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Coronavírus e Telemedicina: ferramenta para hoje e para o pós-pandemia | Colunistas

Coronavírus e Telemedicina: ferramenta para hoje e para o pós-pandemia | Colunistas

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Leonardo Cardoso

8 min há 446 dias

No final de 2019, o mundo acompanhou o surgimento de um novo vírus. Com a verificação de casos em Wuhan (China), inicialmente, entramos em 2020 e passamos a acompanhar a disseminação desses casos pelo restante do mundo. Era o novo coronavírus batizado tecnicamente de Sars-Cov-2. Algumas semanas mais tarde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que se tratava de uma pandemia. Estávamos diante de um desafio que mexeria com todos os aspectos de nossas vidas e nos faria repensar as diversas atividades de nosso cotidiano no âmbito do que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer.

Aqui no Brasil, desde que os primeiros casos começaram a surgir, iniciativas foram tomadas visando a prevenção e o combate ao novo coronavírus. Campanhas de conscientização sobre a importância do uso de máscaras, da correta higienização das mãos e da necessidade de praticar o distanciamento (em alguns momentos, o isolamento) social ganharam os diversos tipos de mídias e a atenção popular. Algumas atividades presenciais foram suspensas, aulas ganharam o ambiente online, reuniões de trabalho passaram a ser feitas de casa.

E se, por um lado, atuávamos com essas medidas na prevenção ao contágio pelo novo coronavírus (que possui alta taxa de transmissibilidade), por outro foi travada uma batalha em seu combate de forma direta no campo da saúde. Para isso, além dos profissionais de saúde, que atuaram (e continuam atuando) na linha de frente, lançou-se mão de algumas estratégias de atendimento à população. Uma delas foi a criação de centrais de informações com foco na resolução de dúvidas da população sobre a nova doença e seus principais sintomas, além da correta orientação sobre quando procurar o serviço médico.

Outra estratégia foi a autorização para que profissionais de saúde passassem a atender a distância pacientes cujos casos permitissem essa forma de acompanhamento. Essas duas estratégias mencionadas anteriormente, por exemplo, foram possíveis graças à telemedicina.

Bueno et al. (2020) trazem que a telemedicina é a troca de informações referentes à saúde entre diferentes locais através das tecnologias de informação e comunicação, funcionando, dessa forma, como alternativa no cuidado à saúde em regiões com baixo acesso a serviços de atenção à saúde. Schmitz et al. (2017) informam que ela pode ser entendida como o uso de tecnologias para serviços de saúde à distância, através da qual é possível conexão entre paciente e profissional ou entre diferentes profissionais, cujo objetivo é a educação em saúde, prevenção, diagnóstico precoce de doenças e a intervenção em tempo hábil. Como vantagens, é possível citar a redução dos custos com atendimentos presenciais, além da facilitação do acesso e comunicação entre populações que estão geograficamente afastadas dos serviços de saúde e profissionais de saúde (CAMPOS E FERRARI, 2012).

Sendo uma forma de assistência em crescimento em todo o mundo, a telemedicina, como comentamos anteriormente, é importante por conceder serviços de saúde de forma remota. Seu primeiro uso nos leva a 1906, quando o holandês Einthoven realizou uma consulta eletrocardiográfica pelo telefone. Décadas mais tarde, nos anos 1950, foram realizadas as primeiras experiências significativas, como transmissões de monitoramento eletrocardiográfico e eletroencefalográfico entre centros de serviços de saúde especializados nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e países escandinavos. No Brasil, iniciamos nossas experiências nesse campo na década de 1990, quando laudos de eletrocardiogramas começaram a ser realizados a distância.

Mas foi apenas no ano de 2005 que a telemedicina foi instituída aqui, de fato, através do Programa Institutos do Milênio (FILHO E ZAGANELLI, 2020), com a posterior criação de comissões permanentes e comitês executivos para sua discussão, aprimoramento e colocação em prática. Essas discussões duraram anos, resultando em 2018 na Resolução nº 2.227 do Conselho Federal de Medicina (CFM) que teve como objetivo uma democratização da saúde e alinhamento com as tendências internacionais acerca da telemedicina. Tal ação, entretanto, gerou enorme impacto entre os profissionais de saúde (especialmente médicos), com a consequente pontuação de vários itens que precisariam ser alterados na resolução. O barulho foi tão grande que a norma foi revogada.

Contudo, com a chegada da pandemia em solo brasileiro, foi preciso buscar formas de combater a nova doença, deixando a telemedicina, a partir desse momento, de ser uma ação reservada para utilização como serviço primordial no período em que vivemos.

