As infecções causadas por dermatófitos, ou dermatofitoses, são as principais causas de infecções fúngicas na pele, cabelo e unhas. Essas infecções resultam em diversas manifestações clínicas, como tinea pedis, tinea corporis, tinea cruris, tinea capitis, onicomicose dermatofítica e granuloma de Majocchi.
São causados por fungos dermatófitos (do gênero Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton) e afetam cerca de 15% da população ao longo da vida. Além disso, são transmitidas por contato direto ou indireto através de materiais contaminados.
Subtipos clínicos das dermatofitoses
Como já mencionado, os principais tipos clínicos das dermatofitoses incluem acometimentos da pele, cabelo e unhas.
Na pele, classificam-se em:
- Tinea corporis – Infecção nas áreas da pele que não envolvem os pés, virilha, rosto, couro cabeludo ou barba.
- Tinea pedis – Infecção nos pés.
- Tinea cruris – Infecção na região da virilha, parte interna superior das coxas ou nas nádegas.
- Tinea faciei – Infecção na face.
- Micose das mãos – Infecção nas mãos.
- Tinea genitalis – Infecção nos órgãos genitais ou na região púbica.
No cabelo, por sua vez, dividem-se em:
- Tinea capitis – Infecção no couro cabeludo.
- Tinea barbae – Infecção nos pelos da barba.
Por fim, nas unhas, causam a onicomicose dermatofítica.
Tinea do couro cabeludo
A tinea do couro cabeludo apresenta-se como lesão única quando causada por Microsporum ou várias placas quando causado por Trichophyton. Além disso, pode ocorrer alopecia com cotos capilares fragmentados.
Outra forma de apresentação é a tinea favosa, causada pelo Trichophyton Schönleinii, que ocorre como endemias, podendo resultar em alopecia aparente.
Realiza-se o tratamento da tinea do couro cabeludo com antifúngicos sistêmicos, como a terbinafina e griseofulvina.

Fonte: https://residenciapediatrica.com.br/detalhes/360/kerion%20celsi-%20um%20relato%20de%20caso
Tinea do corpo
Por sua vez, a tinea do corpo, ou tinea corporis, apresenta-se como placa descamativa eritematosa, com vesículas e prurido. Pode surgir como uma lesão única ou como lesões múltiplas.
A tinea corporis é contraída por meio do contato direto da pele com uma pessoa ou animal infectado, pelo contato com objetos contaminados (fômites) ou pela disseminação de infecções de outras áreas do corpo, como couro cabeludo e pés. Além disso, também podem manifestar-se em surtos entre esportistas que têm contato direto com a pele, como é o caso dos lutadores.
Realiza-se o tratamento da tinea corporis com antifúngicos tópicos ou sistêmicos, em caso de lesão disseminada.

Fonte: https://www.mdsaude.com/dermatologia/impinge-tinea/
Tinea crural
A tinea crural é mais comum em homens e ocorre com maior frequência na região inguinal. Todavia, pode manifestar-se na região axilar, glútea, interglútea e inframamária.
A lesão é uma placa eritematosa descamativa, com vesículas e prurido. Além disso, a infecção geralmente ocorre devido à propagação da infecção dermatofítica da tinea pedis associada.
Fatores que favorecem o desenvolvimento incluem transpiração excessiva, obesidade, diabetes e comprometimento do sistema imunológico.
Por fim, realiza-se o tratamento com antifúngicos tópicos ou sistêmicos, se a lesão for disseminada.
Tinea do pé/tinea da mão
A tinea do pé é muito mais comum que a tinea da mão.
No pé, a forma mais comum é a tinea pedis, também conhecida como “pé de atleta”, que manifesta-se com prurido, maceração, descamação e fissuração. Normalmente acomete adultos e adolescentes, com ocorrência rara durante a puberdade.
Os fatores predisponentes para a infecção incluem diabetes mellitus e uso de calçados fechados.
Ademais, tinea pedis pode manifestar-se de diversas formas:
- Tinea pedis interdigital;
- Tinea pedis hiperceratótica (tipo mocassim);
- Tinea pedis vesiculobolhosa (inflamatória);
- Tinea pedis ulcerativa.

