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Anestésicos Locais e suas Propriedades Farmacológicas | Colunistas

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Os Anestésicos Locais são bases fracas de diferentes estruturas químicas capazes de bloquear reversivelmente a condução do estímulo nervoso em tecidos eletricamente excitáveis. Seu uso é importante para a produção de analgesia e anestesia, interrompendo a transmissão de impulso nervoso sensitivo, motor, proprioceptivo e autonômico, através das fibras nervosas. A grande maioria dos Anestésicos Locais (AL) são fabricados a partir de um anel benzeno aromático lipofílico, conectado a uma amina (hidrofílica) terciária ou quaternária, a uma cadeia polar intermediária, podendo esta ser um grupamento amida ou uma porção de éster.

Possuem diferentes características físico-químicas que determinam seu uso clínico, como a potência, o início e a duração de sua atividade anestésica, além de seu grau de toxicidade para o organismo, que pode ser sistêmico, em decorrência de uma injeção intravascular ou intratecal acidental, administração de doses excessivas, ou até mesmo um efeito cardiotóxico, com ação depressora sobre a atividade mecânica do miocárdio. 

Clinicamente são utilizados para anestesia e analgesia regionais, anestesia regional intravenosa, bloqueio de nervos periféricos, tópico e bloqueio de resposta à intubação traqueal. Novos anestésicos estão sendo estudados e aplicados à prática clínica, entre eles a Ropivacaína, pertencente ao grupo amino-amida, estruturalmente semelhante a Bupivacaína mas com diferentes propriedades físico-químicas, como uma menor lipossolubilidade e uma meia-vida mais curta.

Figura 1. Estrutura química básica dos anestésicos locais
Fonte: Anestesiologia SAESP, 5ª Ed., cap 29-pág 580.

Anatomia do Sistema Nervoso e Neurofisiologia

Neurônios – Células do tecido nervoso

Os neurônios são células responsáveis pela recepção e transmissão de um estímulo nervoso, contando com duas propriedades: a excitabilidade e a condutibilidade. São compostos pelo corpo celular ou pericário, dendritos e axônios (local de ação dos anestésicos locais) e classificados de acordo com sua função em aferentes (sensoriais), eferentes (motores) e em interneurônios.

No tecido nervoso, outras estruturas também são essenciais para a sua função, as Células da Glia, responsáveis por envolver e nutrir os neurônios, sendo elas os Astrócitos, Oligodendrócitos (responsáveis pela produção das bainhas de mielina que servem de isolantes elétricos para os neurônios do SNC), a Micróglia e as Células de Schwann (possuem a mesma função dos oligodendrócitos, porém localizadas no SNP).

Figura 2. Estrutura de um neurônio
Fonte: https://www.infoescola.com/biologia/sistema-nervoso/ 

As células de Schwann formam uma bainha de mielina em torno de um segmento de um único axônio do sistema nervoso periférico (SNP) e atuam como isolante elétrico, contribuindo para o aumento da velocidade de propagação do impulso nervoso ao longo do axônio, porém não de maneira contínua pois entre uma célula de Schwann e outra existe uma região de descontinuidade da bainha, o nódulo de Ranvier.

Os AL agem justamente nos axônios das fibras nervosas revestidas ou não por mielina, sendo estas classificadas de acordo com seu tamanho, a velocidade de condução e a sua função.

Fonte: https://www.sobiologia.com.br/conteudos/FisiologiaAnimal/nervoso5.php 

Nervos periféricos e as fibras nervosas

Os nervos são estruturas formadas por fibras nervosas envoltas por camadas de tecido conjuntivo especializado, o epineuro (mais externo), o perineuro (corresponde a camada intermediária) e o endoneuro (camada mais interna que envolve cada fibra individualmente).

As fibras nervosas, por sua vez, são constituídas por um axônio e suas bainhas envoltórias. Nas fibras periféricas, a célula envoltória é a célula de Schwann, enquanto no SNC é o oligodendrócito. Quanto mais grossa a fibra, menor será sua sensibilidade ao anestésico local.

São  classificadas de acordo com seu tamanho, a velocidade de condução e a sua função em:  Fibras tipo A, com um maior diâmetro e de rápida condução, Fibras tipo B, de função autonômica e localização simpática pré-ganglionar, e em Fibras tipo C, amielínicas, de função autonômica e responsáveis pela percepção de dor e temperatura.

