Anatomia de órgãos e sistemas

Equação de Harris Benedict | Colunistas

Equação de Harris Benedict | Colunistas

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Cristina Trentin

8 min há 155 dias

Uma ferramenta básica da nutrição completou 100 anos em 2019 desde o primeiro estudo que a validou para a comunidade científica – a equação ou fórmula de Harris Benedict vem sendo utilizada para estimar a taxa do metabolismo basal, baseado em parâmetros personalizáveis, como peso, idade, grau de atividade diária e sexo, que podem entrar na equação como fatores multiplicadores. Ainda é uma fórmula amplamente utilizada na rotina de profissionais que lidam com nutrição e esporte.

Metabolismo é a denominação do conjunto de processos pelos quais os nutrientes são manipulados para fornecer energia e matéria prima para que o organismo desenvolva suas atividades. A taxa de metabolismo basal (TMB) é composta pelo total de calorias gastas para manter as funções vitais do organismo (como a frequência cardíaca, respiração, equilíbrio de pH sanguíneo e homeostase térmica) no indivíduo em repouso físico e mental, após 12 horas de jejum, em vigília e a uma temperatura ambiente de 20° C.

Fórmula do gasto energético total para o sexo masculino (fórmula simplificada):

Fórmula do gasto energético total para o sexo feminino (fórmula simplificada):

As fórmulas possuem variação dos valores multiplicadores de acordo com a faixa etária e se forem utilizadas durante a gestação.

Existem inúmeros sites on-line que permitem aplicar a fórmula sem dificuldades, como o https://manytools.org/handy/bmr-calculator/.

Gasto energético total (GET)

Fatores multiplicadores da equação

A fórmula de Harris Benedict sofre influência da taxa metabólica basal (TMB), que é variável de pessoa a pessoa de acordo com sua constituição genética, percentual de massa muscular, sexo e idade. Fatores multiplicadores são adicionados em relação a atividade física diária e sua intensidade, levando em conta atividades laborais e prática de exercícios físicos. Com um pequeno impacto, existe ainda a análise do efeito termogênico dos alimentos pelo aumento energético secundário aos processos biológicos da digestão e à ativação do sistema nervoso simpático. Ainda na termogênese, pode entrar no cálculo a exposição ao frio e fatores que aumentam a demanda energética do organismo, como traumatismos ou infecções.

Figura 1: Componentes do gasto energético total, disponível em: http://www.ppgn.ufrj.br/wp-content/uploads/2020/06/Luiz-Lannes-Loureiro-disserta%C3%A7%C3%A3o.pdf, acesso em 02/02/21 às 15:00

O gasto energético total

Quando se fala em gasto energético total diário, pode-se desmembrar em dois principais componentes: o metabolismo basal (TMB) – que corresponde à maior fração calórica diária –, termogênese corporal e o nível de atividade física diária.

A unidade utilizada para medir o gasto calórico é quilocalorias (kcal), que corresponde a 1.000 calorias. A caloria é a quantidade de calor ou energia que é fornecida a 1 grama de água, para que se consiga elevar em 1° C a sua temperatura.

Calorimetria indireta

O consumo ou gasto energético pode ser medido de várias formas, dentre elas a calorimetria indireta. A calorimetria indireta é determinada pelo consumo de oxigênio (O2) e a produção de gás carbônico (CO2) para determinar a quantidade de calorias diárias que o seu organismo gasta no repouso. É o único método prático para identificar a natureza e a quantidade dos substratos energéticos que estão sendo metabolizados.

A calorimetria indireta pode ser medida por aparelhos em circuito aberto ou fechado ou estimadapor calculadoras, como a equação de Harris Benedict. Os aparelhos de CI medem o VO2 (quantidade de oxigênio consumido)e o VCO2 (quantidade de gás carbônico produzido), analisando o ar inspirado e expirado pelo indivíduo num determinado período de tempo. A relação entre o VCO2 e o VO2 é referida como quociente respiratório (QR), que pode ainda ser empregado para se conhecer o tipo de substrato que está sendo oxidado (ex.: glicose, proteína, lipídio, entre outros).

Existem alguns pressupostos para validar essa forma de medição de energia:

1) A entrada e saída dos gases envolvidos no processo de combustão metabólica ocorre só pelo nariz e pela boca. As perdas através da pele são mínimas e são desconsideradas. Nem o oxigênio nem o gás carbônico são armazenados no organismo;

2) Não está ocorrendo produção anaeróbica de energia;

3) O aporte de substratos energéticos consiste em proteínas, carboidratos e gorduras, todos de uma dada composição química;

4) Os substratos energéticos participam só na reação de combustão, na lipogênese e na gliconeogênese. As concentrações de produtos intermediários não se modificam, embora as taxas das reações possam variar;

5) A taxa de excreção de nitrogênio na urina como ureia representa a taxa de catabolismo proteico simultâneo;

6) O organismo está em estado de equilíbrio e a duração do estudo é suficiente para corrigir flutuações nos pools do gás carbônico, glicose e ureia.

