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Doença mão, pé e boca | Colunistas

Doença mão, pé e boca | Colunistas

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Introdução

A doença ou síndrome mão, pé e boca (MPB) é uma infecção viral altamente contagiosa causada pelo Enterovírus Coxsackie. Neonatos e crianças podem manifestar a doença de forma mais grave, mas todas as faixas etárias estão sujeitas a infecção.  Na maioria das vezes a enfermidade aparece de forma benigna e autolimitada, com uma duração de aproximadamente uma semana.

Em 1957, na Nova Zelândia e no Canadá, foi a primeira vez em que essa doença foi descrita, com episódios ocorrendo em todo o mundo. Desde o ano de 1997, as epidemias são registradas principalmente em regiões no sudoeste da Ásia. 

As principais características da doença MPB são as manchas vermelhas na boca, a erupção de pequenas bolhas nas palmas das mãos e nas plantas dos pés, mas que pode ocorrer também nas nádegas e na região genital, e a febre alta. 

Conceito 

Os coxsackievirus (CV) são vírus de fita simples de ácido ribonucleico (RNA), não envelopados e que pertencem à família Picornaviridae, e ao gênero Enterovírus (EV). Atualmente os EV foram classificados baseando-se na organização genômica, na similaridade da sequência dos nucleotídeos e nas propriedades bioquímicas que identifica mais de 100 sorotipos de EV. Esses 100 sorotipos estão classificados em cinco espécies: Poliovírus e EV A, B, C e D1.

A doença mão, pé e boca é causada pelo CV A-5, A-6, A-7, A-9, A-10, A-16, B-2, B-5 e pelo enterovírus A-71 (EV-A71). Ela tem como os principais causantes o coxsackievírus A16 e EV71 e com menos frequência os coxsackievírus A e B.

Transmissão

Os vírus da enfermidade mão, pé e boca são transmitidos diretamente pessoa-a-pessoa pela via fecal-oral, oral-oral ou em contato com gotículas de saliva. A transmissão indireta do vírus pode ser feita pelo contato com superfícies ou objetos contaminados, pois em temperatura ambiente os enterovírus continuam viáveis. 

Eles podem se replicar nas tonsilas palatinas, mucosa oral e no trato digestório, além disso eles possuem uma resistência às variações de pH, podendo ultrapassar a barreira gástrica e se multiplicarem também no intestino delgado. Eles podem ser encontrados também no leite materno podendo haver transmissão transplacentária. 

O período de incubação pode variar, geralmente de 3 a 7 dias de duração na maioria dos casos. Os enterovírus podem permanecer viáveis em secreções da mucosa oral por até 2 semanas, na excreção respiratória geralmente de 1 a 3 semanas e nas fezes por até 8 semanas após a infecção.

Manifestações Clinicas

A doença mão pé e boca pode ser dividida em 3 fases: 

  • Pródomo: acontece de 2 a 4 dias antes do aparecimento do exantema e pode constar com o surgimento de febre, prostração, adinamia (fraqueza muscular intensa), diarreia, odinofagia (dor na deglutição dos alimentos) e vômitos. 
  • Fase aguda: acontece com o aparecimento de máculas eritematosas nas palmas das mãos e nas plantas dos pés. São vesículas pequenas, de aproximadamente 2 a 5 milímetros, não pruriginosas. Podendo aparecer também as lesões aftoides dolorosas na mucosa oral. Essas vesículas permanecem em um período de 7 a 10 dias, causam dificuldade na alimentação da pessoa podendo levar a desidratação.
  • Fase de convalescência: nesta última fase o indivíduo apresenta sinais de prostração e outro sintoma que pode aparecer em até 2 meses após o início da doença, é a onicomadese (deslocamento indolor da unha de sua matriz).

A Organização Mundial da Saúde (WHO, 2011) a classificou segundo a sua gravidade: 

  • Doença MPB autolimitada, sem maiores complicações;
  • Doença MPB com comprometimento do Sistema Nervoso Central Involuntário; 
  • Doença MPB que apresenta desregulação do Sistema Nervoso Autônomo; 
  • Doença MPB com falência cardiopulmonar.
Fotos da doença mão-pé-boca | MD.Saúde
Figura 1 – Lesões aftoides na mucosa oral.
https://www.mdsaude.com/pediatria/fotos-mao-pe-boca/
SMPB - Lesões na mão
Figura 2 – Lesões na palma da mão.
https://www.mdsaude.com/pediatria/fotos-mao-pe-boca/
Casos de síndrome mão-pé-boca em crianças são registrados em Brusque - O  Município
Figura 3 – Lesões nas palmas das mãos e plantas dos pés. https://omunicipio.com.br/casos-de-sindrome-mao-pe-boca-em-criancas-sao-registrados-em-brusque/

Diagnóstico

Para diagnóstico são utilizados os exames:

  • Isolamento viral em cultura de células (RD – Rabdomiossarcoma, Vero – Células de Rim do Macaco Verde Africano); 
  • Teste de neutralização; 
  • Transcrição reversa – reação em cadeia da polimerase (RT-PCR); sequenciamento; imunofluorescência indireta; 
  • Nested RT-PCR e PCR em Tempo Real (Real-Time PCR). 