Fonte: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-dermatol%C3%B3gicos/infec%C3%A7%C3%B5es-f%C3%BAngicas-da-pele/tinha-do-p%C3%A9
Tinea da unha
Por fim, a tinea da unha ou onicomicose afeta a lâmina ungueal e deixa as unhas grossas, opacas e amareladas. Realiza-se o tratamento com antifúngico tópico e sistêmico.

Fonte: https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/dist%C3%BArbios-dermatol%C3%B3gicos/doen%C3%A7as-das-unhas/onicomicose
Outros tipos de dermatofitoses
Outros subtipos clínicos de dermatofitoses incluem:
- Tinea genitalis (ou tinea pubogenitalis) – É uma infecção rara causada por dermatófitos nos órgãos genitais e região púbica. Clinicamente, a infecção pode manifestar-se como placas escamosas, anulares e pruriginosas, podendo também envolver pápulas, nódulos e até foliculite, como o granuloma de Majocchi.
- Tinea faciei – É uma dermatose que afeta a pele do rosto, sem pelos terminais, e se manifesta como pequenas pápulas escamosas que se transformam em placas anulares.
- Tinea barbae – Afeta os pelos da barba em homens, especialmente adolescentes e adultos, e também requer tratamento antifúngico oral.
Diagnóstico das Dermatofitoses
Suspeita-se inicialmente das dermatofitoses com base no exame físico, que ajuda a identificar sinais típicos da infecção. No entanto, devido à sobreposição de sintomas com outras condições de pele, a confirmação do diagnóstico geralmente é feita por meio de testes específicos.
Exame físico
Um exame minucioso das áreas afetadas é essencial para identificar características compatíveis ou não com infecções por dermatófitos.
Como é comum a presença de mais de uma infecção dermatofítica ao mesmo tempo (por exemplo, tinea pedis e tinea cruris), é importante realizar um exame completo da pele, incluindo cabelo e unhas, para identificar possíveis locais adicionais de infecção.
Testes diagnósticos
O método diagnóstico varia conforme o tipo de infecção suspeita. Nas infecções epidérmicas (como tinea pedis, tinea corporis e tinea cruris), por exemplo, utiliza-se a preparação com hidróxido de potássio (KOH), empregando raspados das áreas afetadas. A vantagem desse teste é que ele oferece resultados rápidos, podendo ser realizado pelo próprio médico. Além disso, a preparação de KOH permite visualizar hifas septadas, confirmando a infecção por dermatófitos.
A cultura fúngica, por sua vez, é uma alternativa, mas é mais demorada. Já os testes moleculares, como o teste de reação em cadeia da polimeras (PCR), têm ganhado importância no diagnóstico de dermatofitoses.
A obtenção de uma amostra adequada para preparação de KOH ou cultura fúngica é fundamental. Em pacientes com tinea corporis ou tinea cruris, o melhor resultado é alcançado ao coletar raspados de pele da borda ativa de uma lesão ou mancha. No caso da tinea pedis vesicobolhosa, o conteúdo do teto de uma vesícula pode fornecer uma amostra apropriada.
Complicações das dermatofitoses
As infecções por dermatófitos podem levar a diversas complicações, incluindo infecções bacterianas secundárias, tinea incognito, granuloma de Majocchi e reações de id.
Infecção bacteriana secundária
Essa complicação pode surgir especialmente em áreas da pele úmidas ou cobertas, como os pés. Portanto, se houver erosões, ulceração, dor ou mau cheiro, é essencial realizar exames como a coloração de Gram e cultura para identificar uma possível infecção bacteriana.
Tinea incognito e granuloma de Majocchi
O uso inadequado de corticosteroides tópicos em infecções dermatofíticas, muitas vezes confundidas com outras condições como eczema, pode agravar a infecção e dificultar o diagnóstico.
Isso pode resultar em tinea incognito, que caracteriza-se pela alteração dos sinais clínicos, como redução de eritema e escamação.
