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COVID-19: terapias com anticorpos | Colunistas

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Mirian Guimarães

7 minhá 60 dias

Introdução

Na batalha contra o novo coronavírus (SARS-CoV-2), existem mais de 70 estudos de terapias com anticorpos pelo mundo, em diferentes estágios de desenvolvimento. Enquanto métodos de imunização ativa, assim como as vacinas, requerem maior tempo de desenvolvimento e testagem clínica, a imunização passiva, que se processa através da transferência de anticorpos contra um organismo, pode ser uma arma durante a urgência da pandemia de COVID-19. Diante disso, com as evidências já obtidas pelos estudos clínicos em humanos, essa técnica funciona de forma mais eficaz, em casos leves e moderados da doença. É o que relata as pesquisas publicadas recentemente por duas indústrias farmacêuticas, a Eli Lilly e a Regeneron.

Estudo com anticorpos monoclonais (LY-CoV555)

Diante dos resultados obtidos pela companhia farmacêutica Eli Lilly, em pacientes hospitalizados em estágio mais avançado da doença, o ensaio de sua terapia com anticorpos chegou a ser interrompido, devido a sua falta de eficácia. A companhia chegou a emitir uma nota, onde afirma que “pacientes hospitalizados podem ter menos benefícios com anticorpos neutralizantes, que são um complemento do próprio sistema imunológico dos pacientes, pois eles podem ter desenvolvido sua própria resposta de anticorpos endógenos e estar em uma fase da doença caracterizada por respostas inflamatórias ao vírus. É por isso que o uso de tratamentos imunossupressores é amplamente difundido e ainda está sendo investigado em pacientes hospitalizados.” (ELI LILLY AND COMPANY, 2020.)

No entanto, novos resultados foram publicados na quarta-feira (28) pela companhia, onde examinaram a eficácia da terapia do anticorpo neutralizante LY-CoV555 no tratamento de COVID-19 em pacientes com sintomas leves ou moderados. (GOTTLIEB et al., 2020)

Metodologia do estudo com LY-CoV555

Neste estudo de fase 2 em andamento, envolvendo pacientes ambulatoriais com COVID-19 e apresentando sintomas leves ou moderados, foram distribuídos aleatoriamente 452 pacientes para receber uma única infusão intravenosa do anticorpo neutralizante LY-CoV555 em uma das três doses (700mg, 2800mg ou 7000mg) ou placebo e avaliaram os desfechos virológicos quantitativos e os desfechos clínicos.

Resultados do estudo com LY-CoV555

Os resultados revelaram que a porcentagem de pacientes que necessitaram ser hospitalizados devido à evolução dos sintomas do novo coronavírus foi de 1,6% (5 de 309 pacientes) no grupo LY-CoV555 e 6,3% (9 de 143 pacientes) no grupo placebo. E também foi visto que houve uma maior melhora dos sintomas no grupo LY-CoV555 do que no grupo placebo. Não foi relatado nenhum evento adverso grave no grupo LY-CoV555, mas, no grupo placebo, um paciente apresentou evento adverso.

Sobre a LY-CoV555

O SARS-CoV-2 ganha entrada nas células através da ligação de sua proteína spike aos receptores da enzima conversora de angiotensina 2 nas células-alvo. O LY-CoV555 (também conhecido como LY3819253), um potente anticorpo monoclonal anti-pico neutralizante que se liga com alta afinidade ao domínio de ligação ao receptor de SARS-CoV-2, foi derivado de plasma convalescente obtido de um paciente com COVID-19. O anticorpo foi desenvolvido pela Eli Lilly após sua descoberta por pesquisadores da AbCellera e do Centro de Pesquisa de Vacinas do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas. A descoberta de LY-CoV555 e sua proteção passiva contra o SARS-CoV-2 em primatas não humanos foi relatada anteriormente.

Estudo com anticorpos monoclonais (REGN-COV2)

A biofarmacêutica Regeneron também divulgou um artigo onde relata que obteve bons resultados do tratamento com coquetel de anticorpos monoclonais REGN-COV2 em pacientes com sintomas leves ou moderados, reduzindo significativamente a carga viral e a necessidade de internamento.

