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Antivirais de Repurposed contra a COVID-19 | Colunistas

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                A pandemia do coronavírus, que se iniciou no ano de 2020, tem sido o principal tema veiculado nas mídias convencionais e nas redes sociais, afinal, o mesmo traz inúmeras repercussões para a sociedade em âmbito mundial em aspectos socioeconômicos, políticos e principalmente da área da saúde. Na tentativa desesperadora em conter o agente viral, iniciou-se uma corrida em busca de alguma droga que tivesse a capacidade em combater o vírus, dado o grande número de internados e a saturação de leitos em sistemas de saúde de diferentes países.

                Dado esse contexto inicial, especialistas da OMS recomendaram fortemente testes clínicos randomizados para a análise acerca da eficácia de alguns antivirais de reperpused, uma vez que, na medicina, deve-se comprovar a eficácia e a segurança de condutas médicas e farmacológicas, evitando as práticas médicas ineficazes, inseguras e irrelevantes – a era da Medicina Baseada em Evidências.

Mas, afinal, o que são essas “repurposed drugs”?

             Repurposed Drugs ou “Drug repositioning” se referem ao uso de alguma droga já existente no mercado para algum outro fim terapêutico (Tudor I. Oprea et al) ¹. Isso, na verdade, é bastante comum e podem sim apresentar bons resultados no uso de determinada droga para um fim ao qual a mesma não foi projetada. Existe, atualmente, uma tendência no uso dessa técnica para encontrar novos tratamentos para algumas doenças, como na doença de Parkinson, como mostra o artigo “Emerging therapies in Parkinson disease — repurposed drugs and new approaches”.

                Essa forma de seleção de drogas já pode trazer para a medicina novos tratamentos muito eficazes para diversas afecções. Exemplos de tratamentos disponíveis que foram descobertos através desse método são: uso de finasterida/dutasterida para alopecia androgenética e hirsutismo (remédios bloqueadores de 5-alfa-redutase usados inicialmente para Hiperplasia Prostática Benigna), sildefanil para disfunção erétil, talidomida para reação hansênica do tipo 2 (eritema nodoso hansênico), dentre diversas outras.

                Bom, com essa tendência atual em realizar os estudos com o objetivo de descobrir novos tratamentos com drogas já conhecidas, por que não aplicar esse pensamento no tratamento do SARS-COV 2?

Repurposed drugs e sua aplicação no COVID-19

               Como citado acima, a OMS recomendou fortemente que se realizassem estudos com a abordagem de repurposed drugs para o tratamento de COVID-19. Muitas drogas foram elencadas, sendo as principais: remdesivir, hidroxicloroquina, lopinavir e interferon beta-1a. Também foram usadas metilprednisolona, talidomida, bevacizumabe, fingolimod. Uma droga bastante falada atualmente é a Ivermectina.

 Hidroxicloroquina e COVID-19

               A hidroxicloroquina é uma droga utilizada, principalmente, como antimalárico, no tratamento do Plasmodium Vivax associado à primaquina. Também, como reperfused drug, foi aplicada no tratamento de inúmeras doenças reumatológicas (artrite reumatoide, artrite pós-Chikungunya, lúpus). Será que essa droga tem uma eficácia para o Sars-Cov 2?

                Para responder à pergunta acima, pode-se verificar o estudo WHO SOLIDARITY². O clinical-trial mostra que o uso da cloroquina mostrou ter nenhuma eficácia no tratamento da COVID-19 (valor de p=0.23, mostrando-se estatisticamente irrelevante). Dessa forma, a aplicação desse fármaco no tratamento da COVID-19 não tem nenhum embasamento científico e foge das boas práticas médicas e da medicina baseada em evidências.

Remdesivir e COVID-19

      O remdesivir é um antiviral desenvolvido inicialmente para o ebola vírus e para o vírus de Marbug, sendo ineficaz para as duas afecções. Essa droga também foi utilizada no tratamento da COVID-19 e os resultados podem ser analisados em dois diferentes estudos: estudo WHO SOLIDARITY² e o estudo Remdesivir for the Treatment of Covid-19, com resultados disparos.

                O estudo WHO SOLIDARITY demonstrou baixa eficácia no uso do remdesivir (tendo o p=0,05), não tendo relevância na mortalidade geral, na necessidade de intubação e nem na duração da internação hospitalar.

                Em contrapartida, o segundo estudo mostrou eficácia positiva no uso da medicação por até 5 dias (p=0,02), sem benefício algum no 10º dia de uso (p=0,18). Visto tal resultado, a droga foi aprovada em mais de 50 países para o uso intra-hospitalar, dentre eles, o Brasil.

