No início de junho deste ano, durante a sessão plenária do Encontro
Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), Hedy L. Kindler,
autor principal do estudo POLO, apresentou os resultados do primeiro estudo
randomizado fase III a estabelecer uma abordagem baseada em biomarcadores para
o tratamento de câncer pancreático metastático.
Olaparib como terapia para o câncer de pâncreas
Métodos
Foi realizado um ensaio fase III randomizado, duplo-cego e controlado
por placebo para avaliar a eficácia do olaparib como terapia de manutenção em
pacientes portadores de uma mutação germinativa BRCA1 ou BRCA2 associada a
câncer de pâncreas metastático cuja doença não progrediu durante o tratamento inicial
com drogas antineoplásicas à base de platina.
Ao todo foram avaliados 3315 pacientes e identificados 247 que
possuíam as mutações de interesse nos genes BRCA (dois terços dos participantes
portavam mutações no gene BRCA2 e o restante, BRCA1). Por fim, 154 pacientes
foram randomicamente divididos em uma proporção 3:2 resultando em 92
participantes designados a receber olaparib 300mg administrado duas vezes ao
dia e 62, placebo. O tratamento começou de 4 a 6 semanas após a ultima dose do
quimioterápico do tratamento inicial e contou com duração média de 6 meses para
o grupo recebendo olaparib e 3.7 meses para aqueles que receberam placebo.
O desfecho principal analisado foi o tempo que os pacientes teriam sem
que houvesse progressão da doença após 16 semanas ou mais do início da
quimioterapia à base de platina.
Resultados
O tempo que os pacientes permaneceram sem progressão do câncer foi
consideravelmente maior no grupo que recebeu olaparib (7.4 meses) em comparação
ao placebo (3.8 meses). Após um ano, pouco mais de um terço dos pacientes
recebendo olaparib não apresentava sinais de progressão da doença, o que
aconteceu com 14.5% dos pacientes do grupo placebo e, após 2 anos, os números
foram 22.1% no grupo da intervenção e 9.6% no placebo.
Ao analisar a sobrevida dos pacientes, não houve diferença significativa
entre os grupos (mediana, 18,9 meses vs. 18,1 meses; hazard ratio para
morte, 0,91; IC 95%, 0,56 a 1,46; P = 0,68), assim aconteceu também com a
qualidade de vida. Efeitos adversos graves (grau 3 ou superior) foram
observados em 40% dos participantes que receberam olaparib contra 23% no grupo
placebo.
Segundo o autor, o objetivo a longo prazo é demonstrar benefícios da
terapia com olaparib também em pacientes com câncer pancreático de
características diferentes dos que já se beneficiaram da intervenção no estudo
POLO.
Adenocarcinoma Pancreático e BRCA1 e BRCA2
O câncer de pâncreas está em 12º
lugar na lista de canceres mais comuns no mundo e, no Brasil, é responsável por
2% de todos os cânceres diagnosticados e 4% de todas as mortes pela doença.
Dentre os tipos mais comuns da doença, é o que apresenta pior taxa de sobrevida
com menos de 7% dos doentes sobrevivendo após 5 anos do diagnóstico.
Adenocarcinoma é o tipo mais comum de câncer que acomete o pâncreas,
correspondendo a 90% dos casos diagnosticados.
Estima-se que 3% a 10% dos indivíduos
com adenocarcinoma de pâncreas possuem histórico familiar positivo para a
doença. Em um grupo não seleto de pacientes acometidos, até 2% podem apresentar
mutações patógenas no gene BRCA2 e 1% no gene BRCA1. Se o grupo analisado for
apenas de pessoas com câncer de pâncreas hereditário (dois ou mais parentes de
primeiro grau afetados pela doença), mutações no gene BRCA2 são encontradas em
cerca de 5% a 10% dos casos e no gene BRCA1, em 1%.
Olaparib
A substância teve registro aprovado pela ANVISA em 2018 como monoterapia no tratamento de manutenção do câncer de ovários e de pacientes com câncer de mama metastático. O princípio ativo olaparib é uma substância da classe de inibidores da PARP (poli [adenosina difosfato-ribose] polimerase). Os genes BRCA1 e BRCA2 participam do reparo de danos no material genético em células humanas, portando assim papel fundamental na manutenção da estabilidade genética celular. Os inibidores da PARP bloqueiam a reparação do DNA em tumores que possuem deficiência no reparo por recombinação homóloga, que acontece nos casos de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2.
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