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Contribuições do sono adequado para o corpo humano | Colunistas

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Danilo Moreira

10 min há 172 dias

O sono é um processo universal entre os seres vivos vertebrados superiores, sendo caracterizado por ser um estado facilmente reversível de responsividade reduzida ao ambiente.

É indiscutível que uma noite bem dormida se torna revitalizante para o indivíduo após um período de vigília prolongado e exaustivo. A sensação em questão reflete as diversas contribuições trazidas pelo sono para o funcionamento do organismo, as quais serão discutidas nesse artigo.

Para tanto, faz-se necessário compreender previamente os estados funcionais do sono e o seu ciclo.

Fisiologia do sono

Estados funcionais do sono

O sono pode ser dividido em duas fases distintas: sono REM (do inglês Rapid Eye Movement que significa Movimentos Rápidos dos Olhos) e sono NREM (não REM).

O sono REM recebe essa nomenclatura pois as partes do corpo encontram-se imobilizadas em virtude da atividade muscular motora reduzida, excetuando-se os músculos dos olhos que podem contribuir para a movimentação dos olhos durante essa fase. Esta fase corresponde em média à 25% do tempo total de sono. Outras características desse tipo de sono são:

  • Maior ocorrência de sonhos (os sonhos podem ser produzidos também no sono NREM, só que com menor frequência);
  • Predomínio da atividade simpática do sistema nervoso autônomo (SNA);
  • Redução da temperatura interna.

O sono NREM, por sua vez, é caracterizada por um sono mais profundo, com redução geral da tensão muscular e da atividade cerebral. A realização de movimentos é rara. Diferente do sono REM, a atividade do sistema nervoso autônomo nessa fase é predominantemente parassimpática. Esta fase corresponde em média à 75% do tempo total de sono e pode ser subdivido em 4 estágios:

  • Estágio 1 (sono de transição): nesse estágio que inicia o sono NREM, a atividade encefálica encontra-se diminuída com relação ao sono REM. Ademais, os olhos ainda podem realizar movimentos lentos de rotação neste estágio de sono NREM mais leve e que tem duração de poucos minutos. É possível acordar alguém facilmente durante essa fase.
  • Estágio 2: o sono é mais profundo comparado ao estágio anterior (observação se que repetirá para os estágios seguintes), com duração de 5 a 15 minutos. Aqui, os movimentos dos olhos quase cessam.
  • Estágio 3: neste, os movimentos dos olhos e do corpo estão usualmente ausentes (com algumas exceções).
  • Estágio 4: é o estágio do sono mais profundo, podendo persistir por 20 a 40 minutos.

O Ciclo do sono

Durante uma noite normal, ocorre uma alternância entre os sonos REM e NREM a cada 90 minutos, aproximadamente. Em média, cada ciclo REM é seguido por, pelo menos, 30 minutos de ciclo não-REM.

Habitualmente um adulto sonolento, ao adormecer, inicia com o 1º estágio de sono NREM, perpassando gradativamente pelos demais estágios.

Após o estágio 4, caracterizado por um sono mais profundo, o sono começar a se tornar mais leve novamente, ascendendo do estágio 3 para o estágio 2 durante 10 a 15 minutos. Em seguida, o sono entra, repentinamente, em um breve período de sono REM, dando continuidade ao ciclo do sono.

Conforme o decorrer da noite, a duração do sono NREM diminui e a do sono REM aumenta.

A duração do sono adequada muda de indivíduo para indivíduo, principalmente quanto à faixa etária.

Benefícios do sono

A privação prolongada do sono mostra efeitos negativos para o organismo, demonstrando que esse processo é vital para o ser humano, assim como para outros seres vivos que dormem. Abaixo, destacam-se alguns dos benefícios do sono constados.

Melhor desempenho durante atividades do dia a dia

Um indivíduo que dorme bem relata se sentir bem física e mentalmente, com disposição para realizar as atividades do cotidiano durante a vigília.

Em caso de privação do sono, é comum haver sonolência diurna, irritabilidade, cansaço e prejuízo cognitivo (incluindo dificuldades para se concentrar), situações que podem trazer consequências variadas, desde estresse acumulativo até maiores riscos de acidentes automobilísticos.

A principal fase do sono associada a essa sensação de melhor desempenho é o sono NREM, em especial os estágios mais profundos (3 e 4) e que proporcionam maior diminuição das atividades encefálica e muscular.

Memória e aprendizado

Há fortes evidências de que uma boa noite de sono promove a integração e consolidação de memórias após um longo período de aprendizado durante a vigília.

