DESCRIÇÃO
A Brucelose é uma doença sistêmica bacteriana com um quadro clínico polimorfo, o qual se caracteriza por febre variável. A astenia é um sintoma que os pacientes apresentam frequentemente, podendo ainda ser acompanhada por cefaleia, artralgias, sudorese profusa (especialmente à noite), calafrios, depressão, perda de peso e mal-estar generalizado. Tende a durar por dias, meses e até anos quando não é aplicado o tratamento adequadamente. O início da doença pode ser agudo ou insidioso, com duração que varia de um caso para outro, por essa razão e somada ao polimorfismo de suas manifestações clínicas, nem sempre é possível realizar a suspeita diagnóstica. Geralmente, os pacientes recuperam-se, no entanto, pode haver incapacidade significativa no curso da doença, diante disso, é fundamental que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos precocemente. Há a possibilidade de ocorrer recidivas, nas quais ocorrem manifestações parciais do quadro inicial ou com todo seu desenvolvimento.
A Brucelose também é chamada de febre ondulante, febre de Malta, febre do Mediterrâneo, doença das mil faces ou melitococia, febre de Gibraltar e doença de Bang.
Causada por bactérias do gênero Brucella spp, no Brasil, a maioria dos casos estão associados à Brucella abortus, biotipos 1, 6 e 9. O gênero Brucella ainda é composto por outras bactérias que podem desencadear a Brucelose, tais como: B. melitensis, biotipos 1 e 3; B. suis, biotipos 1 e 5; B. canis. Podemos mencionar como reservatórios de tais bactérias: gado, suínos, ovinos, caprinos, cães, cervos, bisões, cavalos, alces, lebres, galinhas e ratos do deserto.
A transmissão ocorre por meio do contato de lesões na pele com materiais contaminados: tecidos animais, sangue, urina e secreções vaginais. Além disso, pela ingestão de leite e seus derivados, sem o devido processo de pasteurização, provenientes de animais infectados, nestes casos a bactéria pode sobreviver por um período de duas semanas até três meses. O período de incubação é bastante variável, cerca de uma a três semanas, podendo prolongar-se por vários meses.
DIAGNÓSTICO
Para diagnosticar a Brucelose é necessário a combinação de uma série de fatores, dentre os quais incluem a história clínica do paciente e história epidemiológica, devendo investigar a ingesta de produtos de origem animal contaminados ou exposição à material infectado. A confirmação diagnóstica ocorre por meio da cultura de sangue, medula óssea, tecidos ou secreções.
As provas sorológicas muitas vezes podem resultar em falsos negativos, uma vez que sofrem influência de diversos fatores, como o tempo de incubação que é variável.
Quando realizado exames de imagem, a ressonância magnética da coluna lombar pode apresentar o sinal de Pedro-Pons, que consiste em uma erosão do ângulo superior do corpo vertebral, por norma acompanhada de um halo marginal de adensamento ósseo.
Em áreas endêmicas, pode ser difícil fazer a distinção entre a brucelose e as demais doenças que causam febre. Contudo, há duas características que podem fazer essa diferenciação da brucelose de outras febres tropicais, como a malária e a febre tifóide: quando não tratada, a febre da brucelose tende a ter um padrão ondulante, que persiste por várias semanas antes de iniciar um período afebril, o qual pode ser seguido de uma recidiva; além disso, a febre da brucelose está associada a sinais e sintomas musculoesqueléticos em, aproximadamente, metade dos pacientes.
COMPLICAÇÕES
As complicações em razão da brucelose, em geral, são raras. Entretanto, pode ocorrer encefalites, meningites (neurobrucelose), neurites periféricas, artrite supurativa, endocardite bacteriana subaguda, colecistite, supuração hepática e osteomielite. Também há relatos de infecções do aparelho genitourinário e aborto em gestantes infectadas.
TRATAMENTO
O tratamento consiste na antibioticoterapia dupla com tetraciclinas, sendo a combinação mais efetiva, porém, outras alternativas podem ser utilizadas. A escolha também dependerá da política em relação ao uso de rifampicina para realizar o tratamento de infecções não causadas por micobactérias.
O padrão-ouro para o tratamento em adultos constitui-se em estreptomicina intramuscular durante 14-21 dias, associada à doxaciclina durante 6 semanas. A recomendação atual da Organização Mundial da Saúde (OMS) consiste em rifampicina mais doxiciclina durante 6 semanas.
