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Covid – 19: sequelas neurológicas |Colunistas

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George Guimarães Filho

6 min há 15 dias

INTRODUÇÃO

A COVID-19 trata-se de uma doença causada pelo novo corona vírus (SARS-CoV-2) e tornou-se uma ameaça de grande impacto (tanto no âmbito socioeconômico, como na saúde pública) ao causar uma pandemia com mais de 182 milhões de casos confirmados e quase 04 milhões de mortes confirmadas em todo o mundo; estando presente em mais de 190 países, conforme declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 30 de junho de 2021. O novo SARS-CoV-2 possui capacidade de infectar diferentes células do corpo humano, dentre elas, as células neurológicas.

As alterações neurofisiológicas causadas pela COVID-19 se dividem em dois grupos, as que afetam o sistema nervoso central (SNC), e as que afetam o sistema nervoso periférico (SNP). Quando falamos em SNC, podemos citar: cefaleia, tontura, epilepsia e ataxia. Já no SNP, incluem: hiposmia, anosmia, neuralgia e disgeusia. A hiposmia é a manifestação mais prevalente do SNP.

MECANISMO DE AÇÃO NO SISTEMA NERVOSO

O exato mecanismo que o Sars-cov-2 afeta o sistema nervoso, gerando sequelas neurológicas, ainda é uma grande incógnita, acredita-se que o mesmo possui capacidade de neuroinvasão, assim como os outros tipos de corona vírus. Sendo assim, ocorreria tanto por via hematogênica, quanto neural retrógrada. Vale salientar que a interação do vírus à enzima conversora de angiotensina 2 (ECA2) facilita sua entrada nas células hospedeiras, e, com isso, tem controle da máquina celular de replicação. Além da ECA2, a COVID-19 pode desencadear dano ao sistema nervoso, através de lesão direta, hipóxia e resposta imune exacerbada.

LESÃO DIRETA

A lesão por infecção direta é definida pelo fato do material genético de vários vírus e proteínas virais se encontrarem no líquido cefalorraquidiano e cérebro. Evidências sugerem que alguns vírus alcançam o SNC pela via hematogênica, através das células endoteliais e leucócitos; enquanto na via neuronal, o vírus utiliza de proteínas motoras, como a dineína e a cinesina, para migrar das terminações sensoriais e motoras até o SNC. A neuropatia olfativa, caracterizada pela anosmia e hiposmia está cada vez mais prevalente nos indivíduos infectados pela síndrome da COVID-19, além das semelhanças estruturais e genômicas com Sars-Cov, cujo neurotropismo está bem descrito, também corroboram que este vírus poderia alcançar o SNC pela via olfatória.

HIPÓXIA

A reação inflamatória alveolar difusa desencadeada pela infecção pelo COVID-19 é responsável por distúrbio de trocas gasosas, que consequentemente causará hipóxia no SNC. Tanto a hipóxia, quanto o metabolismo anaeróbio celular são responsáveis por causar danos no tecido cerebral, que se manifestam desde sonolência a doenças cerebrovasculares agudas.

RESPOSTA IMUNE EXACERBADA

 Os danos ao sistema nervoso também podem ser gerados através de lesão mediada pelo sistema imunológico. Os anticorpos produzidos contra as “proteínas spike” da superfície do Covid-19, além de combater este patógeno, também reagem contra às células endoteliais dos vasos cerebrais, causando citotoxicidade. Com isso, evidências sugerem que esta infecção progride com a hiperativação de fatores inflamatórios, causando a chamada “tempestade de citocinas”, bem como trombocitopenia e elevação do D dímero. A coagulopatia, somada a tempestade de citocinas, pode progredir com eventos tanto trombóticos quanto hemorrágicos no SNC.

 Além disso, a capacidade deste vírus de se alojar em macrófagos, astrócitos e microglias, pode induzir a um estado pró inflamatório, sustentado principalmente pela Interleucina-6 e TNF α. Assim, a ativação da cascata imunológica no SNC causa inflamação crônica e, consequentemente, deterioração dos tecidos neurais.

CONCLUSÃO

As manifestações neurológicas associadas à infecção pelo SARS-CoV-2 têm sido cada vez mais recorrentes, descritas e investigadas, e podem abranger um espectro variado, desde sintomas leves, como anosmia e ageusia, às alterações graves, como encefalite e AVE. Sendo que, os mecanismos associados ao dano do SARS-CoV-2 ao SNC incluem lesão por infecção direta, e lesões mediadas pela resposta inflamatória e imunológica, sendo possível que estas atuem de forma sinérgica. A identificação de material genético do vírus em líquido cefalorraquidiano e cérebro presumem a possibilidade de lesão direta, com disseminação através da via olfatória, hematogênica ou endotelial. Estudos prospectivos são fundamentais para avaliação de possíveis sequelas neurológicas causadas pelo SARS-CoV-2 a médio e longo prazo, bem como, para compreensão mais detalhada acerca dos mecanismos subjacentes ao acometimento neuronal, de modo a permitir melhor avaliação das consequências potencialmente patológicas e favorecer estratégias de diagnóstico e intervenção precoce. Ademais, pacientes diagnosticados com COVID-19 devem ser precocemente avaliados clinicamente quanto às alterações neurológicas, especialmente naqueles internados e com manifestações graves.

Autor: George de Guimarães Filho

Instagram: https://www.instagram.com/george_guimaraes/

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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REFERÊNCIAS:

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ASADI-POOYA, Ali A.; SIMANI, Leila. Central nervous system manifestations of COVID-19: a systematic review. Journal Of The Neurological Sciences, [s.l.], v. 413, jun. 2020.  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32299017/

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HASÖKSÜZ M, KILIÇ S, SARAÇ F. Coronaviruses and SARS‐COV‐2. Turk J Med Sci. 2020;50:549‐556. 10.3906/sag-2004-127.  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32293832/

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