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Como escolher a sua especialidade? | Colunistas

Como escolher a sua especialidade? | Colunistas

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Cleison Brito

8 min há 69 dias

Você porventura já se pegou em dúvida entre cirurgia e clínica médica? Essa é uma pedra de tropeço na vida de muitos estudantes de medicina. Durante toda nossa vida, somos condicionados a realizar escolhas, algumas mais simples, outras mais complexas; o tempo vai passando, e a complexidade das escolhas vão aumentando gradativamente. Vejo na adolescência o momento de uma das grandes escolhas da vida. Principalmente quando estamos no terceiro ano do ensino médio, pois a maioria de nós ouve aquela clássica pergunta: “vai fazer vestibular para quê?”.

Não sei quanto a vocês, mas, apesar de na maior parte da vida ter pensado em ser médico, quando cheguei no meu último ano de colégio me vi perguntando se era isso que eu realmente deveria fazer. Algumas pessoas me estimularam, outras fizeram o contrário. Eu gostava de muitas coisas, mas via na medicina não somente um sonho, uma profissão, mas um estilo de vida que nos mais diversos aspectos se adequava ao que sonhava.

Mal ingressamos na universidade e a família e pessoas ao redor passam automaticamente de um tapinha nas costas e um “parabéns” para as impertinentes perguntas sobre qual especialidade iremos escolher. Apesar de ter noção de algumas especialidades, não fazia ideia do que eu seria no futuro e estava aberto a experimentar de um tudo para depois decidir. Mas a velha pergunta volta e meia se repetia por parte de colegas e até mesmo pacientes, ecoando com maior frequência no sexto ano da faculdade. Na minha cabeça aquele seria o ano, sim, pois estava tão perto de receber meu CRM e fazendo os preparativos para a formatura. Minha mente divagava entre ser aprovado no internato de cirurgia (o terror de muitos na minha faculdade), estudar para a prova de residência e, o mais difícil, qual especialidade eu iria seguir.

Quanto mais próximo do término daquele ano estava, maior era a pressão. Para não fazer feio comecei a dizer que faria cirurgia, mas na minha cabeça, assim como a de muitos colegas eu paquerava outras especialidades. Sabia de uma coisa: tinha que ser uma especialidade clínico-cirúrgica. Comecei então a conhecer mais intimamente cada uma das especialidades, cheguei a dar plantões nos dias livres com professores da faculdade, observei como era a rotina de trabalho e fui aos poucos formando a minha opinião.

Sinceramente, eu queria naquela época ter um mentor – não alguém que me induzisse a seguir uma tradição familiar, mas alguém que me orientasse nesse processo. No final do internato, um professor me disse algo que surgiu como uma luz no fim do túnel. Ele disse que eu teria que escolher a minha especialidade baseada em alguns fatores, tais como conciliar da melhor maneira algo que me identificasse, minha rotina de trabalho, o estilo de vida que eu pretendia ter dali a dez ou vinte anos, tempo para dedicar-me à família, onde iria residir após concluir a residência, minhas pretensões quanto ao serviço público ou privado. Ele fez uma analogia entre a residência e um casamento e disse: “o amor pela profissão é muito importante, Cleison, mas esse amor não irá perdurar se não houver um equilíbrio entre esses princípios. Pense bem, seja sábio e faça a sua melhor escolha”.

De tudo o que muitos professores me ensinaram, aquilo soou para mim como um conselho de pai e, naquele momento, foi mais importante do que muitos conceitos sobre fisiologia, anatomia ou fisiopatologia. Mas para tudo na vida há um tempo – há o tempo de plantar e o tempo de colher. Para algumas pessoas o tempo de colher não é ao final daqueles seis mais longos e intermináveis anos de nossas vidas, pois, por diversos e louváveis motivos, o ideal é trabalhar um pouco, juntar uma grana, ajudar a família, que sacrificou-se para que fosse possível concluir a faculdade. Outros veem na carreira militar médica uma oportunidade de segurar a vaga de residência, trabalhar por um ano e podem até se encantar ao ponto de optar por ser médico oficial de carreira. Eu, por exemplo, servi no Exército Brasileiro por um ano. Foi uma experiência ímpar e marcante nos mais diversos aspectos. Aprendi muito, vivi situações diferentes da vida corriqueira de um médico, fui “milico”, mudei muito a minha ideia sobre o serviço militar e aprendi a respeitar e admirar a instituição.

