquema abaixo:
- Nuclear: formada por pai, mãe e filhos;
- Casais sem filhos;
- Monoparentais: um genitor;
- Reconstituídas: após separação e/ou divórcio;
- Extensa: relações de consanguinidade;
- Adotivas: birraciais ou multirraciais;
- Homoafetivas: com ou sem filhos;
- Anaparentais: formadas por irmãos em que os pais vieram a falecer, por exemplo;
- Abrangente: inclui os não parentes que habitam a casa;
- Famílias eudemonistas: repúblicas de estudantes, por exemplo;
- Paralelas: extraconjugais.
É preciso ter em mente que, para a relação familiar funcionar de forma benéfica a todos os seus componentes, é necessário que haja o reconhecimento entre os membros que compõem essa e de que tal reconhecimento irá influenciar a dinâmica da família e sua passagem pelos estágios do ciclo de vida familiar (sobre o qual falaremos adiante).
Mas como tudo isso influencia no momento da consulta médica? Como a carga familiar pode interferir no cuidado de nossos pacientes? E quando é o momento de chamar a família para participar do atendimento?
É preciso citar aqui que nem sempre será possível ter a família presente na consulta. Contudo, tal falto não impede que os conceitos e instrumentos da abordagem familiar sejam utilizados como forma de ampliar o cuidado do paciente. Para isso é preciso que o médico saiba reconhecer o momento em que é necessário chamar a família para participar do atendimento.
Isso acontece de forma especial quando há a ocorrência, por exemplo, de doenças crônicas, situações em que o paciente não adere ao tratamento, pré-natais e puericulturas, além de situações que envolvam problemas mentais e interpessoais. Aqui, é importante, e influencia na possível vinda ou não da família, o conhecimento sobre o que o paciente pensa de tudo isso e sobre como é seu relacionamento com a família, sendo necessário que o profissional esteja preparado para a resistência a possibilidade de convite da família. Cabe pontuar que se trata de uma decisão conjunta do médico e paciente sobre o momento de se fazer esse convite e sobre quem da família irá participar da consulta. É necessário, ainda, citar que, caso exista o risco de violência direta para alguns dos envolvidos nesse processo (médico, paciente, família e/ou equipe de saúde), torna-se contraindicada a participação da família
Ao convidar a família para que participe do atendimento, alguns cuidados podem ser tomados durante a condução da consulta, como forma de deixar todos mais a vontades e ao mesmo tempo ampliar os benefícios dessa abordagem, como por exemplo:
- Criar laços harmoniosos que possam dar continuidade ao cuidado;
- Manter um relacionamento empático e não crítico com cada pessoa;
- Buscar interesses comuns e o melhor entrosamento;
- Evitar tomar partidos;
- Encorar, uma pessoa por vez, a falar;
- Encorajar cada pessoa a fazer declarações na primeira pessoa;
- Afirmar a importância da contribuição de cada membro da família;
- Reconhecer e agradecer qualquer emoção expressada;
- Enfatizar os próprios recursos da família;
- Solicitar aos membros da família que sejam específicos;
- Ajudar os membros da família a organizar seus pensamentos;
- Bloquear as interrupções, se persistentes;
- Não oferecer conselhos ou interpretações precoces;
- Não fornecer brechas a revelações de confidencialidade da pessoa;
- Organizar a entrevista.
Aqui fica claro que, como facilitador da entrevista, é o profissional que dá o tom para a discussão conforme vai realizando sua fala. Percebe-se, nesse ponto, que a abordagem familiar é uma ferramenta prática que vem para auxiliar o profissional de saúde no entendimento de seu paciente como um todo, sendo importante e necessário pontuar aqui que a realização de um atendimento exige conhecimento técnico, articulação dos sentidos e sensibilidade emocional, os quais devem estar cuidadosamente dirigidos para a entrevista clínica e para aquela pessoa (ou aquelas, caso a família esteja presente) presente no momento do atendimento. E é sobre a entrevista clínica que vamos conversar no próximo texto dessa série. Até lá!
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Coordenação Geral de Atenção Domiciliar. Caderno de atenção domiciliar – volume 2. Brasília – DF: Ministério da Saúde, 2012.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de atenção básica: Saúde Mental. Brasília – DF: Ministério da Saúde, 2013. p. 66-71.
DUNCAN, B. B. et al. Medicina ambulatorial: Condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 4 ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. p. 86-98.
GUSSO, G.; LOPES, J.M.C. Tratado de medicina de família e comunidade: Princípios, formação e prática – Volume 1. 1 ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. p. 221-232.