Caso o paciente não tolere ou tenha alguma contraindicação para a administração de tetraciclinas (crianças, gestantes) pode-se utilizar altas doses de sulfametoxazol-trimetoprima.
Há evidências crescentes que corroboram o uso de um aminoglicosídeo, como a gentamicina, durante no mínimo 2 semanas, como substituta da estreptomicina. Em uma metanálise, verificou-se que um esquema triplo, o qual envolve a o uso de doxiciclina e rifampicina associadas com um ciclo inicial de aminoglicosídeos, mostrou-se superior ao esquema duplo de fármacos. Esse esquema triplo deve ser considerado para todos os pacientes que apresentarem doença complicada, assim como para aqueles em que a adesão ao tratamento tende a ser problemática.
Diante de doença neurológica significativa em razão de espécies Brucella, faz-se necessário um tratamento prolongado, que varia de 3 a 6 meses, adicionando ceftriaxona ao esquema-padrão. Já nos casos de endocardite, o tratamento requer pelo menos três medicamentos (um aminoglicosídeo, uma tetraciclina e rifampicina), sendo que há especialistas que sugerem a adição de ceftriaxona e/ou uma fluoroquinolona, com o objetivo de diminuir a necessidade de substituição valvar.
CARACTERÍSTICAS EPIDEMIOLÓGICAS
A brucelose é uma zoonose que possui distribuição mundial, tendo sua ocorrência e controle diretamente relacionados com sua prevalência em animais domesticados. A maior prevalência se dá em países em que não há um controle veterinário, como América Central, Oriente Médio (endêmico), China, Tailândia, Vietnã e países da Oceania.
Comumente está ligada à atividade profissional, desta forma, torna-se frequente em trabalhadores que lidam com gado e no beneficiamento de leite e derivados. Incluem- se, ainda, no grupo de risco, aqueles que têm contato direto com com os animais e suas vísceras e secreções em operações de abate e evisceração.
VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA
Visa reduzir a morbimortalidade por meio do controle sanitário dos rebanhos, informando a vigilância sanitária a fim de impedir a distribuição e o consumo de produtos que possam estar contaminados.
Diante de casos isolados, a notificação não é obrigatória. Entretanto, na vigência de surtos, deve-se proceder com a notificação, investigação epidemiológica e a adoção das medidas de controle indicadas.
Considera-se caso suspeito todo o paciente que apresentar febre de início agudo ou insidioso, com história epidemiológica sugestiva e com outras manifestações clínicas que indiquem Brucelose. Caso confirmado será todo aquele em que o indivíduo tiver as características do caso suspeito somado com a confirmação por meio de exames de laboratório.
MEDIDAS DE CONTROLE
- Educação em Saúde: informar e conscientizar a população para que consuma leite e derivados pasteurizados e/ou fervidos; educar os trabalhadores sobre a necessidade do uso de equipamentos de proteção individual (EPI’s), evitando o contato com animais doentes ou potencialmente contaminados.
- Controle Sanitário Animal: testar os rebanhos e eliminar os animais infectados. Atentar no manejo e eliminação de placentas, secreções e fetos dos animais.
- Inspeção Sanitária de Produtos: órgãos de fiscalização agropecuária precisam ser atuantes na inspeção dos produtos de origem animal, assim como na desinfecção de áreas contaminadas.
- Manejo dos Pacientes: cuidar com o manejo de material de drenagens e secreções. Investigar fontes de infecção para que sejam adotadas as medidas de prevenção. Confiscar alimentos suspeitos. Em laboratórios, prezar pelo cumprimento das normas de biossegurança e uso de EPI’s.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
Penna, Gerson Oliveira, et al. Doenças infecciosas e parasitárias: guia de bolso. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, 2010.
JAMESON,J. L. et al. Medicina interna de Harrison. 20. ed. Porto Alegre: AMGH, 2020. 2 v.
Lawinsky, Maria Luiza de Jesus, et al. «The current state of brucellosis in humans». Revista Pan-Amazônica de Saúde, vol. 1, n. 4, Dezembro de 2010, pp. 75–84. SciELO, https://doi.org/10.5123/S2176-62232010000400012.