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Como identificar e manejar Desconforto Respiratório no recém-nascido | Colunistas

Como identificar e manejar Desconforto Respiratório no recém-nascido | Colunistas

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Antônio Freitas

5 minhá 14 dias

Também conhecida como Doença da Membrana Hialina, a Síndrome do Desconforto Respiratório do recém-nascido (RN) pode ser definida segundo Miyoshi e Guinsburg (2009) como o conjunto de alterações fisiopatológicas causadas pela deficiência de surfactante alveolar, que acarreta uma imaturidade do parênquima pulmonar, especificamente dos alvéolos, pois há um colapso alveolar que gera um desconforto respiratório evidente já nas primeiras horas pós-parto no RN. Essa condição está relacionada a outras complicações na vida extraútero, causadas por uma má adaptação do feto e pela imaturidade correlacionada de outros órgãos.

É umas das principais causas de morbidade nesses pacientes e é mais comum em neonatos com menos de 34 semanas, havendo relação direta do grau de pramaturidade com o grau de intensidade dos sintomas, de gestação e filhos de mães diabéticas (YADAV, GIRI. 2019). No atual contexto da pandemia de COVID-19, Rasmussenet al (2020) indicaram que, em gestantes contaminadas com o Sars-CoV-2, há maior chance de RNs prematuros desenvolverem SDR, podendo progredir para displasia broncopulmonar.

Surfactante é uma substância produzida pelos pneumócitos tipo II, que forma uma bicamada lipídica sobre a superfície interna dos alvéolos. Essa camada reduz a atração entre moléculas na interface ar-líquido do alvéolo, reduzindo a tensão superficial e estabilizando o alvéolo ao final da expiração. Quando há deficiência dessa substância, há o aumento da tensão superficial, que resulta no colapso alveolar e, consequentemente, na diminuição da capacidade respiratória do pulmão (KING et al. 2020).

A apresentação clínica normalmente se dá com taquipneia, com frequência respiratória superior a 60 incursões por minuto, podendo haver também grunhidos, cianose, batimento de asa de nariz, retração subcostal e intercostal. Percebe-se a inespecificidade dos achados, o que torna a condição de difícil diagnóstico, devendo haver diferenciação de outras causas pulmonares, como taquipneia transitória do RN, aspiração de mecônio, pneumotórax, hérnia diafragmática; infecciosas, como pneumonia, sepse e meningite (HERMANSEN, MAHAJAN. 2015).

Exames laboratoriais podem auxiliar no diagnóstico. No hemograma completo, uma proporção superior a 0,2 de imaturos para neutrófilos totais é sugestivo de infecção, podendo esse índice ser alterado por estresse, choro, parto induzido por oxitocina. Esse teste apresenta significativa sensibilidade e valor preditivo negativo, porém, em teste único, tem baixo valor preditivo positivo. Além disso, proteína C reativa inferior a 10 mg/L descarta sepse. A radiografia de tórax se apresenta com padrão de vidro fosco difuso, com broncogramas aéreos e hipoexpansão e a gasometria arterial mostra hipoxemia e acidose. Os sintomas tendem a piorar nas primeiras 24 horas, porém, com os métodos de tratamento atuais, não costuma haver sequelas (MURPHY, WEINER. 2012).

A oxigenação do paciente pode ser mantida com oxigênio via bolsa/máscara, cânula nasal, CPAP nasal ou suporte ventilatório. Ressuscitação com oxigênio a 100% pode aumentar a mortalidade neonatal, portanto a recomendação é de ar ambiente. Uma taxa de 21 a 50% de oxigênio inspirado estabiliza o prematuro, mantendo a saturação de oxigênio em cerca de 90%.

A ventilação não invasiva, comumente com CPAP nasal, é o padrão ouro, apresentando redução de taxas de internação em UCIN (PATTERSON, POLLOCK. 2020).

Outra terapêutica para a condição consiste na reposição de surfactante, medida que reduz mortalidade. A prescrição mínima é de 100mg/kg de surfactante. Uma dose inicial de 200mg/kg promove um aumento significativo na oxigenação, porém sem redução de mortalidade. Segundo Stevenset al. (2007), o protocolo INSURE, que consiste em intubar, administrar surfactante e extubar para CPAP nasal, leva a uma redução de 67% na necessidade de ventilação mecânica e de 50% de displasia broncopulmonar.

Outra conduta de suporte é um balanço hidroeletrolítico adequado; a alimentação oral não é recomendada em casos em que a frequência respiratória for superior a 60irpm. Um ambiente termicamente neutro reduz o consumo de energia do paciente e, assim, o consumo de oxigênio. A presença de um neonatologista pode ser solicitada, caso o clínico encarregado não se sinta confortável em manejar a situação.

A prescrição de corticoides pré-natal, entre a 24ª e a 34ª semanas de gestação, reduz os índices de SDR. Uma dose única de corticosteroides é benéfica se administrada pelo menos 24 horas antes do parto, tendo efeito por até 7 dias. A repetição das doses ainda é o protocolo debatido e sem eficácia comprovada, sendo duas o número máximo de doses.

De forma geral, o paciente, ao se apresentar com SDR, deve ter seu histórico familiar, juntamente com possíveis fatores de risco e diagnóstico diferencial. Feito isso, deve ser avaliado o grau de desconforto respiratório do paciente. Caso o desconforto seja brando, apresentando apenas taquipneia ou grunhidos, a conduta deve ser expectante por 10 a 20 minutos, com checagem de glicose sanguínea. Caso, ao fim do período, tenha havido melhora clínica, o paciente pode ser encaminhado para a rotina normal da enfermaria neonatal. Quando o caso se dá de maneira severa, com múltiplos sinais, como tiragem intercostal e subcostal, cianose e apneia, a conduta deve ser de ressuscitação, checagem de oximetria de pulso, oxigênio suplementar, radiografia de tórax e exames laboratoriais para diagnóstico diferencial. Caso não haja melhora clínica, deve ser considerada a internação na UCIN. Com o tratamento adequado, o paciente não deve apresentar sequelas a longo prazo.

Autoria: Antônio Freitas

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