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Caso Clínico em pediatria – Obesidade Infantil | Colunistas

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Caso Clínico

Identificação: E.W.R.S, escolar de 10 anos de idade, pardo, natural de Moreno e residente de Jaboatão dos Guararapes chega a consulta junto a sua mãe, E.S. 

Queixa principal e duração: Tosse recorrente há 1 mês. 

Anamnese: Durante a anamnese aborda-se o período pré-natal, no qual a gestação foi de risco, devido à pressão arterial crônica da mãe, não foi planejada, porém foi bem aceita, e o pré-natal foi realizado em uma unidade de saúde da família e em um hospital maternidade. 

E.W.R.S, nasceu a termo, 40 semanas, pesando 5,2 kg e medindo 54 cm, não houve intercorrência durante o parto, a mãe relata não lembrar o Apgar no 1 e no 5 minuto, mas recorda que o filho não ficou ictérico, acianótico ou com desconforto respiratório. Ele foi encaminhado para o alojamento conjunto e recebeu alta junto a mãe no 4º dia. Segundo a genitora, os testes do olhinho, orelhinha e pezinho foram realizados, todos sem alterações e o do coraçãozinho não foi feito. Dentre os marcos, ele caminhou aos 12 meses, falou aos 8 meses, ficou em aleitamento materno exclusivo por apenas 2 dias, pois segundo sua mãe ela fez uso de mingau de Arrozina para acalmar o choro do bebê, teve introdução alimentar aos 3 meses com ingesta de suco e aos 6 meses alimentos sólidos, ademais fez uso de mingaus até os 7 anos, quebrou o braço aos 4 anos ao cair da árvore e precisou colocar pinos de metal, além disso, nega doenças prévias. Os pais são separados e ele mora sozinho com a mãe, a casa possui água encanada e saneamento básico, tem um irmão mais velho asmático, a mãe hipertensa e o pai saudável.

Sobre a História da Doença Atual: A tosse é forte e seca, e costuma causar dor, nega presença de sangue e ocorre mais comumente pela madrugada com duração média de 10 minutos, nega fatores de melhora, e dentre os de piora está ficar deitado. Dentre as medicações, fez uso de Histamin para aliviar a tosse. Por fim, nos períodos sem tosse permanece assintomático.

Interrogatório sintomatológico: Presença de hematomas na pele, segundo a mãe decorrente de quedas, e caroços decorrentes de picadas de mosquito, nega problemas oculares, problemas no ouvido, problemas cardíacos, nega dispneia, relata apenas a tosse seca e intermitente. Nega problemas gastrointestinais e genitais urinários.

Fez uso recentemente de antiparasitário (albendazol), segundo a genitora, e está com a vacinação atualizada, faltando apenas a vacina da COVID-19.

Sua alimentação consiste em: frutas, iogurte e sanduíche no café da manhã, feijão arroz, purê, alface, tomate, frango e pirão no almoço, leite fermentado e sanduíche no lanche da escola (segundo a mãe suquinho do bob esponja), janta inhame, macaxeira, papa ou carne e após a janta come biscoito recheado com leite ou vitamina.

Sobre seus hábitos de vida: Dorme com a mãe, em média 10 horas por noite (23 às 9 da manhã) Brinca na rua com os amigos e gosta de andar de bicicleta, estuda a tarde de segunda a sexta, escova os dentes 2x por dia e está com cárie nos dentes de trás, fez uso de bicos até os 7 anos. Tempo de tela de 4 horas por dia. 

Na escola: Tem bom aprendizado, acompanha os colegas, lê e escreve e está no 5 º ano.

Ao exame físico: Peso 57,5 kg, altura 1,48m, IMC 26,2 (Z-Score +2 a +3), pressão arterial, 120 / 80 mmHg. Bom estado geral, orientado em tempo e espaço, acianótico, anictérico, afebril ao toque. Batimento cardíaco normal, frequência cardíaca = 88 bpm. Ausculta respiratória normal, murmúrio vesicular presente em ambos os hemitórax sem ruídos adventícios. Abdome globoso, indolor a palpação. sem visceromegalias, ruídos hidroaéreos presentes. Ausência de pelos em região pélvica, tamanho do corpo do pênis e bolsa escrotal condizente com a idade, sem fimose. Classificação de Tanner P1G2. 

Impressões diagnósticas: Escolar com obesidade; Alimentação inadequada; Desenvolvimento neuropsicomotor normal; Tosse seca e intermitente a esclarecer (Alergia, infecções de vias aéreas superiores);  Excesso de uso de telas; Sono irregular.

Conduta: Orientar a genitora sobre mudanças alimentares, com retirada de alimentos processados e industrializados, e introdução de mais frutas, estimular a atividade física. Solicitar exames para acompanhamento: Hemograma, função renal e hepática, perfil lipídico, TSH e T4 livre, urina tipo I. Orientar sobre a lavagem nasal e o uso da desloratadina nas crises, caso ocorra desconforto respiratório procurar a emergência. Orientar sobre a redução do tempo de tela e a higiene do sono.

Discussão

Obesidade Infantil – A obesidade infantil, é um problema de saúde mundial, decorrente, principalmente, da alimentação inadequada associada a um sedentarismo. É considerada um distúrbio metabólico, que consequentemente causa o aumento da gordura corporal, isso se dá principalmente a falta de equilíbrio na alimentação das crianças, na qual ocorre uma ingestão em grande quantidade de alimentos ultraprocessados e industrializados e uma baixa ingestão de alimentos naturais, logo a quantidade de energia ingerida (caloria) e o gasto dessa energia pelo indivíduo é descompensado. A obesidade infantil tornou-se uma verdadeira pandemia e esse quadro piorou nos últimos 2 anos e meio, devido a pandemia de COVID-19 pois, ao passarem mais tempo em casa, devido ao isolamento social, as crianças mantiveram ou aumentaram sua ingestão de energia ao passo que o consumo dessas foi reduzido pois as atividades realizadas em casa levavam a um consumo quase nulo, esse desbalanço a longo prazo causou o acúmulo de gordura corporal. A prevalência da obesidade no Brasil é de praticamente 1 em cada 5 crianças e estima-se que até 2030 o país seja o 5º lugar de mais crianças e adolescentes obesos no mundo. No caso discutido acima vemos vários fatores que contribuíram para o desenvolvimento do quadro de obesidade no paciente, o peso elevado ao nascer (GIG), 5,2 kg, associado a erros alimentares (introdução de massa “arrozina” aos 2 dias de vida, até os 7 anos de idade e introdução de suco aos 3 meses de vida) e uma alimentação inadequada diariamente (biscoitos, pães, massas). Dessa forma, é vital que a conduta estabelecida durante a consulta seja seguida, com mudança no estilo alimentar e de hábitos de vida sejam rigorosamente seguidas para que esse quadro consiga ser revertido sem trazer mais repercussões para o futuro, ademais a investigação de outras complicações decorrentes da obesidade deve ser mantida nos próximos atendimentos.

Autoria: Saulo Borges de Brito

Dúvidas? 

Instagram:@saulo_bb 

Email:saulobb99@gmail.com

Referências

  1. PEDIATRIA, Sociedade Brasileira D. Tratado de pediatria (volume 2). [Barueri – SP]: Editora Manole, 2021. 9786555767483. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555767483/. Acesso em: 22 mar. 2022.
  2. KLIEGMAN, Robert. Nelson – Tratado de Pediatria. [Barueri – SP]: Grupo GEN, 2017. 9788595153707. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595153707/. Acesso em: 22 mar. 2022.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.