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Covid-19 e o uso racional dos exames de imagem | Colunistas

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Rafael Vidal

5 minhá 389 dias

Existe uma máxima na medicina de que “a clínica é soberana” e, de fato, uma análise semiológica realizada de maneira adequada é perfeitamente suficiente em grande parte dos atendimentos médicos. Mesmo assim, não se pode menosprezar a importância dos métodos auxiliares, como os exames de imagem, por exemplo, que são complementares e indispensáveis na construção diagnóstica, bem como na classificação e/ou estadificação de uma possível lesão.

A maioria dos métodos de imagem utiliza radiação ionizante, cuja natureza oferece ao indivíduo exposto o risco de efeitos biológicos e, mesmo que alguns aleguem o emprego de baixos níveis energéticos, os efeitos estocásticos não podem ser ignorados, pois são aqueles que não possuem um limiar de dose para que se manifestem. Olhando por esse lado, vale destacar o princípio básico de JUSTIFICAÇÃO da portaria 453 de 1998 da Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA), que regula o uso dos raios-x diagnósticos no Brasil, na qual estabelece que nenhuma prática ou fonte adscrita à uma prática deve ser autorizada, a menos que “produza suficiente benefício para o indivíduo exposto ou para a sociedade, de modo a compensar o detrimento que possa ser causado”.¹

No caso do Covid-19, o Ministério da Saúde (MS) estabelece por meio do Protocolo de Manejo Clínico para o Novo Coronavírus 2019-nCoV que o diagnóstico depende da investigação clínico-epidemiológica e do exame físico, confirmado mediante exame de laboratório para identificação do vírus por meio das técnicas de RT-PCR em tempo real e sequenciamento parcial ou total do genoma viral². Entretanto o agente etiológico em questão faz parte de uma família de vírus altamente patogênicos, sobretudo com acometimento do trato respiratório superior e eventualmente inferior, tendo um espectro clínico muito amplo, podendo variar desde um simples resfriado até uma pneumonia severa, sendo a Síndrome Respiratória Aguda Grave – SRAG a complicação mais comum em 17-29% dos casos. E é aí que entra a importância dos exames de imagem, principalmente a radiografia e a tomografia computadorizada (TC), que cumprem importante papel na detecção da extensão da lesão a nível pulmonar dos pacientes enfermos. Os principais achados na imagem são inespecíficos, semelhantes a outras infecções virais que afetam o sistema respiratório, apresentando-se como:

  • Radiografia simples de tórax: opacidades de espaço aéreo multifocais de modo similar a outras infecções por coronavírus, sendo seus achados tardios em comparação com a TC;
  • Tomografia computadorizada de tórax: opacidades com atenuação em vidro-fosco periféricas, focais ou multifocais, e bilaterais em 50-75% dos casos. Entre 9 e 13 dias a doença progride e aparecem lesões com padrão de pavimentação em mosaico e consolidações. O desaparecimento das lesões é lento com duração de 1 mês ou mais. Em pacientes pediátricos o achado de consolidação circundada por atenuação em vidro fosco (sinal do halo) parece ser mais comum do que em adultos.

O Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por imagem (CBR), em sua cartilha de recomendações de uso dos métodos de imagem para pacientes suspeitos de infecção pelo Covid-19, segue a mesma linha de entendimento do ministério da saúde, destacando que a TC, por exemplo, NÃO deve ser usada como rastreio ou para o diagnóstico inicial por imagem nos casos de Covid-19, cujo uso deve ser reservado aos pacientes hospitalizados, sintomáticos e em situações clínicas específicas³. Apontam ainda que por se tratar de uma doença altamente contagiosa, após a realização do estudo a sala de exames deverá passar por um processo adequado de desinfecção, o que levaria algo em torno de 30 minutos, restringindo a capacidade de realização dos exames, tendo, portanto, a necessidade de que haja uma indicação bem definida na solicitação dos exames de imagem nos casos de Covid-19. Por esse motivo recomenda-se que, quando indicado a radiografia de tórax, em casos suspeitos/confirmados, de pacientes internados, devemos privilegiar o uso de radiografia portátil, pois as superfícies dessas máquinas podem ser mais facilmente higienizadas e, ainda, evita-se a necessidade de levar os pacientes para o setor de imagem.

Em resumo, os exames de imagem representam uma importante ferramenta nos casos de Covid-19, pois mesmo não sendo considerado parâmetro para diagnóstico e seus achados serem inespecíficos, semelhante a outras infecções virais, sua realização confere ao médico a possibilidade de avaliar de maneira mais precisa o acometimento das vias respiratórias, bem como a real condição do paciente. Por outro lado, devem ser solicitados de maneira criteriosa a pacientes hospitalizados, sintomáticos e em situações clínicas específicas, pois estes devem ser mantidos em condição de isolamento e sua ida ao setor de imagem favorece a transmissão do vírus, além de restringir o uso da sala de exames durante o processo de desinfecção da mesma.

Confira o vídeo:

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