Psiquiatria

Caso Clínico: Transtorno de Personalidade Borderline | Ligas

Caso Clínico: Transtorno de Personalidade Borderline | Ligas

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LIASME

8 minhá 14 dias

Identificação do paciente

L.B.S, 22 anos, brasileira, estudante universitária, parda, bissexual, de origem católica, solteira.

Queixa principal

A paciente apresentava as seguintes queixas: sentia-se deprimida, “vazia”; auto-agredia-se, chegando a se machucar; mudava de estado de ânimo sem razão aparente; indecisão; falhas de memória e atenção; dificuldade em lidar com as perdas e solidão.

História da doença Atual (HDA)

A paciente apresenta início dos sintomas aos 16 anos de idade, evoluindo com sentimento de impotência e confusão, afirmando não saber quem é, do que gosta ou o que espera da vida, relata que geralmente “se sente vazia”, e que as suas experiências, especialmente as negativas, foram ridicularizadas pela família, ignoradas ou era-lhe dito que não estavam sentindo raiva, por exemplo, quando, de fato, estava.

Já fez uso de fluoxetina, imipramina, carbamazepina, diazepan, E.C.T., sem eficácia clínica. Também já fizera tratamento com psicanalista clínico, sem eficácia. A família descreve-a como isolada e chorosa desde criança. Consultava muitos médicos, mas não se mantinha em tratamento medicamentoso por mais de dois meses.

Antecedentes pessoais, familiares e sociais

História conflituosa com a família, relatando não receber o apoio que precisa de seus familiares. É a única dos 3 (três) irmãos que mora até hoje com os pais, mantendo com eles vínculos conflituosos. A mãe é deprimida e realizava acompanhamento psiquiátrico.

Antecedentes fisiológicos e patológicos sem alterações em saúde física. À Avaliação minunciosa, apresentava-se com sintomas de ansiedade, depressão, melancolia, ideação suicida, múltiplas queixas somáticas, insônia, inapetência, hipersexualidade, despersonalização e delírios de ruína.

Nega uso de tabaco, relata uso de álcool 1x por semana, em encontros sociais com grupos de amigos e compulsão alimentar por diversos momentos da vida.

Exame físico

Exame físico completo sem alterações

Suspeitas diagnósticas

  • Depressão
  • Transtorno de Humor Afetivo Bipolar
  • Transtorno de Personalidade Borderline

Diagnóstico

Apesar de preencher critérios clínicos tanto para depressão maior como para transtorno do humor afetivo bipolar, considera-se que, além dos sintomas característicos de transtorno de humor, a paciente apresenta vazio existencial, padrões de relacionamento instáveis, impulsividade, auto-destrutividade, difusão de identidade, característicos da personalidade borderline.

De acordo com o DSM V, no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), o indivíduo apresenta um padrão instável no que se refere à relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos, padrões constantes de impulsividade, que estão presentes em uma variedade de contextos, tendo início na idade adulta, preenchendo pelo menos cinco ou mais dos critérios citados abaixo.

1. Esforços desesperados para evitar abandono real ou imaginado;

2. Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização;

3. Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e persistente da autoimagem ou da percepção de si mesmo;

4. Impulsividade em pelo menos duas áreas autodestrutivas (p. exemplo, gastos, sexo, abuso de substância, compulsão alimentar, etc.);

5. Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas, ou de comportamento automutilante;

6. Instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor (irritabilidade ou ansiedade intensa com duração geralmente de poucas horas e raramente mais de alguns dias);

7. Sentimentos crônicos de vazio;

8. Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade em controlá-la;

9. Ideação paranoide transitória associada a estresse ou sintomas dissociativos intensos;

Discussão do caso

O que é o Transtono de Personalidade Borderline?

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) define o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) como um padrão persistente de experiência interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas da cultura do indivíduo. Ou seja, o TPB pode ser considerado um quadro consequência de uma mal adaptação ao contexto social vivenciado no presente, devido a evolução natural das situações sociais e problemáticas constantes da vida cotidiana, fatos que geram angústia e levam o indivíduo a se comportar em relação ao meio de maneira impulsiva ou descontrolado, em uma tentativa de solucionar sua dificuldade de se relacionar com o modelo social atual.