“O primeiro trabalho de um medicamento terapêutico antiviral é reduzir a carga viral, e nossos dados iniciais em 275 pacientes sugeriram fortemente que o coquetel de anticorpos REGN-COV2 poderia reduzir a carga viral e, assim, melhorar potencialmente os resultados clínicos. A análise de hoje, envolvendo mais de 500 pacientes adicionais, confirma prospectivamente que o REGN-COV2 pode realmente reduzir significativamente a carga viral e mostra ainda que essas reduções virais estão associadas a uma diminuição significativa na necessidade de mais atenção médica “, disse George D. Yancopoulos, MD, Ph.D., Presidente e Diretor Científico da Regeneron. (PHARMACEUTICALS, 2020.)

Métodos do estudo com REGN-COV2

É um estudo randomizado duplo-cego, que mede o efeito da adição de REGN-COV2 ao tratamento padrão usual, em comparação com a adição de placebo ao tratamento padrão. Uma análise descritiva dos primeiros 275 pacientes foi relatada anteriormente. Os dados recentes, envolvendo 524 pacientes adicionais, mostram que o ensaio atendeu a todos os primeiros nove desfechos na hierarquia estatística, que avaliou os desfechos virológicos com base na carga viral, status soronegativo e grupo de dose, bem como o desfecho clínico através visitas médicas à pacientes que tiveram a COVID-19 confirmada por laboratório no início do estudo.

Resultados do estudo com REGN-COV2

Como analisado no estudo anterior, os pacientes com carga viral mais alta no início do estudo e/ou sem anticorpos detectáveis ​​no início do estudo (sugerindo que seus corpos ainda não haviam montado uma resposta imune eficaz), obtiveram maior benefício da terapia REGN-COV2. O tratamento com o REGN-COV2 reduziu as visitas médicas relacionadas à COVID-19 em 72% em pacientes com um ou mais fatores de risco. Não houve análise estatística formal planejada de alívio dos sintomas nesta análise; o REGN-COV2 foi bem tolerado no ensaio. Os eventos adversos graves foram numericamente mais frequentes com o tratamento com placebo do que com REGN-COV2.

Sobre REGN-COV2

O REGN-COV2 é uma combinação de dois anticorpos monoclonais (REGN10933 e REGN10987) e foi projetado especificamente para bloquear a infecciosidade do SARS-CoV-2.

Para desenvolvê-lo, os cientistas da Regeneron avaliaram milhares de anticorpos totalmente humanos produzidos pelos camundongos VelocImmune® da empresa, que foram geneticamente modificados para ter um sistema imunológico humano, bem como anticorpos identificados de humanos que se recuperaram da COVID-19. Os dois potentes anticorpos neutralizantes de vírus que formam o REGN-COV2 se ligam de forma não competitiva ao domínio crítico de ligação ao receptor da proteína spike do vírus, o que diminui a capacidade dos vírus mutantes de escapar do tratamento e protege contra variantes de spike que surgiram no ser humano.

Conclusão

Os dois estudos publicados pelas companhias farmacêuticas obtiveram resultados promissores com o uso de anticorpos monoclonais para o tratamento contra o Sars-CoV-2, em pacientes com casos leves e moderados. Demonstrando também que houve uma redução nas visitas médicas relacionadas à COVID-19.

Se esses resultados forem confirmados em análises adicionais neste estudo, o LY-CoV555 e o REGN-COV2 podem se tornar um tratamento útil para uso de emergência em pacientes com sintomas leves ou moderados de COVID-19.

Conclui-se, então, que o processo de desenvolvimento científico é desafiador e imprevisível. É preciso colaboração e compromisso de cientistas, pesquisadores, pacientes e empresas de toda a indústria biofarmacêutica para descobrir e desenvolver tratamentos para doenças emergenciais. 

Autora: Mirian Guimarães de Freitas, estudante de Medicina

Instagram: @mirianng_

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