A explicação fisiológica para essa constatação considera que, durante o sono, ocorre maior síntese de proteínas que atuam sobre conexões neurais associadas ao processo de consolidação da memória.

Um estudo feito por Ziyi Peng e colaboradores (2020) associa à privação total do sono a dificuldades para consolidação de memórias de trabalho espacial – memórias temporárias que memorizam o local em que determinado objeto apareceu.

Os principais estudos realizados até então sugerem a maior importância do sono REM para esse papel. Contudo, as evidências atuais ainda são insuficientes para concluir essa ideia.

Produção de hormônios

O sono não atua especificamente na produção de hormônios, mas sim facilitando a produção.

Dentre esses hormônios, destaca-se o hormônio do crescimento (GH), que é secretado pela hipófise anterior e possui um pico de produção nas duas primeiras horas de sono profundo, ou seja, durante o sono NREM. O GH é de suma importância para o crescimento linear em crianças e adolescentes, o que se deve às contribuições ao corpo promovidas por este hormônio: crescimento dos tecidos do corpo e deposição de proteínas nos tecidos, entre outras funções. Essa constatação serve de base para recomendar que crianças e adolescentes durmam adequadamente.

Além desse, destaca-se também a melatonina, secretada pela glândula pineal e associada à indução do sono, visto que seus níveis aumentam aproximadamente no momento que um indivíduo fica sonolento. Seu pico é atingido nas primeiras horas do sono e sua concentração reduz para níveis basais quando o sono termina.

Outros hormônios cuja produção encontra-se aumentada durante o sono são: corticotropina, hormônio adrenocorticotrópico, leptina e cortisol.

Mudanças na qualidade do sono podem influenciar negativamente a produção e liberação desses hormônios.

Imunidade

O sono se mostra importante para a manutenção da imunidade, estando uma noite de sono adequada associada à otimização das respostas imunes.

Alguns achados científicos em paciente com privação de sono total e/ou parcial sustentam essa relação:

  • Diminuição da resposta imune gerada após a vacinação;
  • Maior vulnerabilidade a doenças infecciosas;
  • Menor atividade das células natural killer (NK);
  • Menor comprimento dos telômeros das células T;
  • Redução dos níveis de IgA;
  • Aumento dos níveis de marcadores inflamatórios na circulação.

Ainda não há consenso na literatura sobre a maior importância de uma das fases do sono para a homeostase do sistema imunológico.

Prevenção e controle de doenças

O sono adequado está intrinsicamente ligado à prevenção de doenças cardiovasculares, hipertensão, obesidade, diabetes, ansiedade e depressão.

A prevenção da obesidade está relacionada à produção de leptina durante o sono, um hormônio responsável pela sensação de saciedade, e ao aumento da grelina durante privação do sono, hormônio responsável pela sensação de fome. A associação desses dois efeitos culmina para maior vontade de comer em indivíduos com privação de sono em detrimento dos que dormem adequadamente.

Referente à prevenção de doenças cardiovasculares, infere-se que indivíduos privados de sono desregulam a homeostase de substâncias químicas e hormônios do corpo, podendo acarretar no desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Além disso, sabe-se que em níveis mais profundo do sono (sono NREM) os valores pressóricos encontram-se reduzidos, sugerindo também possível redução do risco de desenvolver hipertensão caso o indivíduo esteja dormindo adequadamente.

Quanto à diabetes, duas situações associadas ao sono justificam as maiores chances que uma pessoa tem de desenvolver a doença devido à privação do sono:

  • Indivíduos que possuem dificuldades para dormir podem apresentar aumento da resistência à insulina;
  • É durante o sono que os níveis glicêmicos do corpo são estabilizados.

Ademais, a privação do sono tem se associado aos grandes índices de ansiedade e depressão, situação associada à própria qualidade de vida reduzida em virtude de noites mal dormidas.

Conclusão

O sono é um processo fisiológico essencial para promover uma melhor qualidade de vida. É certo que os condicionamentos físico e mental durante à vigília refletem sobre a qualidade do sono, devendo cada pessoa respeitar sua necessidade diária.

Ter em mente os principais benefícios promovidos por uma boa noite de sono permite conscientizar as pessoas sobre a importância de dormir bem.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

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RODRIGUES, D. UNISUL HOJE. Sete benefícios do sono para a saúde. Disponível em:< https://hoje.unisul.br/sete-beneficios-do-sono-para-a-saude/>. Acesso em: 13 jan. 2021.

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SILVA, E.; ONO, B. H. V. S.; SOUZA, J. C. Sono e imunidade em tempos de COVID-19. Rev. Assoc. Med. Bras., São Paulo, v. 66, supl. 2, p. 143-147, 2020

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