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Acne da mulher adulta | Colunistas

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Virgínia Costa Marques

9 minhá 46 dias

A acne é uma dermatose inflamatória que se desenvolve nos folículos pilossebáceos e geralmente é mais frequente na adolescência. No entanto, o quadro acneico também tem sido relatado com maior frequência na população adulta, em especial nas mulheres. Assim, quando na mulher a acne persiste após os 25 anos ou quando se manifesta pela primeira vez nesse período, recebe o nome de acne da mulher adulta (AMA).

Etiopatogenia

Em geral, o quadro não está associado a uma doença de base, mas evidências apontam que sua principal etiologia é o hiperandrogenismo, caracterizado por seborreia, alopecia, hirsutismo, distúrbios menstruais e disfunção ovulatória. Nesse ponto, é importante ressaltar que 70% das mulheres com síndrome do ovário policístico, condição em que há excesso de androgênio, apresentam acne. Além disso, a acne na mulher muitas vezes também é associada a ansiedade, depressão, má qualidade de vida, estresse e tabagismo.

Clinicamente, a paciente apresenta lesões predominantemente inflamatórias – pápulas e pústulas – na região do mento, na linha da mandíbula e no pescoço, constituindo a zona descrita como zona U. Também podem estar presentes lesões nodulares no terço inferior da face, além de comedões fechados, com aspecto de microcistos.

Essa dermatose tem a tendência de se tornar crônica, com períodos de exacerbação e de melhora. Demais disso, em razão do perfil inflamatório, o quadro pode evoluir com cicatrizes e hipercromia, aumentando a interferência negativa na autoimagem e autoestima da paciente.

Por tal razão, é de extrema importância que o profissional médico conheça as diversas formas de tratamento existentes, ainda mais diante do fato de que a acne da mulher adulta também é caracterizada por elevados índices de falha terapêutica.

Formas de tratamento

Para a escolha do tratamento, diversos fatores devem ser levados em conta: severidade da acne, resposta a tratamentos prévios, impactos psicossociais, possibilidade de gravidez, preferências individuais e custos. Assim, o tratamento mostra-se como um desafio para o profissional não só pelos vários pontos que devem ser observados, mas também pela diversidade terapêutica existente.

Terapêutica tópica

O tratamento tópico é o mais comumente utilizado para tratar a AMA leve a moderada, bem como na manutenção do tratamento durante e após terapêutica sistêmica. É importante mencionar que o tratamento tópico deve ser simples para que a adesão do paciente seja mais fácil, uma vez que, em geral, sua duração é prolongada.

Retinoides:

Os retinoides têm sido a base da terapia da acne, uma vez que corrigem a ceratinização folicular anormal, reduzem as contagens de Propionibacterium acnes e diminuem a inflamação. Dessa forma, os retinoides tópicos são os agentes de primeira linha para a acne não inflamatória (comedões), ao passo que no tratamento da acne inflamatória eles geralmente são associados a outros agentes.

Os retinoides tópicos mais utilizados são a Tretinoína e o Adapaleno, sendo que ambos têm eficácia similar, mas particularidades próprias. A tretinoína, por exemplo, é fotoinstável e, portanto, deve ser aplicada uma vez à noite para o tratamento da acne e fotoenvelhecimento. Além disso, a tretinoína é inativada pelo peróxido de benzoíla. O adapaleno, por outro lado, é estável na luz solar, estável na presença de peróxido de benzoíla e normalmente é menos irritante na concentração de 0,1%.

Peróxido de benzoíla

Normalmente é recomendado como parte das combinações da maioria dos tratamentos tópicos por apresentar propriedades bactericidas, anti-inflamatórias e queratolíticas. No entanto, é melhor que seja utilizado pelas menores concentrações, para evitar irritações, fotossensitividade e manchas em roupas.

Ácido azelaico

Assim como o peróxido de benzoíla, o ácido azelaico tem propriedades bactericidas, anti-inflamatórias e queratolíticas, no entanto apresenta efeito colateral de “pinicação” inicialmente, o que pode dificultar a adesão do paciente. Ademais, um fator de grande relevância é que o ácido azelaico é uma medicação segura para as mulheres que estão em idade fértil e pretendem engravidar.