Figura 4. Classificação das Fibras Nervosas
Fonte: Manual de Anestesiologia Clínica 7ª Ed., cap 21-pág 311.

Mecanismo de Ação dos Anestésicos Locais

Os AL agem inibindo  a condução dos nervos periféricos através de interações diretas e reversíveis com a porção intracelular dos canais de sódio controlados por voltagem, diminuindo, assim, a permeabilidade a este íon e impedindo a despolarização da membrana. O grau de bloqueio nervoso dependerá da concentração e volume do anestésico local, pois nem todas as modalidades sensoriais e motoras são bloqueadas igualmente.


Inúmeros estudos clínicos, atualmente, têm proposto diferentes locais de ação do AL sobre a condutância do sódio ao longo da membrana nervosa, como: na superfície da membrana (envolvendo somente alterações de cargas negativas fixas), na matriz da membrana (em que há modificações espaciais no canal de sódio) e em receptores específicos no canal de sódio na face interna da membrana, sendo esta última a mais aceita.

Figura 5. Ação do Anestésico Local sobre o canal de sódio regulado por voltagem
Fonte: https://doi.org/10.21270/archi.v8i9.4655

Propriedades Físico-químicas

As propriedades físico-químicas são aquelas responsáveis por determinar a potência, o início e a duração da atividade anestésica, sendo classificadas de acordo com o peso molecular (relacionado com o coeficiente de difusão aquosa, sendo um fator preponderante no grau de permeabilidade através da dura-máter), a lipossolubilidade (quando mais lipofílico o AL, maior será sua capacidade de penetrar na membrana nervosa e menor será o número de moléculas necessárias para a obtenção de bloqueio da condução nervosa), o grau de ionização ou pKa (valor de pH em que as formas ionizadas e não-ionizadas estão presentes em quantidades iguais) e afinidade proteica.

Alguns aditivos podem ser utilizados para prolongar o bloqueio anestésico, como a Epinefrina, aumentando assim a intensidade do bloqueio e diminuindo a absorção sistêmica do anestésico, os Opióides (em especial a Buprenorfina), os agonistas adrenérgicos alfa-2 (como a Clonidina) e os esteroides.

Figura 6. Propriedades físico-químicas dos Anestésicos Locais
Fonte: Manual de Anestesiologia Clínica 7ª Ed., cap 21-pág 312

Novo anestésico local

A Ropivacaína, um composto menos cardiotóxico que a Bupivacaína, permaneceu por 40 anos guardado sem nenhuma explicação, até pouco tempo, o anestésico eleito para a anestesia peridural era a Bupivacaína. 

Este novo AL, apresenta uma peculiaridade que o diferencia de outros anestésicos, já que é preparado na forma de isômero puro, isto é 99% de isômero S(-), diferente de outros que são comercializados como misturas racêmicas.

Estudos científicos estão sendo desenvolvidos, comparando este isômero aos outros anestésicos, porém a Ropivacaína promete não só suceder a Bupivacaína como também suplementá-la.

Conclusão

Os Anestésicos Locais, importantes fármacos utilizados não apenas na Anestesiologia, mas também em diversas áreas clínicas, como em bloqueios anestésicos periféricos, apresentam importantes diferenças físico-químicas que determinam sua potência e atividade. 

Apesar da toxicidade provocada por alguns, novos estudos clínicos estão sendo desenvolvidos com o objetivo de introduzir anestésicos com diferentes propriedades, meia-vida reduzida e menores efeitos cardiotóxicos.

Referências

– Anestésicos locais: Interação com membranas biológicas e com o canal de sódio voltagem-dependente https://www.scielo.br/j/qn/a/QQqzgMNpRbhdLLsyCzJnR7h/?lang=pt&format=pdf 

– Paul G. Barash et al. Manual de Anestesiologia Clínica 7ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

– Adilson Hamaji et al.Anestesiologia SAESP 5ª Ed. São Paulo: Atheneu LTDA, 2001.

Tecido Nervoso – Histologia Interativa 

– Anestésicos locais utilizados na Odontologia: uma revisão de literatura

https://doi.org/10.21270/archi.v8i9.4655

– Anestésicos Locais – Revisando o Mecanismo de ação molecular

http://revistas.cff.org.br/?journal=infarma&page=article&op=view&path%5B%5D=252&path%5B%5D=241

– Ropivacaína: Estado Atual e Perspectivas Futuras

https://bjan-sba.org/article/5e498bd80aec5119028b4816/pdf/rba-45-2-131.pdf


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