A soroneutralização pode ser utilizada para detecção de anticorpos. Ela não é recomendada para diagnósticos rotineiros e é preconizado somente para vigilância epidemiológica.

As amostras para detecção de enterovírus são: fezes, swab da orofaringe, líquido das vesículas, líquido cefalorraquidiano (em casos com complicações neurológicas) e em caso de óbito pode utilizar os fragmentos do tecido nervoso central. 

Tratamento

O tratamento da doença é baseado na redução e tratamento dos sintomas através do uso de analgésicos, antitérmicos e hidratação segundo a necessidade de cada paciente.

Quando as lesões acometem áreas extensas e muitas lesões na cavidade oral pode ser necessária a internação para alimentação via sonda nasogástrica, pois os pacientes apresentam dificuldade para deglutir. Caso os pacientes apresentem alguma infecção secundária são indicados antibióticos. 

As crianças com meningite asséptica apresentam um bom prognóstico, porém aquelas que apresentam pele moteada, taquicardia, taquipneia, sudorese fria, hipertensão e hiperglicemia requerem internação para o controle dos sinais vitais, pois o quadro pode se agravar ainda mais e levar ao óbito. 

Os  pacientes com encefalite ou meningoencefalites com alterações do sistema nervoso central, como letargia, ataxia, tremores, fraqueza muscular e febre com temperatura acima de 39°C por um período maior que 48 horas devem ser mantidos em observação, pois não apresentam um bom prognóstico na maioria das vezes. 

Estudos mostram que, em caso de falência cardiopulmonar, o uso de drogas vasoativas demonstrou benefícios. O Milrinone reduziu a mortalidade por diminuir a atividade simpática e a produção de citocinas.

Recomendações

As recomendações se baseiam principalmente na prevenção e o controle de disseminação da doença mão, pé e boca. Para que isso ocorra é preciso ter em conta:

  • Maior cuidado em ambientes fechados principalmente no período agudo da doença. 
  • É importante que o infectado, principalmente crianças, não tenha o contato com outras pessoas até o desaparecimento dos sintomas ou aproximadamente 7 dias.
  • Reforçar as medidas higiênicas principalmente em creches e escolas 
  • Não expor crianças menores de 5 anos em aglomerações públicas em épocas de surto. 
  • Em caso de gestantes e lactantes, é importante evitar o contato com infectados com a doença MPB. E em caso de amamentação, as lactantes devem utilizar máscaras e higienizar tanto as mãos quanto os mamilos para uma maior segurança e evitar a transmissão na hora da amamentação.

Conclusão

A doença mão, pé e boca não possui um tratamento e uma vacina especifica para realizar a prevenção necessária. No Brasil as informações epidemiológicas ainda são escassas. É necessário o controle municipal dessa doença, principalmente quando acontecem os surtos que o risco de transmissão aumenta ainda mais. Campanhas de orientação e conscientização são importantes principalmente em escolas, pois as crianças são os mais afetados.

Autora: Merlyken Glenda Ferreira Brito.

Instagram: @brito_mell

Referências

Dica de pediatria: doença mão-pé-boca – https://www.sanarmed.com/dica-de-pediatria-doenca-mao-pe-boca 

Síndrome Mão-Pé-Boca – https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/_22039d-DocCient_-_Sindrome_Mao-Pe-Boca.pdf

DOENÇA DE MÃO, PÉ E BOCA POR ENTEROVIRUS: REVISÃO DA LITERATURA. – https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/12/1140405/programa-7-adriana-maria-vieira-jorge.pdf 

Orientações sobre a síndrome mão-pé-boca (CID 10: B08.4) – http://www.spp.org.br/wp-content/uploads/2018/03/Orientacoes-sindrome-mao-pe-boca.pdf

Doença mão-pé-boca – https://bvsms.saude.gov.br/doenca-mao-pe-boca/#:~:text=A%20doen%C3%A7a%20m%C3%A3o%2Dp%C3%A9%2Dboca,afeta%20a%20mucosa%20da%20boca).


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