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CoronaVac: o que você precisa saber sobre a vacina do Butantan | Colunistas

CoronaVac: o que você precisa saber sobre a vacina do Butantan | Colunistas

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Mateus Polo

10 min há 254 dias

Introdução: o que é a pandemia do coronavírus

O novo coronavírus, também conhecido como Covid-19, foi encontrado pela primeira vez em novembro de 2019 e até hoje já afetou mais de 90 milhões de pessoas em mais de 150 países ao redor do globo, causando mais de 2.000.000 mortes.

O coronavírus denominado Sars-CoV-2 é um tipo de retrovírus pseudo-tipado (não é um retrovírus verdadeiro) responsável pelas infecções respiratórias em eucariotos, especialmente em mamíferos e aves.  É zoonótico – seus primeiros hospedeiros são animais, no entanto, os sinais e sintomas da infecção são mais graves em humanos.

 A covid é a maior classe de vírus que causa resfriado, comum a problemas respiratórios, como MERS-CoV (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e SARS-CoV (Síndrome Respiratória Aguda Grave). Aqueles que adoeceram apresentam tosse, febre e dificuldades respiratórias e, em casos graves, pode haver falência de órgão e até a morte. Os medicamentos antivirais utilizados contra a gripe não funcionam, sendo feito apenas o uso de certos tipos de medicações no manejo dos sintomas.  

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou, no dia 11 de março de 2020, o surto do novo coronavírus como uma pandemia, uma vez que se espalhou por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa. Por apresentar um comportamento extremamente virulento e índice de mortalidade elevado, principalmente em populações idosas ou com alguma comorbidade, a busca por uma vacina desde o início atingiu escala global.

Um pouco sobre a imunologia do organismo

Imunologia do corpo humano

As vacinas previnem doenças que podem ser perigosas ou até mesmo mortais, reduzindo o risco de infecção ao trabalhar com as defesas naturais do corpo para desenvolver imunidade às doenças, com segurança.  

É útil, antes de entender como as vacinas funcionam, primeiro observar como o corpo combate as doenças.  O sistema imunológico usa de diversos artifícios no combate às infecções.  O sangue é permeado por células pertencentes ao sistema imunológico, responsáveis pela defesa do corpo, e essas células, conhecidas como brancas, consistem principalmente de macrófagos, linfócitos B e linfócitos T.

Os linfócitos T e B são células especializadas do sistema imune, que surgem após uma sensibilização prévia, ou seja, algum contato com o patógeno. Eles são responsáveis por garantir a imunidade humoral do organismo, destacando-se pela capacidade de neutralizar determinados antígenos, por meio da produção de anticorpos.

Os macrófagos podem ser definidos como células imunológicas especializadas que reconhecem, principalmente, as partículas estranhas e os restos celulares, para facilitar a fagocitose.  Eles se diferenciam dos monócitos.  Além da fagocitose, os macrófagos também desempenham um papel funcional na apresentação de partículas estranhas às células T e também realizam a ativação de outras células do sistema imunológico pela liberação de citocinas.

Imagem 1.  A linhagem celular na imunidade adquirida
Fonte:  http://drojha.files.wordpress.com/

Na primeira vez que o corpo tem contato com um agressor, levam vários dias para que o corpo seja sensibilizado e passe a produzir as células de defesa especializadas.  Após a infecção, o sistema imunológico se lembra do que aprendeu sobre como proteger o corpo contra essa doença.

O corpo mantém alguns linfócitos T, chamados células de memória, que entram em ação rapidamente se o corpo encontrar o mesmo germe novamente.  Quando os antígenos familiares são detectados, os linfócitos B produzem anticorpos para atacá-los. 

Vacina e imunização 

As vacinas ajudam a desenvolver imunidade, imitando uma infecção.  Esse tipo de infecção, entretanto, quase nunca causa doenças, mas faz com que o sistema imunológico produza linfócitos T e anticorpos.  Às vezes, depois de receber a vacina, a infecção simulada pode causar sintomas menores, como febre e dispneia.  Esses sintomas menores são normais, e devem ser esperados à medida que o corpo aumenta a imunidade.

Uma vez que a infecção simulada vai embora, o corpo fica com um suprimento de linfócitos T de “memória”, bem como linfócitos B, que se lembrarão de como lutar contra essa doença no futuro.  No entanto, normalmente leva algumas semanas para o corpo produzir linfócitos T e linfócitos B após a vacinação.  Portanto, é possível que uma pessoa infectada com uma doença imediatamente antes, ou logo após a vacinação, possa desenvolver sintomas e contrair a doença, porque a vacina não teve tempo suficiente para fornecer proteção.

A vacina do Butantan

O Instituto Butantan é um importante centro de pesquisa biológica localizado na zona oeste da cidade de São Paulo. Trata-se de uma instituição pública ligada à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, e é internacionalmente reconhecido por seu trabalho notável em saúde pública, estando desde o início da pandemia ligado à força-tarefa global atrás da vacina contra o COVID 19.   

Após meses de pesquisa, no dia 12 de janeiro de 2021 o Butantan anunciou oficialmente a CoronaVac, vacina contra o novo coronavírus. A vacina é desenvolvida pelo instituto em parceria com a farmacêutica chinesa SinoVac. Segundo dados divulgados, casos leves foram prevenidos em 50,38%. Isso significa que apenas 49,62% dos 12.508 voluntários recrutados para a terceira fase de testes, e infectados com o coronavírus, tiveram que procurar atendimento ambulatorial por conta de algum sintoma.