Por meio da calorimetria indireta, é possível afirmar que, quando se perde 10 kg de gordura (triglicérides), cerca de 8,4 kg são exalados como CO2 (ignorando situações patológicas e pequenas perdas de massa magra).

Disponível em: https://www.bmj.com/content/bmj/349/bmj.g7257.full.pdf, acesso em 02/02/21 às 10:30

Calorimetria direta

A calorimetria direta é de difícil aplicação prática, portanto, utilizada mais em pesquisas. Ela consiste em medir o calor sensível liberado pelo corpo durante a respiração e a transpiração.

Limitações e considerações finais

A equação apresenta algumas limitações: de acordo com o acometimento por patologias, modificações de composição corporal, atividade metabólica alterada, intervenções clínicas termogênicas e termodepressivas, são empregados fatores de correção, porém na maioria das vezes não se melhora o fator preditivo do score.

A principal aplicação clínica da equação é o planejamento e monitoramento do suporte nutricional. De uma maneira geral, as proteínas ficam com 15% a 20% das calorias, os carboidratos com 55% a 60%, e as gorduras com 20% a 25%. Depois disso, deve-se distribuir as calorias nas cinco ou seis refeições do dia. O ideal é que cada uma das grandes refeições contenha carboidrato, gordura e proteína.

Porém, é necessário enfatizar que esse cálculo é parte de um pilar primordial da nutrição – onde se define a meta de ingestão calórica diária. Subestimar ou superestimar esse número leva inevitavelmente ao fracasso da estratégia.

Acertar a meta calórica é como entrar em um avião, selecionar as coordenadas do destino, mas não saber usar o painel de comando e os controles para pilotar esse avião. Se possível, sempre discuta esses parâmetros com um nutricionista de confiança ou outro profissional ligado à nutrição, pois é ele quem sabe pilotar.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências

  1. Francisco Antonio Coletto, Flávio Marson, Antonio Dorival Campos, Júlio Sérgio Marchini, Anibal Basile-Filho. Análise comparativa do gasto energético entre as equações de Harris-Benedict e de Long e a calorimetria indireta em pacientes sépticos. Revista Brasileira de Terapia Intensiva Volume 15 – Número 3 – Julho/Setembro 2003.
  2. http://www.leb.esalq.usp.br/leb/aulas/ler0140/Calorias_sob_medida.pdf
  3. FRANKENFIELD, D. C., MUTH, E. R., & ROWE, W. A. (1998). The Harris-Benedict Studies of Human Basal Metabolism. Journal of the American Dietetic Association, 98(4), 439–445. doi:10.1016/s0002-8223(98)00100-x.
  4. Bendavid I, Lobo DN, Barazzoni R, Cederholm T, Coëffier M, Schueren Mdvd, Fontaine E, Hiesmayr M, Laviano A, Pichard C, Singer P, The centenary of the Harris-Benedict equation: How to assess energy requirements best? Recommendations from the ESPEN Expert Group, Clinical Nutrition, https://doi.org/10.1016/j.clnu.2020.11.012.
  5. When somebody loses weight, where does the fat go? BMJ 2014; 349 doi: https://doi.org/10.1136/bmj.g7782 (Published 19 December 2014).
  6. Rev. Assoc. Med. Bras. vol.43 n.3 São Paulo July/Sept. 1997 https://doi.org/10.1590/S0104-42301997000300013 Artigo de Revisão: Calorimetria Indireta.
  7. Camila Maria de Melo; Julio Tirapegui; Sandra Maria Lima Ribeiro. Gasto energético corporal: conceitos, formas de avaliação e sua relação com a obesidade. Arq Bras Endocrinol Metab vol.52 no.3 São Paulo Apr. 2008.
  8. GASTO ENERGÉTICO BASAL DE ADOLESCENTES BRASILEIROS ATLETAS DE PENTATLO MODERNO: ESTUDO DE CONCORDÂNCIA ENTRE EQUAÇÕES PREDITIVAS E CALORIMETRIA INDIRETA. Luiz Lannes Loureiro, programa de Mestrado em Nutrição na UFRJ. Rio de Janeiro, 2014.
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