Gastroenterologia

Caso Clínico: Apendicite Aguda | Ligas

Caso Clínico: Apendicite Aguda | Ligas

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LAGEH

8 min há 94 dias

Identificação do paciente

Paciente do sexo feminino, 26 anos, solteira, branca, sem religião definida, engenheira, procedente e residente de Salvador-BA.

Bom grau de informação.

Queixa principal

Dor no lado direito da barriga, perto do umbigo, há uns 2 dias.

História da moléstia atual (HMA)

Paciente refere quadro de dor periumbilical. O quadro álgico abdominal iniciou há 36 horas, em região de epigástrio, com características imprecisas e mal localizadas. Associado há redução do apetite, náuseas e cólicas abdominais.

Apresentou, há 10 horas, piora da dor com migração da mesma para a FID, acompanhada de um episódio de vômito e quadro febril de 37,8ºC.

A dor tem como fator de piora a contração da parede abdominal e deambulação.

Antecedentes pessoais, familiares e patológicos

Relata ter observado uma constipação intestinal em paralelo com a dor que sente.

Nega histórico de HAS, DM e doenças da infância.

Nega cirurgias e alergias.

Mora sozinha e refere preocupação quanto à necessidade de uma possível cirurgia porque não pode parar de trabalhar.

Exame físico

Regular estado geral, lúcida e orientada no tempo e espaço.

Eupneica, mucosas coradas e hidratas, acianótica e anictérica. Postura antálgica.

Febril (37,8 ºC), 102 bpm, 18 irpm.

Aparelho respiratório sem alterações.

Aparelho cardiovascular sem alterações.

Abdome atípico, cicatriz umbilical intrusa, RHA abolidos, abdome doloroso à palpação superficial e profunda em hipocôndrio direito. Sinal de Blumberg positivo. Sinal de Rovsing positivo. Sinal de Psoas positivo. Sinal do obturador positivo. Fígado não palpável. Espaço de Traube livre.

Extremidades sem edema, aquecidas e perfundidas.

Exames complementares

Hemograma:

Hemácias: 5,0 milhões por mm³

Hematócrito: 42,2%

Leucócitos: 14.500 por mm³; bastonetes: 11%, segmentados: 61%.

USG abdominal: apêndice visível, inchado e imóvel.

TC com contraste: apêndice inflamado, espesso. Há presença de estrias ao redor do órgão.

Suspeitas diagnósticas

  • Apendicite
  • Doença Inflamatória Pélvica (DIP)
  • Gravidez Ectópica

Diagnóstico

Visando o diagnóstico mais provável, deve-se iniciar a investigação a partir de algumas informações e achados como:

  • É uma paciente do sexo feminino de 26 anos, com dor periumbilical. Foi referida uma piora do quadro com vômito e estado febril associado.
  • Ao exame físico, sinais importantes como: Blumberg, Psoas, Rovsing e Obturador foram positivos.
  • Ao realizar os exames complementares, no hemograma há leucocitose com desvio para esquerda. No USG abdominal, é possível visualizar o apêndice inchado e na TC há visualização do órgão aumentado e com a presença de estrias, indicativo de um processo de inflamação.

A partir dos resultados encontrados na anamnese, no exame físico e nos exames complementares, a principal suspeita diagnóstica da paciente é a Apendicite aguda. Após os achados serem analisados na escala modificada de Alvarado, a paciente apresentou pontuação maior que 7, sendo indicada ao tratamento cirúrgico.

A apendicite aguda é a inflamação do apêndice cecal, muitas vezes gerada por obstrução do lúmen. Com a obstrução, há proliferação de algumas bactérias e microrganismos que levam à infecção da parede, justificando o aparecimento de uma parte dos sinais clínicos. É a causa mais comum de dor abdominal com indicação cirúrgica de urgência. Acomete tanto o sexo feminino quanto o masculino, sendo mais comum entre os 20 e 30 anos de vida.

Esse quadro se caracteriza por dor em cólica, podendo ser difusa ou periumbilical. Pode vir acompanhado de anorexia, episódios de náusea, febre baixa.

Os principais sinais de exames que justificam o diagnóstico da Apendicite aguda são: sinal de Blumberg positivo, sinal de Psoas positivo, sinal do Obturador positivo, sinal de Rovsing positivo, leucocitose com desvio para esquerda, apêndice visível, inchado e imóvel no USG e a visualização das estrias ao redor do órgão na TC com contraste.