A CoronaVac promove a reação de sensibilização no organismo por meio de um mecanismo de inativação do vírus. Muitas vacinas usadas regularmente, como é o caso da vacina contra a poliomielite, são vacinas vivas inativas.  Essas vacinas contêm uma versão inoperante em laboratório do vírus original, de modo a não provocar as reações adversas do patógeno original, mas ainda assim estimular a produção de células T.  

Nas vacinas inoperantes, os vírus não podem se replicar e quase sempre necessitam de doses repetidas para que a imunidade seja alcançada.  A primeira dose é aquela que prepara o sistema imunológico para responder, mas uma resposta imunológica protetora não se desenvolve até as doses subsequentes.

Para fazer uma vacina inativada, o vírus deve ser cultivado em meios de cultura.  Esse é um dos motivos que determina o tempo para o desenvolvimento de uma vacina, posto que é necessário entender quais condições estimulam o crescimento viral. A inativação do vírus é feita com calor, e, ocasionalmente, com produtos químicos, como a formalina.  Quando a vacina em produção é fracionária, ou seja, à base de proteína ou polissacarídeo, a vacina passa por uma purificação adicional para que apenas as subunidades de interesse permaneçam.

Imagem 3. Comparação entre as vacinas por vírus inativado e vírus atenuado
Fonte: https://www.liberdadepb.com.br/vacina-da-chinesa-sinopharm-sera-testada-em-3-mil-voluntarios-na-argentina/

Comparação com a vacina da Pfizer

Diferente da vacina brasileira, que apresenta um mecanismo de ação utilizado há décadas pela indústria farmacêutica, a empresa americana Pfizer produziu no ano de 2020 uma vacina inovadora e que abre precedentes para uma revolução na produção de imunizantes, a vacinação por RNA.

As vacinas de mRNA COVID-19 fornecem instruções para que as células façam um pedaço inofensivo do que é chamado de “proteína spike”.  A proteína spike é encontrada na superfície do causador COVID-19.

 As vacinas de mRNA COVID-19 são administradas no músculo deltoide, e, uma vez que as instruções (mRNA) estão dentro das células do sistema imunológico, as células as usam para fazer o pedaço de proteína. Tendo sido produzida a proteína do vírus, a célula decompõe o segmento de RNA remanescente e se livra delas.

Imagem 4. Vacina por RNA mensageiro Fonte:http://cienciaviva.org.br/index.php/2021/01/01/corridavacinascov2/

Em seguida, a célula exibe o pedaço de proteína em sua superfície. O sistema imunológico reconhece que a proteína não pertence a essa superfície e começa a construir uma resposta imunológica e a produzir anticorpos, como o que acontece na infecção natural contra o COVID-19.

Após o término desse processo, o organismo passa a estar imunizado contra o vírus, sem necessariamente ter contato com nenhuma cepa do vírus, algo que diminui a possibilidade de qualquer tipo de efeito colateral.

Conclusão

Em 2020, a sociedade humana esteve  imersa em uma realidade que, até pouco tempo atrás, parecia extremamente improvável. A pandemia do novo Coronavŕus causou milhões de óbitos, forçando a civilização humana a se unir em busca de um bem comum e sem precedentes: a vacina.

A vacina criada pelo Instituto de pesquisa Butantan ainda está em estágios de teste* e verificação, mas constitui uma arma valiosa no combate ao Sars-Cov-2. Ao sensibilizar o sistema imunológico, parte essencial para a sobrevivência do ser humano, a CoronaVac, basicamente, educa o organismo a produzir anticorpos, que o tornam resistente à infecções futuras. 

Além dessa, outras vacinas, como é o caso da americana Pfizer, também são capazes de promover a imunização do organismo por meio de mecanismos que, até então, eram desconhecidos pela indústria farmacêutica. Essas descobertas constituem uma verdadeira revolução na forma como lidamos com a doenças, e trarão benefícios que, a longo prazo, serão inestimáveis para a vida humana.

*Este texto foi escrito antes das vacinas CoronaVac e AstraZeneca serem aprovadas pela ANVISA.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências Bibliográficas

Eficácia geral da CoronaVac é de 50,38%, diz Butantan – https://olhardigital.com.br/2021/01/12/coronavirus/eficacia-geral-da-coronavac-e-de-5038-diz-butantan/

CORONAVAC: BUTANTAN ANUNCIA QUE EFICÁCIA GERAL DA VACINA CONTRA COVID-19 É DE 50,38% – https://epoca.globo.com/mundo/coronavac-butantan-anuncia-que-eficacia-geral-da-vacina-contra-covid-19-de-5038-24834726

Coronavac tem eficácia de 78% contra a Covid-19 em estudo no Brasil – https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/coronavac-tem-eficacia-de-78-contra-a-covid-19-em-estudo-no-brasil.shtml

Instituto Butantan – http://butantan.gov.br/

Vacina da Pfizer: como funciona a nova tecnologia que pode revolucionar a imunização – https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/11/10/vacina-da-pfizer-como-funciona-a-nova-tecnologia-que-pode-revolucionar-a-imunizacao.htm

Corrida pelas vacinas contra o SARS-CoV-2 –  http://cienciaviva.org.br/index.php/2021/01/01/corridavacinascov2/ 

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