Além disso, o uso de corticoides também pode levar ao desenvolvimento do granuloma de Majocchi, uma infecção profunda que envolve folículo piloso e derme, havendo necessidade de tratamento antifúngico oral.
Reações de Id
Essas reações são erupções dermatíricas secundárias que ocorrem devido a uma infecção primária, como a dermatofitose. Elas geralmente são desencadeadas por uma resposta imunológica ao fungo.
As lesões podem espalhar-se para áreas distantes da infecção inicial e são comuns em quadros de tinea pedis, manuum, cruris, corporis e capitis. O tratamento envolve, principalmente, o controle da infecção dermatofítica com terapias antifúngicas, e, se necessário, o uso de corticosteroides tópicos para aliviar os sintomas agudos.
Tratamento das dermatofitoses
Recomenda-se o tratamento das dermatofitoses para aliviar sintomas, como prurido, reduzir o risco de infecção bacteriana secundária e prevenir a disseminação para outras áreas do corpo ou outros indivíduos.
Tratamento medicamentoso
O tratamento envolve o uso de medicamentos antifúngicos tópicos ou sistêmicos com atividade específica contra dermatófitos. A maioria das infecções cutâneas por dermatófitos, restritas à epiderme, pode ser controlada com terapias antifúngicas tópicas, que inclui agentes como azóis, alilaminas, butenafina, ciclopirox e tolnaftato.
Por outro lado, os tratamentos orais com medicamentos como terbinafina, itraconazol, fluconazol e griseofulvina são indicados para infecções mais extensas, infecções resistentes ao tratamento tópico ou infecções que afetam os folículos ou a derme (como tinea capitis, tinea barbae, granuloma de Majocchi) ou envolvem as unhas.
Entre as possíveis complicações estão reações adversas cutâneas, hepatotoxicidade e interações medicamentosas.
Agentes não recomendados
Não recomenda-se mais o uso de cetoconazol oral devido aos riscos de lesão hepática grave, insuficiência adrenal e interações medicamentosas. Além disso, a nistatina, apesar de eficaz para infecções cutâneas por Candida, não é eficaz contra dermatófitos.
Terapia adjuvante com corticoides
Em geral, não utiliza-se corticoides tópicos no tratamento de infecções por dermatófitos. Embora produtos combinados de antifúngicos e corticoides de baixa potência possam ser eficazes e acelerar a resolução das manifestações clínicas de infecções superficiais por dermatófitos, a combinação não é necessária para alcançar a cura.
Falha no tratamento
As infecções por dermatófitos normalmente respondem bem a um tratamento adequado.
Portanto, as razões mais comuns para falha na resposta à terapia antifúngica incluem administração inadequada do tratamento (como interromper o uso quando a escama visível desaparece) ou um diagnóstico incorreto. Por isso, uma avaliação de falha deve considerar o uso da terapia prescrita e explorar diagnósticos alternativos. A possibilidade de reinfecção também deve ser revisada.
Ademais, a resistência emergente de dermatófitos à terapia antifúngica pode ser responsável por algumas falhas no tratamento.
Conclusão
As dermatofitoses são infecções da pele, cabelo e unha causadas por fungos dermatófitos. A profilaxia é importante para evitar a doença, como evitar a umidade e lesões que causem porta de entrada na pele. O estudo das dermatofitoses é muito importante, já que possibilita o diagnóstico e tratamento adequados.
Autora: Caroline de Souza Silva
Instagram: @zz.caroline
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Sugestão de leitura recomendada
- Infecções bacterianas de pele: etiologia e sintomas
- Doenças superficiais e cutâneas causadas por fungos
Referências
- Sampaio, SAP, Rivitti, EA. Dermatologia. Artes Médicas, 3° edição. 2007.
- Bolognia JL, Jorizzo JL, Rapini RP, Dermatologia. 2º Ed. [S.l]: Mosby; 2011.
- Wollf K, Johnson RA. Dermatologia de Fitzpatrick: atlas e texto. 6º.ed. Porto Alegre: Artmed; 2011.
- Goldstein, A. O.; Goldstein, B. G. Dermatophyte (tinea) infections. UpToDate, 2024.
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