Mas, voltando ao tema de nossa conversa, a escolha tem que ser feita em algum momento e, seja qual for a escolha, seja sábio ou sábia ao fazê-la. Um livro que muito me ajudou, principalmente em conhecer um pouco mais sobre as nuances de diversas especialidades, foi Como Escolher a Sua Residência Médica, da Editora Sanar, e recomendo a leitura.

Assim como muitos outros estudantes do 6° ano de medicina, chegou o dia das inscrições. Ainda havia dúvida, meu universo de opções se resumia a GO e Cirurgia geral. Mesmo após tantos conselhos, análises e reflexões, acabei por inscrever-me em instituições diferentes e ambas especialidades. O que aconteceu? Para minha surpresa, felicidade e, ao mesmo tempo, desespero, fui aprovado em GO no SURCE e em Cirurgia Geral no SUS-BA. Eu não sabia se sorria ou se chorava. Foi então que os prós e contras falaram mais alto.

Eu amava a GO, achava muito interessante poder participar do momento em que a mulher traria ao mundo o bebê que carregara no ventre durante os últimos nove meses. Quanto à remuneração, não vi muitos contras, mas sempre fui muito família, sempre gostei de participar de momentos especiais, sempre sonhei em ser pai e participar do crescimento e educação do meu filho (pois já era pai de um menino de sete anos) ativamente. E imaginar que a minha vida se limitaria a estar constantemente em plantões, passar noites e dias consecutivos fora de casa fizeram-me convicto de que a Cirurgia Geral se adequava mais ao estilo de vida, pois desejava fazer como subespecialidade cirurgia plástica. Em virtude disso, optei já nos últimos minutos do segundo tempo e matriculei-me em cirurgia geral no SUS-BA, no Hospital Regional de Juazeiro, que por sinal ficava bem próximo da cidade onde meus pais moram. Posso dizer que essa foi uma das mais sábias escolhas da minha vida.

O serviço, como qualquer outro, tinha seus pontos fortes e fracos. Nem sempre é possível conciliar no mesmo serviço tudo de bom, às vezes deixa algumas arestas, mas nada que não possa ser corrigido por meio de esforço próprio e interesse em correr atrás. Meu chefe de residência foi excepcional, pois cerca de duas semanas após iniciar a residência meu pai faleceu de complicação de insuficiência renal crônica dialítica. Assim que a notícia se tornou conhecida ele me orientou a sair do hospital e me unir aos meus familiares e viver aquele momento. Como sou grato por ele ter sido tão compreensivo e humano. Mais uma vez percebi que havia feito a escolha correta.

O tempo passou, a residência foi uma escola, um campo de batalha, um local onde fiz amigos para a vida (meus R+, R iguais e R menos) e que se tornaram parte de minha família, foi um local que me forjou cirurgião geral e me tornou capaz de poder atuar nessa área que é tão rica em subespecialidades.

A escolha tem que ser feita; fazer uma lista de prós e contras ajuda significativamente e vale também ouvir aquela voz que ecoa lá dentro e no fundo te diz o que deve ser feito. Lembre-se que a escolha da sua especialidade é como escolher a pessoa com quem irá se casar, pois, afinal de contas, ninguém se casa pensando em separar. Igualmente, ninguém escolhe uma especialidade pensando que, se em dez anos achar que fez a escolha errada, vai voltar às cadeiras de um cursinho preparatório e começar do zero.

Não pense que você é anormal por ter dúvidas, elas são parte essencial de nossas vidas, muitos dos seus colegas as têm, mas tentam escondê-las. As dúvidas nos fazem aprender, progredir, moldar e pouco a pouco nos tornar independentes e autoconfiantes. Não se preocupe, no final tudo fica bem, pois como diz uma bela canção: “…pode parecer difícil, mas a escolha é sua ficar no chão ou mirar na lua. Segue tua intuição e evolua” (Roda da vida, de Lou e May).

Qualquer que seja a sua escolha, não desista, siga em frente com fé. Tem alguém lá em cima sempre pronto para nos apoiar e dar uma força.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NUNES, Caio. Como escolher a sua residência médica: o guia para a escolha mais importante da carreira do médico. Salvador: SANAR, 2014.

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