Nesse momento, entrou em vigor a Portaria 467/2020 que regulamentou e operacionalizou as ações da telemedicina, sendo, algumas semanas depois, aprovada a Lei nº 13.989/2020, a qual permite o exercício da telemedicina durante a pandemia de Covid-19, com o objetivo principal de atender os pacientes a distância, desafogando, assim, hospitais e centros que prestam assistência à saúde, utilizando para tanto serviços tecnológicos como as videoconsultas.

Tal medida contribui muito para, por exemplo, o acompanhamento daqueles pacientes que necessitam de cuidado contínuo, mas que podem receber esse a distância, possibilitando a prática do isolamento social (uma das medidas mais eficazes no combate à doença), protegendo, assim, paciente e profissional de saúde.

Mais do que uma forma de atuação contra o coronavírus, a prática da telemedicina se faz necessária uma vez que, segundo o The Guardian apud Filho e Zaganelli (2020), até um quinto dos pacientes portadores do novo coronavírus na Inglaterra teria entrado em contato com o vírus com a consequente aquisição desse durante a pandemia quando já estavam recebendo tratamento por outra doença.

Além disso, outro ponto importante de observação é sobre os profissionais de saúde que acabam se infectando enquanto estão na linha de atuação nos serviços de saúde, o que nos leva a pensar que caso todos os profissionais estivessem em campo correríamos o risco de chegar a um momento onde não houvesse mão de obra disponível para o atendimento da população que necessita do atendimento presencial de suas queixas, o que demonstra a necessidade de zelarmos pela integridade física de profissionais e pacientes, além de buscar meios de reduzir a propagação do novo coronavírus.

Através do uso da telemedicina tem sido possível manter em prática os atributos essenciais da Atenção Primária à Saúde (APS), como a longitudinalidade e coordenação do cuidado, permitindo que o paciente tenha acesso ao serviço de saúde e possa ter suas demandas resolvidas. Além disso, a telemedicina tem contribuído na formação de estudantes da área da saúde que têm atuado como voluntários ou bolsistas em centrais de informações montadas pelas Secretarias Estaduais e Municipais.

Essas secretarias têm como objetivo a divulgação de informações corretas, pautadas sempre na ciência, retirada de dúvidas da população e triagem inicial de pacientes sintomáticos, com posterior estratificação dos casos e análise médica sobre a necessidade de busca presencial de um serviço de saúde ou monitoramento a distância por parte dos serviços montados sob o foco da telemedicina. Isso possibilita, como já mencionado nesse artigo, um acompanhamento contínuo desse paciente, além de uma economia de recursos que podem ser direcionados a outras frentes de trabalhos, como aquisição de equipamentos de proteção individual (EPI), medicamentos, insumos de limpeza e contratação de mão de obra em caráter emergencial.

A telemedicina, depois de muita discussão ao longo de anos, tem se mostrado essencial aos serviços de saúde e à promoção e prevenção em saúde, sendo uma prática que não terminará quando esse período pelo qual passamos cessar, mas permanecerá como mais uma forma de se fazer saúde. Prova disso é que no dia 20 de agosto de 2020 foi promulgado no Diário Oficial da União (DOU), um complemento à Lei 13.989/2020, o qual permite que o CFM regulamente a prática da telemedicina após o período de crise causada pelo novo coronavírus.

Num momento em que novas tecnologias surgem a cada dia e que promover o acesso a serviços de saúde se mostra cada vez mais importante e necessário, é preciso que profissionais e futuros profissionais estejam familiarizados com as novas tecnologias e dispostos a utilizá-las em seus atendimentos. Sabemos que nossa escolha pela área da saúde em parte foi motivada pela chance de estarmos próximos a nossos pacientes, olhando em seus olhos, ouvindo sua voz de perto, tocando-os e abraçando-os quando necessário. Essa é, a propósito, uma das coisas que mais sinto falta nesse momento: estar do lado das pessoas que me permitem cuidar delas. Madre Teresa de Calcutá disse, em certa ocasião, que “não podemos fazer grandes coisas no mundo; o que podemos fazer são pequenas coisas com amor”. No entanto, isso não significa que precisemos abrir mão de uma ferramenta tecnológica tão importante.

Usemos, então, essa ferramenta importante que é a telemedicina, sem, no entanto, nos esquecermos que somos seres humanos cuidando de outros seres humanos. Olhemos nos olhos de nossos pacientes através da tela. Disponibilizemos nossos ouvidos para escutá-los através dos fones. Toquemos eles com nosso sorriso. E, lembrando dos motivos que nos fizeram escolher essa área um dia, de como os olhos de muitos de nós brilham ao final de um atendimento e buscando praticar uma saúde mais justa, humana e social, permitamos que as histórias de nossos pacientes, mesmo que contadas a distância, nos toquem. Em nosso coração. Em nossa alma. Em nosso ser.

Autor: Leonardo Cardoso

Instagram: @notfakeleonardo

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