Antibióticos

O uso de antibióticos tópicos tem atividade anti-inflamatória direta, mas em virtude do aumento da resistência de P. acnes à clindamicina e eritromicina – antimicrobianos tópicos comumente usados na acne – seu uso isolado não é recomendando. Assim, é comum a associação desses antibióticos com peróxido de benzoíla ou com ácido azelaico.

Terapêutica sistêmica

O tratamento sistêmico é indicado na maioria dos casos de acne moderada ou grave, em especial quando é extensa, associada a cicatrizes e resistente ao tratamento tópico.

Antibióticos

Os antibióticos são utilizados no tratamento da acne uma vez que conseguem suprimir o P. acnes cutâneo, componente da flora normal da pele, mas que gera ácidos graxos livres, os quais são irritantes e podem levar à formação de microcomedões e dar origem a lesões inflamatórias.

Os agentes eficazes incluem tetraciclina, doxiciclina, minociclina e a associação trimetoprima-sulfametoxazol. Quanto à administração, essa normalmente é feita duas vezes ao dia e as doses são reduzidas depois que se obtém controle.

Assim como os antibióticos tópicos, os sistêmicos não devem ser usados nem mantidos como monoterapia em razão do risco de desenvolvimento de resistência bacteriana.

Isotretinoína

A isotretinoína é um retinoide sistêmico que tem notável eficácia na acne grave e pode induzir prolongadas remissões após um único curso de tratamento. Sua atuação se dá na normalização da ceratinização no folículo sebáceo, na redução do tamanho e da atividade das glândulas sebáceas, com consequente diminuição do número de sebócitos e, assim, da síntese de sebo e do número de P. acnes. Além disso, a isotretinoína também apresenta propriedades anti-inflamatórias. Dessa forma, constitui-se como tratamento de primeira linha para a acne nódulo-cística e tratamento de segunda linha para a acne moderada, não responsiva a outras formas de tratamento anteriores.

Em geral, os efeitos clínicos são notados de um a três meses após o início do tratamento e, assim como todos os retinoides sistêmicos, a isotretinoína é contraindicada em mulheres gestantes, que pretendem engravidar ou que estão amamentando, em razão dos elevados índices de teratogenicidade. Além disso, há outras contraindicações relativas: leucopenia, alcoolismo, hiperlipidemia, hipercolesterolemia, hipotireoidismo e doença hepática ou renal significativa.

Ademais, além da teratogenicidade, deve-se levar em conta outros efeitos adversos dessa medicação, posto que podem ser agressivos e causarem bastante desconforto para o paciente: queilite, xeroftalmia, conjuntivite, ressecamento nasal, epistaxe e dermatite irritativa. Ainda podem haver anormalidades laboratoriais, tais como elevação das enzimas hepáticas, aumento dos níveis de triglicérides e LDL, com redução de HDL.

Terapia hormonal

As mulheres podem se beneficiar com um item a mais do que os homens no tratamento da acne: o tratamento hormonal, uma vez que é uma condição androgênio-dependente. Essa terapia hormonal é bastante eficaz para a AMA, ainda que as pacientes não apresentem alterações hormonais séricas, sendo adequada para terapia de longo prazo, uma vez que não têm potencial para induzir resistência bacteriana e constituem uma alternativa aos antibióticos.

Em geral é iniciada em mulheres que apresentem sinais clínicos de hiperandrogenismo, com seborreia grave, com história de irregularidade menstrual e piora da acne no período pré-menstrual, não responsivas às terapias tradicionais, bem como para mulheres que desejem a anticoncepção.

A terapia da acne com antiandrogênicos atua nos queratinócitos foliculares, os quais metabolizam androgênios e a glândula sebácea, fazendo com que haja estase do sebo e relativa redução de sua secreção.

As drogas mais comumente utilizadas na terapia hormonal são os anticoncepcionais orais e espironolactona, sendo que os anticoncepcionais orais são inibidores da síntese de androgênio e a espironolactona constitui um antagonista dos receptores desse hormônio, assim como a flutamida e o acetato de ciproterona.

Em síntese, pode-se perceber a enorme variedade terapêutica existente para o tratamento e controle da AMA, constituindo um desafio para o profissional médico, como dito anteriormente. Nesse cenário, é de extrema importância que o médico conheça os questionamentos, fatores de risco, condições financeiras e disponibilidade da paciente para propor a melhor, mais adequada e mais segura forma de tratamento para o caso.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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