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Saiba quando utilizar o Escore de Wells

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O Escore de Wells é uma ferramenta clínica amplamente utilizada para estimar a probabilidade pré-teste de tromboembolismo venoso, especialmente trombose venosa profunda (TVP) e tromboembolismo pulmonar (TEP).

Desenvolvido com base em critérios clínicos objetivos, ele auxilia na estratificação de risco dos pacientes, guiando a necessidade de exames complementares e decisões terapêuticas. Portanto, seu uso é essencial em ambientes de emergência e unidades ambulatoriais, contribuindo para um diagnóstico mais seguro, ágil e baseado em evidências.

Trombose venosa profunda (TVP)

A trombose venosa profunda (TVP) é uma manifestação comum da tromboembolia venosa (TEV), cuja incidência geral em adultos é de aproximadamente 1 caso por 1.000 pessoas ao ano. Além disso, cerca de dois terços dos eventos tromboembólicos apresentam-se inicialmente como TVP.

A clínica da TVP é muitas vezes inespecífica, incluindo sintomas como edema, dor, calor e eritema, geralmente unilaterais. Pacientes com trombose distal costumam relatar sintomas localizados na panturrilha, enquanto a trombose proximal pode afetar toda a perna.

Portanto, devido à baixa especificidade dos sinais e sintomas clínicos, é essencial uma estratégia diagnóstica estruturada, baseada na probabilidade clínica pré-teste, para definir a necessidade de exames complementares, como o dímero D e a ultrassonografia com Doppler.

Nesse contexto, o escore de Wells é uma ferramenta validada amplamente utilizada para estimar a probabilidade clínica de TVP antes da realização de exames diagnósticos.

Tromboembolismo pulmonar (TEP)

O tromboembolismo pulmonar (TEP), por sua vez, caracteriza-se pela impactação de um êmbolo no sistema arterial pulmonar. Este êmbolo é resultado de um desprendimento total ou parcial de um trombo geralmente formado no sistema venoso profundo do paciente.

O TEP é uma condição frequente, de manifestação clínica variada e potencialmente fatal. Desta forma, sua identificação deve ser feita da maneira mais rápida possível, evitando sua evolução e piora do prognóstico.

Por conta da sua clínica variada e a pouca sensibilidade e especificidade dos exames de rotina, torna-se necessária a estimação da probabilidade clínica do paciente apresentar TEP antes mesmo da realização de exames complementares. Nesse contexto, a ferramenta mais utilizada hoje para esse fim é o escore de Wells.

Critérios do Escore de Wells para TVP

O escore de Wells baseia-se em critérios clínicos objetivos e subjetivos para estimar a probabilidade de TVP, atribuindo pontos para fatores como:

  • História prévia de TVP.
  • Imobilização recente ou cirurgia.
  • Câncer ativo.
  • Edema e dor ao longo do trajeto venoso.
  • Ausência de diagnóstico alternativo mais provável, entre outros.
Característica ClínicaPontuação
Câncer ativo (tratamento em andamento, nos últimos 6 meses ou em cuidados paliativos)+1
Paralisia, paresia ou imobilização recente com gesso de membros inferiores+1
Acamado por mais de 3 dias ou cirurgia de grande porte nas últimas 4 semanas+1
Sensibilidade localizada ao longo do sistema venoso profundo+1
Perna inteira com edema+1
Edema da panturrilha > 3 cm em comparação com a perna assintomática (medido abaixo da tuberosidade da tíbia)+1
Edema com depressão (maior na perna sintomática)+1
Veias colaterais superficiais (não varicosas) visíveis+1
Diagnóstico alternativo tão provável ou mais provável que TVP–2
Probabilidade Pré-teste de Trombose Venosa Profunda (TVP) – Escore de Wells. Fonte: UpToDate, 2025.

Portanto, a soma total permite classificar o paciente em:

  • Baixa probabilidade (≤ 0 pontos): cerca de 3% de prevalência de TVP.
  • Probabilidade moderada (1–2 pontos): cerca de 17% de prevalência.
  • Alta probabilidade (≥ 3 pontos): entre 50 e 75% de prevalência.

Uma versão modificada da pontuação simplifica a estratificação em “provável” (≥2 pontos) ou “improvável” (≤1 ponto).

Por fim, a depender do resultado, o escore de Wells orienta os próximos passos diagnósticos:

  • Probabilidade baixa ou moderada: deve-se realizar teste de dímero D. Se o resultado for negativo, pode-se excluir TVP com segurança.
  • Alta probabilidade: a ultrassonografia venosa de compressão com Doppler é indicada diretamente, sem necessidade de dosagem de dímero D.

