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Espiritualidade e Religiosidade: qual a importância para a prática médica? | Colunistas

Espiritualidade e Religiosidade: qual a importância para a prática médica? | Colunistas

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Willian Junkes da Conceição

6 minhá 10 dias

Por muito tempo, o meio científico atribuiu à religiosidade um efeito negativo para o bom funcionamento psicológico, disseminando a ideia de que teria um impacto negativo sobre a saúde das pessoas. No entanto, do ponto de vista clínico e epidemiológico, é inegável a influência que a religião, a religiosidade e a espiritualidade exercem nas diversas questões da vida de uma pessoa ou de uma comunidade – por conseguinte, também influenciando na saúde. Por conta disso, ter conhecimento sobre esses três aspectos pode auxiliar o profissional de saúde a compreender melhor a vida e as relações sociais das pessoas, potencializando a construção de uma boa relação médico-paciente.

Mas afinal, qual a diferença entre Religião, Religiosidade e Espiritualidade?

  • Religião pode ser conceituada como um sistema estruturado, envolvendo tradições, cultos, rituais e práticas variadas e regradas que visam promover uma maior conexão do indivíduo com um ser superior. Por meio dessas práticas, um indivíduo ou um grupo de pessoas que partilham de uma mesma religião costumam seguir “regras” e crenças semelhantes.
  • Já a religiosidade diz respeito ao nível de envolvimento religioso e o reflexo desse envolvimento na vida da pessoa. Podemos dizer que religiosidade é o quanto a religião influencia o cotidiano, os hábitos de uma pessoa e a sua relação com o mundo.
  • Por fim, a espiritualidade envolve dimensões que transcendem o mundo material, permeando questionamentos individuais acerca do propósito da vida, a busca de conexão com a sua essência, a compreensão do significado de sua vida, por exemplo – podendo, ou não, ter associação com uma religião. A espiritualidade costuma ser livre de regras e se basear em crenças pessoais definidas pelo próprio indivíduo. Uma pessoa pode ser muito espiritualizada e não ser religiosa, por exemplo.

Vale lembrar que muitos pacientes seguem uma religião e as suas crenças os ajudam a lidar com muitos aspectos da vida. O objetivo (biológico) está intimamente ligado ao subjetivo (psíquico, espiritual), podendo ser responsáveis pelas comorbidades, adesão ao uso de medicamentos, sucesso ou fracasso no tratamento. Abordar aspectos subjetivos durante uma consulta envolve também a demonstração de empatia e confiança do médico para com o paciente, proporcionando uma visão mais humanizada e mais holística.

Isso, no entanto, não significa que o profissional de saúde deva concordar ou seguir os princípios da religião ou espiritualidade do paciente. Além do que, muitos profissionais de saúde não se sentem preparados para abordar esses aspectos subjetivos. Por conta disso, foram criados questionários, como o “Questionário FICA” e o “Questionário HOPE“, com questionamentos que auxiliam a avaliar o papel das crenças na vida do paciente, se as crenças promovem conforto ou estresse para ele e se essa crença pode exercer, ou não, influência sobre o tratamento médico. Abaixo, nas referências, é possível acessar aos questionários.

Outro aspecto que podemos utilizar como auxílio durante a abordagem as questões de religiosidade e espiritualidade durante uma consulta médica é o chamado Coping – o que, grosseiramente, podemos traduzir como “enfrentamento”. A religião ou a espiritualidade podem oferecer aos seus praticantes uma variedade de métodos ou estratégias de Coping para enfrentamento de situações adversas, podendo os tipos de Coping classificados como positivos e negativos.

Os aspectos de Coping (“enfrentamento”) positivo costumam mostrar uma atitude mais positiva do paciente, estando associadas com melhor adesão do paciente, mais conforto frente a adversidades e melhor aspecto da saúde mental. Abaixo, seguem exemplos e atitudes representativas de Coping positivo:

  •  Apoio espiritual: “procurei em Deus conforto e orientação”;
  •  Foco religioso: “pedi a Deus que me ajudasse a encontrar um novo propósito na vida”;
  • Coping religioso de colaboração: “senti que Deus estava atuando junto comigo”.” Fiz o melhor que pude e entreguei a situação a Deus”.

Por outro lado, os aspectos de Coping (“enfrentamento”) negativo estão mais associados a atitudes negativas do paciente, com pior saúde mental, física e descrença de melhor frente à sua adversidade. Abaixo, seguem exemplos e atitudes representativas de Coping negativo:

  • Intervenção divina: “preferi não fazer nada, apenas esperei que Deus resolvesse meus problemas.”;
  • Reavaliação de Deus como punitivo: “eu achava que Deus tinha me abandonado”;
  • Reavaliação de força maligna: “para mim, isso é obra de forças malignas”.

Adentrando o campo dos problemas mentais, a religiosidade e a espiritualidade também permeiam diversos aspectos na vida dos pacientes, interferindo sobre a sua saúde mental. A depressão, por exemplo, é uma condição médica na qual o paciente apresenta sintomas, como tristeza, pessimismo, tendência ao isolamento, baixa autoestima, anedonia e, eventualmente, ideação suicida. Muitas vezes, o que impede esse paciente de cometer suicídio é ter uma crença, talvez por acreditar que isso prejudicaria seu propósito ou porque o ato iria de encontro às regras de sua religião, portanto, os aspectos subjetivos e as crenças podem ter papel protetivo contra o suicídio, além de outros quadros psiquiátricos, como abuso de substâncias.

Por fim, ressalta-se a importância de abordar aspectos além dos objetivos durante uma consulta, visto que pode facilitar o atendimento médico além de beneficiar a relação médico-paciente. Para isso, o profissional de saúde não precisa ter conhecimento afundo sobre as diversas crenças e religiões, podendo utilizar ferramentas que facilitam a abordagem ao tema, – além de evitar abordagens errôneas ou com julgamentos acerca da crença do paciente. Ou seja, o que impera aqui é sempre o bom senso e uma postura humanizada de quem oferece os cuidados à população.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

Lucchetti G, Granero AL, Bassi RM e col. Espiritualidade na prática clínica: o que o clínico deve saber? Rev Bras Clin Med 2010;8(2):154-8

STROPPA, André  and  MOREIRA-ALMEIDA, Alexander. Religiosidade e espiritualidade no transtorno bipolar do humor. Rev. psiquiatr. clín. [online]. 2009, vol.36, n.5, pp.190-196. ISSN 1806-938X. 

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