Lopinavir e interferon beta-1a para COVID-19:

                Essas duas drogas foram usadas de forma combinada e também isolada no mesmo estudo WHO SOLIDARITY, gerando três grupos diferentes: lopinavir isolado, interferon isolado e lopinavir + interferon. Para ambas as drogas, não se obteve relevância estatística até o momento do estudo (interferon com p = 0,11 e lopinavir p = 0,97).

                Outro estudo, o RECOVERY, também avaliou o uso de lopinavir associado à ritonavir, também demonstrando nenhuma eficácia em relação ao tratamento convencional para os desfechos morte e necessidade de intubação.

Uso de Ivermectina para COVID-19:

                Ainda em 2020, um estudo australiano publicou na revista Antiviral Research um artigo acerca do uso da ivermectina pra o tratamento da COVID-19 pela capacidade do anti-parasitário em inibir a replicação intracelular in vitro do vírus Sars-CoV-2. Com tal notícia, muitos vendedores da droga – inclusive para a indústria agropecuária – se aproveitou da publicação na tentativa de vender o medicamento para tratamento do COVID-19. Tal fato alertou a FDA, que enviou uma carta para os autores abordando o risco do interesse econômico em relação a venda da droga e a necessidade de estudo comprovando a eficácia clínica do medicamento – e não apenas in vitro.

      Muitos estudos mais recentes demonstram eficácia no uso da droga para reduzir a replicação viral IN-VITRO, sem comprovação adequada da eficácia IN-VIVO. O estudo ICON (Ivermectine in COvid Nineteen) mostra alguns resultados satisfatórios em relação à mortalidade em internados graves pela doença, porém não aumentando as taxas de extubação ou adiantando a alta hospitalar. Contudo, é importante ressaltar que esse estudo, assim como muitos outros, reforçam a necessidade de maior comprovação quanto à eficácia e seguridade do uso da droga, havendo a necessidade de clinical trials randomizados adequados antes da sua aprovação para uso off label – como afirmado no artigo Ivermectin and COVID-19: Keeping Rigor in Times of Urgency:A descoberta da atividade da Ivermectina contra o SARS-CoV-2 dá muitas razões para esperança, mas o uso off-label e compassivo requer considerações cuidadosas de risco-benefício, principalmente em pacientes críticos”.

Conclusões:

                O uso de Repurposed drugs pode ser uma esperança no combate da COVID-19, como visto no uso do remdesivir para internados por COVID-19. Porém, é importante ressaltar a importância no respeito à ciência e à medicina baseada em evidências para o uso de qualquer medicação para qualquer fim. A aprovação de medicações para o tratamento de qualquer afecção deve ser criteriosamente analisada para que se respeite o princípio da não maleficência da medicina: não causar mal ou dano ao paciente. Dessa forma, o momento da pandemia é delicado, porém é crucial favorecer a razão e a ciência em detrimento de crenças, superstições e de interesses políticos.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Bibliografia:

1- Oprea, Tudor I. et al, Drug Repurposing from an Academic Perspective, NCBI 2012. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3285382/. Acessado em 21/03/2021.

2- Repurposed Antiviral Drugs for Covid-19 — Interim WHO Solidarity Trial Results, The New England Journal of Medicine, disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2023184. Acessado em 21/03/2021.

3- Remdesivir for the Treatment of Covid-19 — Final Report, The New England Journal of Medicine, disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2023184. Acessado em 21/03/2021.

4- Lopinavir-ritonavir para Covid-19: novos resultados do estudo RECOVERY, PEBmed. Disponível em: https://pebmed.com.br/lopinavir-ritonavir-para-covid-19-novos-resultados-do-estudo-recovery/. Acessado em 21/03/2021.

5- RECOVERY Trial. https://www.recoverytrial.net/.

6 – Ivermectin and COVID-19: A report in Antiviral Research, widespread interest, an FDA warning, two letters to the editor and the authors’ responses, NCBI. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7172803/. Acessado em: 21/03/2021.

7 – Rajter, Juliana Cepelowicz et al, ICON (Ivermectin in COvid Nineteen) Study: Use of Ivermectin Is Associated with Lower Mortality in Hospitalized Patients with COVID-19, Social Science Research Network e The Lancet, disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3631261. Acessado em 21/03/2021.

8 –Am J Trop Med Hyg, Ivermectin and COVID-19: Keeping Rigor in Times of Urgency, NCBI, disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7253113/#. Acessado em: 21/03/2021.

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