Quais os outros prováveis diagnósticos?

Transtorno Bipolar e Transtornos depressivos.

De acordo com o DSM-V o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ocorre frequentemente de forma conjunta com transtornos depressivos ou bipolares, e, quando atendidos critérios para ambos, os dois podem ser diagnosticados. É importante frisar que a apresentação pontual do TPB pode se assemelhar com um episódio depressivo ou bipolar, sendo importante o clínico evitar diagnosticar o Transtorno de Personalidade baseando-se apenas na apresentação do quadro atual, é necessário identificar um padrão de início precoce e curso prolongado.

Qual o tratamento adequado para o Transtorno de Personalidade Borderline?

Atualmente o tratamento mais adequado para o Transtorno de Personalidade Borderline é a  abordagem multidisciplinar, com destaque para associação entre a psicoterapia e o tratamento farmacológico dos sintomas como, alterações repentinas e severas no humor, humor deprimido, déficit de atenção, mania, entre outros. A psicoterapia focada na transferência, a terapia cognitivo-comportamental e o tratamento suportivo são os que demonstram maior eficácia no que diz respeito à psicologia. 

Qual é o prognóstico do caso?

Apesar de não existir uma cura para o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), os estudos até o presente momento demonstram que o TPB se estabiliza por si só entre os 30 e 50 anos, havendo diminuição dos comportamentos impulsivos e explosivos, além da aquisição da estabilidade emocional e consequente melhora das relações interpessoais.

Conclusão

Temos como principais aprendizados do caso:

O tratamento multidisciplinar, contando com médico psiquiatra e psicólogo, é indicado para paciente visando estabilizar o humor por meio de fármacos, além de oferecer mecanismos de enfrentamento saudáveis ao identificar situações e padrões de comportamento que causem sofrimento ou desconforto.

  • O Transtorno de personalidade borderline é um transtorno que causa grande sofrimento ao paciente uma vez que ele apresenta padrões de experiência interna e comportamental intensas, que desviam do esperado pela sociedade.
  • Esse transtorno pode apresentar características muito similares aos transtornos depressivos e ao transtorno bipolar. Por isso é importante realizar um acompanhamento da paciente e identificar o padrão de comportamento incomum de início precoce e curso prolongado.
  • O tratamento multidisciplinar é fundamental para estabilização do quadro e recuperação da paciente.
  • Apesar de não ter cura, o Transtorno de Personalidade Borderline tende a se estabilizar entre os 30 e 50 anos de forma natural. 

Autores e revisores:

Liga: Liga Acadêmica de Saúde Mental – @liasmeunesaju

Autor(a) : Gabrielle Ferreira e Raíza Pereira

Revisor(a): Andressa Carvalho Leporace – @lepoandressa

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Referências:

CUNHA, Paulo Jannuzzi; AZEVEDO, Maria Alice Salvador B. de. Um caso de transtorno de personalidade borderline atendido em psicoterapia dinâmica breve. Psic.: Teor. e Pesq.,  Brasília ,  v. 17, n. 1, p. 5-11,  Apr.  2001 . 

DAL’PIZOL, Adriana et al . Programa de abordagem interdisciplinar no tratamento do transtorno de personalidade borderline: relato da experiência no ambulatório Melanie Klein do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul,  Porto Alegre ,  v. 25, supl. 1, p. 42-51,  Apr.  2003 . 

SOUSA, Ana Carolina Aquino de. Transtorno de personalidade borderline sob uma perspectiva analítico-funcional. Rev. bras. ter. comport. cogn.,  São Paulo ,  v. 5, n. 2, p. 121-137, dez.  2003.  

SOUSA, Ana Carolina Aquino de. Transtorno de personalidade borderline sob uma perspectiva analítico-funcional. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v. 5, n. 2, p. 121-137, 2003.

TANESI, Patrícia Helena Vaz et al. Adesão ao tratamento clínico no transtorno de personalidade borderline. Estudos de Psicologia (Natal), v. 12, n. 1, p. 71-78, 2007.

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