Coronavírus

Dr. Saulo Ciasca analisa os impactos da pandemia para saúde mental

Dr. Saulo Ciasca analisa os impactos da pandemia para saúde mental

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Sanar

8 min há 67 dias

Saúde mental e habilidades para melhorar o atendimento também serão temas do Sanarcon 2021. O congresso, que vai acontecer em 18 de setembro, vai reunir grandes nomes da medicina e da ciência. As inscrições são gratuitas e podem ser realizadas através do site sanarcon.sanarmed.com.

O Sanarcon é uma excelente oportunidade para se atualizarem sobre “A Vacinação no Brasil: impactos, desafios e futuro”. Mas, também é uma chance única de entender como os impactos da pandemia da Covid-19. Para ampliar as discussões em diversas áreas. E é o amplo debate que faz a medicina e os médicos evoluírem.

Neste contexto, o psiquiatra Saulo Ciasca vai aproveitar a sua participação no Sanarcon para empoderar os médicos. Ele vai ensinar como melhorar o atendimento. O tema da palestra será “Saúde LGBTQIA: o que todo médico deve saber”.

Saulo Ciasca no Sanarcon 2021: o que esperar?


O médico psiquiatra é coordenador da área da saúde da Aliança Nacional LGBTI+. Membro da Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da OAB. Membro da WPAT e editor do livro Saúde LGBTQIA+: práticas de cuidado transdisciplinar.

Para o Sanarcon, Saulo Ciasca contou que vai falar o que todo médico tem que saber para atender pessoas LGBTQIA+.

“Vou explicar quais são os primeiros passos para que o médico não comenta erros no atendimento. As perguntas e as atitudes necessárias para fazer uma entrevista que respeite a diversidade. Também vou falar sobre saúde mental desta população”, detalhou.

O especialista ainda ressaltou o como sua palestra irá ajudar os profissionais a evoluírem. “Vou ensinar como eles podem melhorar o atendimento não só para pessoas LGBTQIA+. Mas, para toda população. Porque quando você atende a diversidade bem, você atende os outros melhor também“.

A participação de Saulo Ciasca no Sanarcon é um verdadeiro convite a exercitar a empatia.


Saúde mental, a desistência de Simone Biles e mais


A pandemia da Covid-19 mudou completamente o estilo de vida das pessoas. Do uso de máscara a necessidade de aprender a lidar com o medo, as incertezas. Para entender melhor os impactos da pandemia, entrevistamos o psiquiatra Saulo Ciasca. Confira:

“Desistir por entender que precisava cuidar da saúde mental foi um ato corajoso”, disse Saulo sobre a desistência de Simone Biles nas Olímpiadas


1- Como você avalia os impactos da pandemia na saúde mental?

Saulo:
há cada vez mais evidências de um impacto direto e indireto da Covid-19 na saúde mental. Dos efeitos cerebrais e neuropsiquiátricos da doença as mudanças no estilo de vida.

Com a pandemia, houve uma redução do limite de trabalho – casa – descanso. As pessoas passaram a ficar cada vez mais em casa e a terem menos de possibilidades de lazer e de prazer.

Então, a gente vem identificando muitos desfechos negativos por causa da pandemia. Aumento no número de pessoas com depressão, ansiedade, quadros psicóticos e transtornos de estresse pós-traumático.

Ainda tem o fato de ter que lidar com a morte de familiares e o medo da morte. E essa questão das fake news, de não saber em quem confiar.

2- Com o excesso de fake news, muitas pessoas questionando condutas de terapêuticas. Quais dicas você daria para os profissionais de saúde sobre isso?

Saulo:
vivemos um momento em que a opinião do vizinho, de alguém, vale mais que um estudo populacional. Um estudo que mostra que um monte de gente se beneficia com determinada ação médica.

E nós, profissionais de saúde, trabalhamos com evidências, o que é fundamental neste momento. Para qualquer ação de saúde a gente tem nossa indicação. Mas se a pessoa vai seguir ou não depende muito dela também.

O que eu diria aos profissionais de saúde é NÃO DESISTAM. A gente tem que fazer o nosso trabalho e ter paciência. Até porque, educar/orientar é um trabalho de compreender a limitação do outro e ter paciência. Ir colocando tijolinho em tijolinho até a gente vencer essas barreiras.