Discussão do caso de Apendicite Aguda

Definição de Apendicite aguda:

Apendicite aguda é a inflamação do apêndice causada por uma obstrução de seu lúmen. Essa inflamação pode acontecer por conta de fecalitos, tumores, corpos estranhos ou hiperplasias linfoides.

Quando há essa obstrução, há um aumento da pressão luminar levando ao aumento do tamanho do órgão e consequentemente uma compressão arterial. A abordagem deve ser rápida e eficiente para evitar maiores complicações, como a perfuração do apêndice.  

Diga quais foram os sinais encontrados no caso e explique-os:

Sinal de Blumberg: sinal importante para pesquisa de peritonites da etiologia apendicular. Ao descomprimir bruscamente a parede abdominal do paciente, no ponto de McBurney, ele relata dor.

Sinal de Psoas: quando positivo, é indicação de uma irritação no músculo psoas. O paciente refere dor à extensão da coxa direita sobre o quadril contra à resistência em decúbito lateral esquerdo.

Sinal de Rovsing: ao ser positivado, é um sinal indicativo de apendicite. Ao realizar a palpação no quadrante inferior esquerdo do paciente e o mesmo relatar dor no quadrante inferior direito.

Sinal do Obturador: esse sinal, quando presente, indica irritação do musculo obturador interno. Deve-se posicionar o paciente em decúbito dorsal e realizar a flexão passiva da coxa sobre a perna e da perna sobre a coxa. Após isso, prosseguir com o movimento de rotação interna da coxa.

Como correlacionar o quadro álgico à fisiopatologia da dor abdominal apresentada pela paciente?

O quadro álgico, refere-se à inflamação inicialmente apenas do apêndice e peritônio visceral, gerando uma dor inespecífica, enquanto a dor em FID corresponde à inflamação do peritônio parietal, gerando uma dor mais específica.

Qual é o tratamento para a apendicite aguda?

A fim de confirmar o diagnóstico de apendicite aguda, os achados na anamnese e no exame físico devem ser analisados na escala modificada de Alvarado.   

Caso o paciente apresente pontuação menor que 4, a suspeita de apendicite aguda não é confirmada. Já quando a pontuação fica entre 4-7, é indicada a realização de exames como USG abdominal e TC de abdome com contraste para confirmação.

Quando a pontuação da escala já é acima de 7, é indicação de tratamento cirúrgico.

O tratamento para a apendicite aguda é sempre cirúrgico e tem que ser indicado assim que o diagnostico for confirmado.

É importante salientar que há recomendação para administração de antibióticos para medidas profiláticas e terapêuticas no pré-operatório, e caso necessário manter no pós também.

A apendicectomia por videolaparoscopia é a primeira opção, sendo o padrão ouro. É a menos invasiva e tem poucas chances de agravo.

Conclusão

Considerando as possíveis suspeitas diagnósticas (apendicite aguda, gravidez ectópica e DIP) por conta da dor, de início, relatada como inespecífica e difusa, e levando em consideração o sexo e a idade da paciente, foi necessária uma análise minuciosa para fechamento do quadro.

 Ao analisar os achados clínicos e os exames complementares, há a confirmação da suspeita diagnóstica de Apendicite aguda. A paciente deve ser internada para realização do tratamento cirúrgico, mas antes disso, deve ser internada para administração da antibioticoterapia e a reposição hidroeletrolítica. Após esse protocolo, a apendicectomia laparoscópica a qual é padrão ouro, deve ser efetivada para um tratamento definitivo do caso.

Autores, revisores e orientadores:

Liga: Liga Acadêmica de Gastroenterologia e Hepatologia da UFBA (@liga_lageh)

Área: Gastroenterologia e Hepatologia

Autor: Ana Vitória Gordiano Carneiro

Revisor: Luisa Fernandes de Barros Socorro

Orientador: Jorge Carvalho Guedes

Referências

Medicina de emergência: abordagem prática/ editores Irineu Tadeu Veloso … [et al.]. – 14 ed.,ver., atual. e ampl. -Barueri [SP]: Manole, 2020.

FREITAS, Roberto… [et al.] Apendicite Aguda. Revista Hospital Universitário Pedro Ernesto (TÍTULO NÃO-CORRENTE), v. 8, n. 1, 2021. Disponível em: https://www.e publicacoes.uerj.br/index.php/revistahupe/article/view/9231 Acesso em: 30 Mar. 2021.

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