Escore de Wells para Embolia Pulmonar (EP)

A estimativa da probabilidade pré-teste (PTP) é um passo fundamental na abordagem de pacientes com suspeita de embolia pulmonar (EP). Essa avaliação pode ser feita com base no Escore de Wells, que é amplamente utilizado devido à sua validação extensiva e que permite a estratificação em três níveis de risco:

  • Baixa probabilidade: pontuação inferior a 2.
  • Intermediária: entre 2 e 6.
  • Alta probabilidade: superior a 6.

Essa classificação ajuda a direcionar o uso do dímero D, um teste laboratorial sensível, porém pouco específico. Dessa forma, em pacientes com probabilidade baixa ou intermediária, um dímero D negativo pode excluir EP com segurança, evitando exames de imagem desnecessários. Por outro lado, nos casos de alta probabilidade clínica, realiza-se o exame de imagem (como a angiotomografia de tórax) diretamente, independentemente do resultado do dímero D.

O escore é composto por sete critérios clínicos, com diferentes pesos atribuídos. A soma desses pontos define a probabilidade do paciente apresentar embolia pulmonar:

CritérioPontuação
Sinais clínicos de TVP (inchaço e dor à palpação em trajeto venoso profundo)+3 pontos
EP como diagnóstico mais provável (nenhuma outra explicação clínica mais provável)+3 pontos
Frequência cardíaca > 100 bpm+1,5 ponto
Imobilização por pelo menos 3 dias ou cirurgia nas 4 semanas anteriores+1,5 ponto
Episódio prévio de TVP ou EP+1,5 ponto
Hemoptise+1 ponto
Câncer ativo (tratamento atual, nos últimos 6 meses ou em cuidados paliativos)+1 ponto
Fonte: UpToDate, 2025.

Portanto, na classificação do risco total considera-se:

  • Baixo risco: < 2 pontos.
  • Intermediário: 2 a 6 pontos.
  • Alto risco: > 6 pontos.

Na versão de dois níveis (Wells modificado), os pontos são somados da mesma forma, mas a classificação é simplificada:

  • EP improvável: ≤ 4 pontos.
  • EP provável: > 4 pontos.

Vantagens e limitações do escore de Wells

O escore de wells leva em consideração os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença, sem utilizar exames complementares. Para cada aspecto do escore é atribuído uma pontuação especifica.

O escore de Wells possui muitas vantagens na prática médica. Sua aplicação é rápida e não possui custos. Além disso, segundo a diretriz de Embolia Pulmonar do American College of Physicians (2015), o uso do escore é fundamental para evitar a utilização de exames mais complexos e caros, como a tomografia computadorizada, em pacientes com baixa suspeita de TEP.

Apesar de útil, a ferramenta apresenta algumas limitações. Uma delas é a alta pontuação atribuída ao critério “diagnóstico alternativo menos provável que TEP”. Esse critério é considerado subjetivo e, portanto, pode fazer com que os resultados flutuem a depender do médico que estiver aplicando o escore.

Ademais, o escore pode ter desempenho reduzido em populações específicas, como pacientes idosos ou hospitalizados, e é subutilizado na prática clínica, mesmo com sua ampla validação.

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Referências

  • Knobel, Elias. Condutas no paciente grave. 3 ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2006.
  • Medicina intensiva: abordagem prática. Universidade de São Paulo / Luciano César Pontes de Azevedo et al. 2. ed. Barueri, SP : Manole, 2015.
  • Paciente Crítico: diagnóstico e tratamento. Hospital Sírio-Libanês / Guilherme Schettino et al. 2 ed. Barueri, SP: Manole, 2012.
  • Raja AS, Greenberg JO, Qaseem A, Denberg TD, Fitterman N, Schuur JD, et al. Evaluation of Patients With Suspected Acute Pulmonary Embolism: Best Practice Advice From the Clinical Guidelines Committee of the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2015 Nov 3. 163 (9):701-11.
  • Thompson, T. et al. Clinical presentation and diagnostic evaluation of the nonpregnant adult with suspected acute pulmonary embolism. UpToDate, 2025.
  • Huisman, M. V.; Bauer, K. A. Clinical presentation and diagnosis of the nonpregnant adult with suspected deep vein thrombosis of the lower extremity. UpToDate, 2025.

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