3- A desistência da ginasta Simone Biles nas Olímpiadas chamou atenção para necessidade de cuidar da saúde mental. De saber como lidar com pressões externas. O que podemos tirar de aprendizado disso?

Saulo:
desistir por entender que precisava cuidar da saúde foi um ato corajoso. Um ato que as pessoas precisam ter também. É preciso respeitar que temos limites e que muitas vezes não dá para fazer tudo. É legal que ela tenha conseguido se analisar e perceber que “olha eu cheguei no meu limite. Não dá mais”.

4- E o que diria para pessoas que estão sofrendo pelos mais variados tipos de pressão psicológica?

Saulo:
estamos em um contexto de não descanso, de muito tempo de tela. Isso tem levado a dificuldade de concentração e também vai minando a saúde. A gente precisa entender quais são os nossos limites e tentar ter uma vida equilibrada.

Tentar ter uma alimentação saudável, tentar fazer atividade física, mas se não der também não se cobrar tanto. Porque sempre vai ter alguém que vai olhar para você e dizer: “você podia fazer isso melhor”.

5- O livro “Saúde LGBTQIA+: Práticas de Cuidado Transdisciplinar” é um verdadeiro marcado para sociedade. Conta para a gente um pouco sobre a obra e como foi fazer parte desse projeto?

Saulo:
foi um marco. Eu me sinto muito feliz. Muito honrado. Tive essa ideia junto com alguns amigos. A gente percebeu uma ausência total de assunto de saúde LGBTQIA+ e também nesse sentido de LGBTfobia. De discriminação na saúde em relação a essas pessoas.

Os profissionais de saúde não estão preparados para atender essas pessoas. Não sabem o básico do atendimento, que é saber orientação sexual e identidade de gênero. Ao não saber lidar com essas pessoas, eles cometem erros. Erros que fazem com que as pessoas tenham barreiras de acesso na saúde e a saúde fica pior.

Então, a gente resolveu escrever um livro grande para tentar reunir o que tem de evidências na literatura. Nesse livro a gente trata o ciclo de vida dessa pessoa LGBTQIA+ . Trouxemos narrativas de usuários do SUS. Conceitos fundamentais, o processo de vulnerabilização, entre outras temáticas.

E, para cada coisa que abordamos no livro, a gente colocou pessoas que vivem isso. Pessoas que tem lugar de fala. A obra tem várias nuances.

6- Quais são os três erros mais comuns no atendimento de pessoas LGBTQIA+?

Saulo:

– Partir do pressuposto de que sabe qual é o sexo biológico da pessoa. A gente não tem como saber sem examinar, a pessoa pode ser intersexo.

– Partir do pressuposto que sabe qual é a identidade de gênero da pessoa.

– Supor a prática sexual da pessoa baseada na orientação é outro erro. Exemplo: a pessoa fala que é gay e o profissional acha que ela faz sexo anal. Pode ser que não faça.

Os três erros anteriores podemos juntar em um único: o processo de heterocisnormatividade nas entrevistas. O que acaba com todo o atendimento, porque o profissional vai sempre partir de pressupostos

Além disso, outro erro comum é o de não perguntar o nome social. Perguntar o nome que a pessoa se identifica é fundamental para começar qualquer atendimento.


Avanço da vacinação no Brasil

Cada vez mais pessoas estão se tornando aptas a receber a vacina. Ao mesmo tempo, com a chuva de fake news nas redes sociais, avançam as dúvidas. Devo me vacinar? Devo evitar tal vacina?

Para quem se pega pensando alguma dessas coisas, o médico deixou um recado importante.

“O cenário é o seguinte: está chovendo, uma chuva ácida, que te mata. Você tem várias possibilidades de guarda-chuva. Tem um maior, um menor. Mas você não pode sair nessa chuva sem guarda-chuva. Então, qualquer vacina é melhor que nenhuma”, afirmou Saulo.

“Existem estudos sendo feitos, baseados em evidências. Estudos que mostram os benefícios. Mas, infelizmente, estamos vivendo em um contexto em que vale mais o que está na internet. O que o conhecido falou”, acrescentou.

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