Dispepsia Funcional (DF) é uma condição clínica altamente prevalente que integra o espectro das desordens funcionais do trato gastrointestinal superior. Segundo os critérios de Roma IV, trata-se de um distúrbio caracterizado pela presença de um ou mais sintomas dispépticos, como dor epigástrica, queimação, saciedade precoce ou plenitude pós-prandial, que ocorrem de maneira recorrente nos últimos 3 meses, com início dos sintomas há pelo menos 6 meses, na ausência de alterações estruturais ou bioquímicas que justifiquem o quadro clínico.
Epidemiologia e relevância clínica
Estudos populacionais estimam que entre 20% a 40% da população adulta apresente queixas dispépticas ao longo da vida. Além disso, a dispepsia funcional é responsável por aproximadamente 3% a 5% das consultas em atenção primária e por cerca de 30% das visitas ambulatoriais em gastroenterologia. Embora possa afetar indivíduos de todas as idades, é mais frequente em mulheres adultas, sobretudo entre 20 e 50 anos.
Com a implementação dos critérios de Roma IV, houve uma redução significativa na prevalência da dispepsia funcional, principalmente devido à maior precisão na diferenciação entre DF e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), uma vez que sintomas como pirose e regurgitação passaram a ser considerados centrais para o diagnóstico de DRGE e não mais de DF.
Diagnóstico diferencial e abordagem inicial
A presença de sintomas dispépticos não é específica para DF. Eles também podem estar associados a condições como úlcera péptica, gastrite crônica, DRGE, neoplasias gástricas ou esofágicas, além de doenças do trato hepatobiliar e pancreático. Dessa forma, a dispepsia funcional é, por definição, um diagnóstico de exclusão.
Assim, para se estabelecer esse diagnóstico, é imprescindível a realização de uma avaliação clínica minuciosa, incluindo história detalhada, exame físico e exames complementares. Portanto, a endoscopia digestiva alta (EDA) é fundamental para afastar causas estruturais, como lesões pépticas ou malignidades. Deve-se ressaltar que, na DF, a EDA não revela alterações orgânicas significativas.
Além disso, adicionalmente, é essencial investigar sintomas de alarme, como perda ponderal não intencional, anemia, disfagia, vômitos persistentes ou histórico familiar de câncer gastrointestinal, os quais indicam a necessidade de investigação mais aprofundada.
Fisiopatologia da dispepsia funcional
Apesar dos avanços na gastroenterologia funcional, a fisiopatologia da DF ainda não é completamente compreendida. Entretanto, evidências apontam para um modelo multifatorial, que envolve alterações da motilidade gastrointestinal, disfunções sensoriais viscerais e fatores psicossociais.
As principais alterações fisiológicas observadas incluem:
- Esvaziamento gástrico retardado: Observado em até 30% dos pacientes com DF, está frequentemente associado à saciedade precoce e à plenitude pós-prandial. Pode ser causado por gastroparesia idiopática primária.
- Comprometimento da acomodação gástrica: A capacidade do fundo gástrico de se distender adequadamente após a ingestão de alimentos encontra-se reduzida em parte dos pacientes, contribuindo para sintomas pós-prandiais.
- Hipersensibilidade visceral: Trata-se de uma resposta exacerbada a estímulos mecânicos ou químicos fisiológicos, como distensão gástrica ou presença de lipídeos e ácidos. É frequentemente associada à dor epigástrica e à queimação.
- Infecção por Helicobacter pylori: Embora a relação entre H. pylori e DF não seja linear, acredita-se que a infecção possa contribuir para a inflamação subclínica e sensibilização gástrica, mesmo na ausência de gastrite evidente.
- Fatores psicossociais: A presença de ansiedade, depressão e estresse crônico está fortemente associada à piora da sintomatologia dispéptica. O eixo cérebro-intestino tem papel central na fisiopatologia da DF, sendo alvo terapêutico em muitos casos refratários.
Classificação clínica segundo os critérios de Roma IV
Os critérios diagnósticos atuais categorizam a dispepsia funcional em duas síndromes principais, que podem coexistir:
Síndrome da dor epigástrica (Epigastric Pain Syndrome – EPS)
Caracteriza-se por dor ou queimação localizada no epigástrio, com frequência de, pelo menos, uma vez por semana. Assim, a dor não está associada à defecação, não melhora com a eliminação de gases e não possui padrão de irradiação. Costuma ser exacerbada por jejum prolongado ou estresse.
