Cirurgia geral

Divertículo de Meckel: o que você precisa saber sobre | Colunistas

Divertículo de Meckel: o que você precisa saber sobre | Colunistas

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Gabriel Bezerra

6 min há 337 dias

O divertículo de Meckel (DM) representa a anomalia congênita mais frequente do trato gastrintestinal. Estima-se que está presente em cerca de 2% da população (dado impreciso, já que pode estar presente durante a vida sem apresentar sintomas) e que é duas vezes mais constante em homens do que em mulheres.

Como o próprio nome já diz, trata-se de um divertículo, uma saliência formada no trato intestinal, e, nesse caso, é classificado como verdadeiro, pois envolve a evaginação de todas as camadas da parede intestinal, como ilustrado na Imagem 1. Localiza-se na borda antimesentérica do íleo, em sua porção distal, geralmente a uma distância de 30 a 150cm da válvula ileocecal.

  • IMAGEM 1: Representação da herniação de todos os componentes da parede intestinal presente no divertículo de Meckel.
Fonte: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/diverticulo-de-meckel

História

A primeira descrição dessa condição foi por Fabricius Hildanus em 1598, mas somente em 1809 Johann Meckel desenvolveu a teoria embrionária da formação dessa estrutura, relacionada ao fechamento inadequado do ducto vitelino. Sua teoria foi precisa, visto que hoje sabe-se que essa estrutura resulta da obliteração incompleta do ducto onfalomesentérico, antigo ducto vitelino, que é responsável por conectar o saco vitelínico ao intestino médio no início do desenvolvimento embrionário. No período entre 7ª e 8ª semana da embriogênese, esse ducto normalmente é obliterado, o que não ocorre em uma parcela da população que apresenta essa evaginação de forma patente.

Fisiopatologia

Devido a sua origem embrionária, boa parte dessa estrutura apresenta um tecido pluripotente, sobretudo com células da mucosa gástrica e de tecido pancreático. As células dessa mucosa naturalmente produzem ácido clorídrico, que é um dos fatores primordiais para irritação e danificação do trato intestinal, resultando em hemorragias, principais manifestações clínicas desse divertículo.

Manifestações clínicas

A maioria dos indivíduos com DM se encontram assintomáticos e somente são diagnosticados indiretamente, por meio de uma laparoscopia ou laparotomias, ambas realizadas na extração de outra condição enferma concomitante.

No entanto, a apresentação sintomática pode estar presente e ser causa de hemorragia digestiva nas crianças de até 2 anos de idade, devido à ulceração ocasionada pela mucosa gástrica do DM.

Os principais sintomas encontrados são: massa abdominal à palpação, distensão abdominal, vômitos fecaloides, parada de eliminação de gases e fezes e quadro de cólica abdominal.

Em adultos, a obstrução é o achado mais comum, em virtude de herniação patente, torção ocasional da estrutura ou intussuscepção intestinal (uma condição em que parte do intestino se dobra por cima de outra seção dele). A obstrução deve ser diagnosticada brevemente e tratada cirurgicamente, pois pode evoluir para peritonite, necrose e óbito do paciente.

A diverticulite aguda é uma complicação inflamatória, cujos sinais são bem parecidos com a apendicite, caracterizando um diagnóstico diferencial em que uma tomada de decisão errada pode piorar a situação do paciente, o qual pode evoluir com necrose, perfuração, formação de abscessos, fístulas e peritonite. Essa inflamação pode ser desencadeada por um corpo estranho causando a obstrução do divertículo, danificando a mucosa ileal.

Diagnóstico

Como foi ilustrado, a DM é de difícil diagnóstico e a maioria dos exames complementares evidencia as alterações decorrentes das complicações, como diverticulite, obstrução da luz intestinal, hemorragia ou perfuração.

 Como a maioria dos casos de diverticulite é assintomático, seu diagnóstico é acidental, em razão de uma laparoscopia utilizada inicialmente em busca de outros diagnósticos. É considerada método eficaz na inspeção da cavidade e tem a vantagem de realizar simultaneamente o diagnóstico e sua correção. No entanto, extensa distensão intestinal é uma contraindicação à realização desse procedimento. A imagem 2 mostra a presença do DM durante realização de uma videolaparoscopia.

  • IMAGEM 2: Representação de um divertículo de Meckel.
Fonte: www.endoscopiaterapeutica.com.br

Aliados às manifestações clínicas, alguns exames auxiliam no diagnóstico correto, dos quais serão abordados a ultrassonografia e a cintilografia abdominais.

Cintilografia

  • É o método mais utilizado para diagnóstico de DM;
  • Apresenta especificidade de 95 a 100% e sensibilidade em torno de 85%;
  • Possui a propriedade de marcação de mucosa gástrica pelo elemento tecnécio 99, localizando tecido gástrico ectópico funcional, como evidenciado na Imagem 3;
  • O exame tem acurácia em torno de 90% em pacientes pediátricos;
  • Em adultos, essa mucosa gástrica é pouco presente na gênese diverticular, o que dificulta o diagnóstico.
  • IMAGEM 3: Resultado de tecido gástrico ectópico presente na maioria dos DM vistos na cintilografia.
Fonte: www.endoscopiaterapeutica.com.br

Ultrassonografia

  • A ultrassonografia é discutida na literatura como método para diagnosticar complicações do DM, principalmente em casos de processo inflamatório e intussuscepção intestinal;
  • É útil em sangramentos retais com resultado da cintilografia negativo.
  • Na presença de obstrução diverticular, é possível observar estrutura tubular distendida, com conteúdo líquido, conectada à cicatriz umbilical, conforme está presente na Imagem 4.
  • IMAGEM 4: Ultrassonografia mostrando a presença de um divertículo de Meckel.
Fonte: www.endoscopiaterapeutica.com.br

Tratamento

            O tratamento definitivo do divertículo de Meckel é cirúrgico, com indicação absoluta em pacientes sintomáticos por meio de uma diverticulectomia simples ou ressecção ileal segmentar com anastomose, procedimentos realizados através de cirurgia aberta ou laparoscópica, em que ocorre a retirada do divertículo.

Ao considerar a maioria dos casos, que são assintomáticos, não há consenso se há necessidade cirúrgica, visto que as taxas de complicações são baixas e os riscos inerentes ao procedimento cirúrgico é bem considerável, embora alguns autores tratem de uma diverticulectomia profilática como sendo benéfica, principalmente nos jovens adultos e nas crianças, uma vez que, nesses grupos, as complicações são mais frequentes.

Por fim, foi evidenciado que o divertículo de Meckel é uma condição que pode trazer inúmeras complicações e, por isso, há a necessidade de se realizar um diagnóstico e um tratamento adequado, no qual, em sua abordagem, deve-se analisar cada caso, tendo em mente a relevância de variáveis como sexo, idade, características do divertículo e experiência do cirurgião.

Confira o vídeo:

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