A estrongiloidíase, ou também conhecida por estrongiloidose ou anguilulose, é uma doença que tem origem na infecção por um nematelminto, o Strongyloides stercoralis. Aparentemente se parece com um caso simples, o que realmente é quando se tem uma boa experiência com esse tipo de infestação. No entanto, a escolha errada na propedêutica ou a não identificação precoce dessa condição pode resultar em desfecho não favorável ao paciente.
Um pouco de história…
O S. stercoralis teve sua descoberta e descrição realizada pelo médico francês Louis Normand e pelo farmacêutico Bavay, respectivamente, no ano de 1876, período em que atuavam no Hospital Naval de Toulon, na França. Nesse período, diversos soldados franceses que retornavam após seu serviço do atual Vietnã (conhecido na época por Cochinchina) apresentavam fezes diarreicas em que nelas foi encontrado formas larvárias do helminto. Inicialmente o verme foi denominado por Bavay de Anguillula stercoralis, em referência ao termo em latim “Anguillula”, traduzido por “pequena enguia” ou “peixe longo”, devido ao seu formato, e a “Stercus”, palavra sinônimo de esterco. Infelizmente alguns desses infectados foram a óbito, muito decorrente da diarreia. O falecimento desses permitiu a realização de um estudo mais aprofundado por meio de necropsia, em que foram identificados vermes nas estruturas do intestino delgado, canais biliares e ductos pancreáticos, e esses diferiam dos primeiros encontrados nas fezes desses soldados, o que fez Bavay imaginar que fossem outros tipos de vermes e nomeá-los de Anguillula intestinalis. Pelo fato de o verme apresentar diferentes morfologias ao longo de seu ciclo biológico, algo que será visto em seguida, esse helminto recebeu diversas nomenclaturas, sendo apenas em 1902, por Stilles & Hassal, devidamente caracterizado e recebeu uma nomenclatura única, Strongyloides stercoralis (Strongyloides derivando de “Strongylos”, palavra grega que significa “arredondado” ou “esférico”).
Informações gerais, morfologia e ciclo de vida
A literatura cita de 38 a 52 espécies de nematoides do gênero Strongyloides. O mais importante de se saber é que duas formas são relacionadas com a infecção no homem: S. stercoralis (a mais comum) e S. fuellerborni. É um verme de distribuição mundial, mas apresentando maior relevância nas regiões tropicais e sub-tropicais. No entanto, esses helmintos não infectam exclusivamente o homem, podendo infectar também cachorros, gatos e macacos.
Quanto a sua morfologia, o S. stercoralis apresenta 6 padrões evolutivos diferentes (Fêmea Partenogenética ou Parasita, Fêmea e Macho de vida livre, Ovos e Larva Rabditoide e Filarioide), conforme é possível observar na figura 1:
Esse verme apresenta diversas características em cada um de seus 6 morfotipos, de modo que não é o interesse aqui descrever cada um detalhadamente. No entanto algumas características são bem importantes de se notar, facilitando a identificação desses em lâminas no microscópio. Inicialmente cabe salientar que esse verme possui vestíbulo bucal curto e primórdio genital visível, o que auxilia na diferenciação de ancilostomídeos. Outra característica que também auxilia nessa diferenciação é o formato da cauda da larva filarioide, que é em “duas pontas” ou “entalhada”, diferente dos ancilostomídeos, que possuem cauda pontiaguda. O macho de vida livre apresenta seu ventre recurvado, diferenciando-o da fêmea de vida livre. Essa mesma fêmea apresenta receptáculo seminal, essencial para uma das direções do ciclo de vida desse verme, dependente de atividade sexual (estrutura essa que a fêmea parasita não terá pois os seus gametas geram ovos não necessitantes de fecundação; por isso também é chamada “Partenogenética”). Por fim, apenas a fêmea parasita e a larva filarioide apresentam o esôfago filarioide, isto é, em formato cilíndrico longo. A fêmea de vida livre, o macho de vida livre e a larva rabditóide apresentam o esôfago rabditóide, um esôfago formado em 3 porções visíveis, denominadas de porção anterior, istmo e porção posterior, observando-se na direção de proximal para distal no verme.
Uma outra característica muito importante a se considerar também é com relação ao genoma desse animal. Ele pode se apresentar como triploide (3n), diploide (2n) ou haploide (n), e essa natureza tem um papel importante na direção do ciclo biológico que esse verme vai seguir (spoiler: já dá pra ver que temos mais de um tipo de ciclo…). A fêmea parasita (ou partenogenética) é triploide. Dos 30 a 40 ovos por dia que ela pode lançar diariamente na luz intestinal, esses ovos podem ser triploides, diploides ou haploides, gerando larvas rabditoides triploides, diploides ou haploides. Se for triploide, essa larva rabditóide pode se metamorfizar a larva filarioide, que é a forma infectante do verme (assim ocorrerá o ciclo direto). Já as rabditóides diploides darão origem a fêmeas de vida livre e as rabditoides haploides darão origem a machos de vida livre. Ao copularem, darão origem a ovos triploides, que poderão eclodir em larvas rabditóides triploides, que se transformarão em larvas filarioides e, assim, poderão estar aptas a continuar o ciclo infectando o ser humano (esse ciclo um pouco mais longo é o denominado ciclo indireto). Esses dois ciclos podem ser bem compreendidos na figura 2.
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Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Parasitologia Humana; David Pereira Neves, 10ed, São Paulo, Editora Atheneu, 2000.
Parasitologia: parasitos e doenças parasitárias do homem nos trópicos ocidentais; Luís Rey, 4ed, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2008.
GOULART, Amanda. FAQ – Perguntas Frequentes. 2014. Disponível em: https://s-stercoralis.webnode.com/faq-perguntas-frequentes/. Acesso em: 03 out. 2021.