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Saiba tudo sobre o Delirium Tremens (DTs)!

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SanarFlix

6 min há 984 dias

Neste artigo, explicaremos tudo sobre o Delirium Tremens (DTs) – definição, quais são os mecanismos fisiopatológicos, quais são as principais manifestações clínicas, tratamento e muito mais!

Bons estudos!

O que é delirium tremens?

O delirium tremens (DTs) é um estado confusional breve resultante da abstinência alcoólica absoluta ou relativa, em usuários gravemente dependentes.

É o quadro mais grave da síndrome de abstinência alcoólica (SAA), que consiste num conjunto de sinais e sintomas que aparecem após a cessação ou redução da ingestão crônica de álcool, caracterizada por tremores, insônia e agitação psicomotora.

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Quem desenvolve o delirium tremens?

Considerando os critérios diagnósticos para o abuso de álcool listado no DSM-5 (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5ª edição), estima-se que quase 14% da população Americana tenha sido dependente ou feito uso abusivo de etanol durante a vida. Com relação à síndrome de abstinência, a maioria das vezes esta é autolimitada e tem apresentação de leve a moderada, de forma que menos de 50% dos dependentes alcoólicos desenvolvem sintomas que requerem tratamento farmacológico após a cessação da ingesta alcoólica. Porém, cerca de 5% a 10% dos pacientes apresentarão sintomas graves como o delirium tremens.

A mortalidade entre os pacientes que apresentam o quadro de delirium tremens está em torno de 5% a 25% e é causada principalmente por disfunção respiratória e arritmias cardíacas.

Mecanismos fisiopatológicos

O álcool é um depressor do sistema nevoso central. O abuso crônico de etanol aumenta a atividade do ácido γaminobutírico (GABA), que é o principal neurotransmissor inibitório. Os mecanismos para estas mudanças estão relacionados a modificações tanto da expressão genética neuronal como da fosforilação dos receptores GABA, o que afeta a disponibilidade destes na superfície neuronal durante a sinapse.

Quando há abstinência do etanol ocorre uma diminuição fisiológica do GABA. Com isso, observa-se uma diminuição no controle inibitório dos neurotransmissores excitatórios – como a norepinefrina, o glutamato e dopamina – que antes era exercido pelo GABA.

Além disso, o etanol atua como antagonista dos receptores NDMA (N-Metil–D-Aspartato). Com a interrupção do uso do álcool, há um aumento da atividade excitatória destes receptores, resultando nas manifestações clínicas como tremores, agitação, alucinações, taquicardia, hipertermia e hipertensão.

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Aula o1: Delirium Tremens

Aula 02: Delirium 

Mapa Mental de Delirium Tremens

Manifestações Clínicas

Na síndrome de abstinência alcoólica, os sintomas leves costumam aparecer mais precocemente, cerca de 24 a 48h após a interrupção do consumo de álcool. Já os sintomas mais graves costumam surgir 3 a 4 dias depois da abstinência.

O delirium tremens é caracterizado por sintomas clássicos do delirium (rebaixamento do nível de consciência, confusão mental, desorientação temporoespacial, etc.)  juntamente com uma hiperatividade autonômica (hipertensão arterial, taquicardia, taquipneia, hipertermia, etc.), além de ilusões e alucinações. As alucinações são tanto visuais como táteis, sendo principalmente com insetos e pequenos animais (zoopsias).

Fique ligado!! Outro quadro relacionado a síndrome de abstinência que é importante ser diferenciado do DTs é a alucinose alcoólica, que é caracterizada por alucinações predominantemente auditivas na ausência de rebaixamento do nível da consciência e sem alterações autonômicas.

Como diagnosticar o delirium tremens?

Inicialmente, deve-se identificar se o paciente está num quadro de síndrome de abstinência alcoólica através da história do uso de álcool com redução ou interrupção da ingesta. Em seguida, a gravidade desta SAA e as comorbidades do paciente são avaliadas. O risco para o desenvolvimento do delirium tremens pode ser previsto através do escore CIWA-Ar acima de 15 associado a PAS>150 mmHg ou FC> 100 bpm.

O escore CIWA-Ar é um conjunto de 10 perguntas que avalia basicamente se o paciente tem alucinações, tremores, vômitos, agitação e se está orientado, sendo que, a depender da resposta, há uma pontuação diferenciada.

Os principais fatores de risco para o DTs são:

  • História de convulsões relacionadas a abstinência alcoólica;
  • História de DTs;
  • Comorbidade médica atual;
  • Consumo abusivo diário de etanol a longo prazo;
  • Abstinência alcoólica há vários dias;
  • Idade avançada;
  • Trombocitopenia;
  • Níveis elevados de homocisteína;
  • Presença de lesões estruturais cerebrais

Tratamento do delirium tremens

O delirium tremens é uma emergência médica, necessitando portanto de internação hospitalar.

É necessário fornecer o suporte clínico com a monitorização dos dados vitais, redução do estímulo áudio-visual e dieta leve ou jejum, juntamente com a terapia farmacológica que se baseia no uso de benzodiazepínicos, de preferência intravenoso, e a reposição de tiamina para impedir a encefalopatia de Wernicke.

A dose de tiamina é 500 mg, intramuscular, uma ou duas vezes ao dia por 3 dias.

Em pacientes que não respondem a altas doses de benzodiazepínicos, o propofol pode ser administrado.

Se necessário, pode-se utilizar para complementar o tratamento medicações antipsicóticas como haloperidol para agitação de difícil controle ou alucinações.

É importante solicitar exames laboratoriais para avaliar se outras comorbidades contribuíram para o quadro de delirium, como avaliar os eletrólitos, enzimas pancreáticas, função hepática, hematócrito e coagulograma.

O ideal seria a prevenção deste quadro através do tratamento dos sintomas de abstinência e das comorbidades que o paciente apresente.

O que não fazer:

  • Administração de glicose indiscriminadamente, pelo risco do desenvolvimento da encefalopatia de Wernicke. A glicose deve ser aplicada parenteralmente após a administração da tiamina;
  • O uso constante de difenil-hidantoína (fenitoína), uma vez que esta não é eficaz no controle das crises convulsivas na SAA;
  • Contenção física inadequada e indiscriminada, que gere lesões no paciente.

Referências Bibliográficas

  1. Laranjeira Ronaldo, Nicastri Sérgio, Jerônimo Claudio, Marques Ana C. Consenso sobre a Síndrome de Abstinência do Álcool (SAA) e o seu tratamento. Rev. Bras. Psiquiatr. 2000 ;  22( 2 ): 62-71
  2. Schuckit Mark. Recognition and Management of Withdrawl Delirium (Delirium Tremens). NEJM 2014; 371(22):2109-2113
  3. Dalgalorrondo Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais – 2ª edição. Artmed, 2008.
  4. Cheniaux Elie, Manual de Psicopatologia – 5ª edicção. GEN, 2014.

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