Ciclo ClínicoMedicina Preventiva

Cuidados paliativos: panorama e cenário na medicina atual | Colunistas

A organização mundial da saúde (OMS), desde 2002, traz como definição de cuidados paliativos (CP) o seguinte: é a assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhora da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma enfermidade que ameace vida, por meio do alívio do sofrimento, da identificação precoce e tratamento da dor e demais sinais físicos.

Desde então, 17 anos se passaram e o cuidado paliativo ainda não é uma realidade para a maioria dos pacientes brasileiros. Para se ter uma ideia, o Brasil não tem uma única política pública que estruture e organize o desenvolvimento de instituições especializadas no Cuidado Paliativo. A última atualização sobre o tema, publicada no Diário Oficial da União, trata-se de uma resolução de 31 de outubro de 2018, a qual não esclarece sobre a estruturação desse tipo de serviço ou como ele deveria funcionar, em outras palavras, há uma gigantesca carência de regulamentações específicas acerca do tema. 

 Essa situação torna-se mais concreta ao analisar o Atlas Global de Cuidado Paliativo, publicado pela OMS em 2014, em que, na ocasião, o Brasil ocupava a classificação 3A, que qualifica países cujo acesso ao CP não é disseminado e que apresentam um número restrito locais especializados. Ademais, de acordo com levantamentos realizados pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), até agosto de 2018, o país contava com 177 serviços especializados em CP, dos quais 72% encontram-se concentrados nas regiões Sul e Sudeste.1

Outra circunstância que contribui para o lento avanço das práticas de cuidado paliativo (CP) é o desconhecimento dos profissionais da área da saúde acerca da temática. Um estudo publicado em 2019 analisou o conhecimento de internos de medicina e médicos residentes de um Hospital Universitário em uma capital do Nordeste e constatou que 75% dos médicos residentes afirmaram que não tiveram uma formação adequada sobre o CP, além disso, apenas 7% da amostra apresentou uma avaliação excelente, marcando corretamente mais de 80% das questões propostas nos questionários.2 Outras pesquisas revelam que este desconhecimento não está restrito à medicina, atingindo, também, profissionais da enfermagem, por exemplo.3

Cabem, então, as indagações: por que durante a formação médica a morte ainda é negligenciada? Como modificar essa situação e tornar o cuidado paliativo uma constante nos sistema de saúde brasileiro?

É de conhecimento comum que, desde o início da formação médica, existe a construção de um ideal de invencibilidade, que propõe que o único desfecho adequado e favorável é a cura e a preservação da vida. Parte dessa visão decorre da formação ainda muito biologicista e hospitalocêntrica, que negligencia os aspectos psíquicos e emocionais envolvidos no processo de morte.
             Raquel Duarte Moritz, em uma das suas publicações para a Revista Bioética publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), relata que, entre os profissionais da área médica, a morte e o morrer estão ainda muito associados à sensação de fracasso ou erro. Além disso, Moritz ainda discorre que os estudantes, tanto de medicina quanto de enfermagem, são:

[…] treinados para o tratamento técnico do moribundo, mas não para acompanhá-lo do ponto de vista psicológico; que o hospital é a instituição marcada pela luta constante entre a vida e a morte; que o profissional da saúde está preparado para a cura e, frequentemente, sente-se angustiado pela morte dos pacientes sob seus cuidados.4

Nota-se que o desconhecimento acerca do tema é um grande fator limitante.

            Um assunto de tamanha importância não deve ser negligenciado, visto que o cuidado paliativo é um dos pilares para uma atenção holística e humanizada aos pacientes. Dessa forma, para integrar o CP à rotina do atual sistema de saúde brasileiro, faz-se necessária a elaboração de políticas públicas que conduzam a organização, estruturação e capacitação profissional voltadas para o cuidado paliativo, considerando os aspectos populacionais do país e objetivando ampliar o acesso a este tipo de serviço.

Incorporar e tornar o cuidado paliativo uma rotina nos atendimentos prestados é garantir a integralidade do cuidado, não apenas com o enfermo, mas também de seus familiares, além de diminuir a insegurança e a angústia dos profissionais da área da saúde sobre a atuação diante da morte e do morrer.


Gostou do artigo? Quer ter o seu artigo no Sanarmed também? Clique aqui e saiba mais

Referências

  1. 1. Acesso em 15/09/2019: https://paliativo.org.br/wp-content/uploads/2018/10/Panorama-dos-Cuidados-Paliativos-no-Brasil-2018.pdf
  2. 2. Conceição. M.V da. et al. Conhecimento sobre cuidados paliativos entre médicos residentes de hospital universitário. Rev. Bioét. vol.27 no.1 Brasília Jan./Mar. 2019.
  3. 3. Guimarães. R. S de. et al. O conhecimento da enfermagem relativo ao cuidado a pacientes elegíveis para cuidados paliativos. J Health Sci Inst. 2013;31(3):274-8.
  4. 4. Moritz. R.D. Os profissionais de saúde diante da morte e do morrer. Bioética 2005 - Vol. 13, nº 2.
  5. 5. Academia Nacional de Cuidados Paliativos - Manual de Cuidados Paliativos ANCP - Ampliado e atualizado - 2º edição- Agosto/2012.
  6. 6. Acesso em 15/09/2019: WHO Global Atlas on Palliative Care At the End of Life:https://www.who.int/mediacentre/news/releases/2014/palliative-care-20140128/en/
Tags

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao topo
Fechar