Síndrome do desconforto pós-prandial (Postprandial Distress Syndrome – PDS)
Está associada a sensação de plenitude precoce, saciedade após pequenas quantidades de alimento e aumento de eructações. Os sintomas têm início logo após as refeições e persistem por várias horas.
Embora essas síndromes possam ocorrer isoladamente, cerca de 30% dos pacientes apresentam características de ambas, o que exige abordagem terapêutica individualizada.
Estratégias diagnósticas complementares
Embora a história clínica seja o pilar do diagnóstico, exames complementares podem ser necessários. Além da endoscopia digestiva alta, pode-se utilizar outros exames conforme o caso:
- Ultrassonografia abdominal: para avaliação de fígado, vesícula biliar e pâncreas.
- Testes respiratórios para H. pylori: quando o diagnóstico endoscópico não for possível.
- Esofagogastroduodenomanometria: em casos selecionados, para investigação de distúrbios motores.
- Cintilografia de esvaziamento gástrico: considerada padrão ouro na avaliação de gastroparesia.
Abordagem terapêutica da dispepsia funcional
O tratamento da DF é complexo e deve considerar a gravidade dos sintomas, o impacto na qualidade de vida e a presença de fatores psicossociais. Assim, pode-se dividir a abordagem em não farmacológica e farmacológica.
Tratamento não farmacológico
Modificações dietéticas
Embora não haja dieta específica comprovadamente eficaz, diversas orientações clínicas são recomendadas:
- Fracionar as refeições em 5 a 6 porções diárias.
- Evitar alimentos gordurosos, frituras, cafeína, álcool, refrigerantes e alimentos ultraprocessados.
- Evitar refeições volumosas, especialmente à noite.
- Não se deitar nas primeiras 2 horas após as refeições.
- Promover perda ponderal em casos de sobrepeso.
- Cessar o tabagismo, que pode agravar sintomas.
Intervenções psicoterápicas
Dado o papel do eixo cérebro-intestino, técnicas como terapia cognitivo-comportamental (TCC), mindfulness, e eventualmente o acompanhamento psiquiátrico, podem ser eficazes. A redução do estresse e o manejo da ansiedade frequentemente resultam em melhora significativa dos sintomas.
Tratamento farmacológico
A escolha da medicação deve ser guiada pela síndrome predominante e pela resposta clínica:
Inibidores da bomba de prótons (IBPs)
São indicados quando há suspeita de hiperacidez gástrica ou sobreposição com DRGE.
- Omeprazol: 20 mg, 1x/dia.
- Pantoprazol: 40 mg, 1x/dia.
Procinéticos
Indispensáveis nos casos com evidências de retardo do esvaziamento gástrico.
- Domperidona: 10 mg, 3x/dia, 30 minutos antes das refeições.
- Metoclopramida: 10 mg, 3x/dia, 15 minutos antes das refeições.
Bloqueadores dos receptores H2
Podem ser utilizados como alternativa aos IBPs, embora com eficácia inferior.
- Ranitidina: 150 mg, 2x/dia.
Erradicação do Helicobacter pylori
Em pacientes com H. pylori positivo, recomenda-se o tratamento de erradicação:
- Amoxicilina 1g + Claritromicina 500mg + IBP, 2x/dia por 10 a 14 dias.
Antidepressivos tricíclicos ou ISRS
Em casos refratários ou com comorbidades psiquiátricas associadas:
- Amitriptilina: 12,5–50 mg/dia.
- Fluoxetina: 10–20 mg/dia.
- Sertralina: 25–50 mg/dia.
É importante observar que, apesar de serem usados em doses subterapêuticas para depressão, essas medicações modulam a sensibilidade visceral.
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Veja também:
Referências bibliográficas
- Stanghellini V, Chan FKL, Hasler WL, Malagelada JR, Suzuki H. Gastroduodenal disorders. Gastroenterology, 2016.
- Schmulson MJ, Drossman DA. What is new in Rome IV. J Neurogastroenterol Motil, 2017.
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