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Exame Psíquico: o que todo médico precisa saber na prática

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Saber aplicar corretamente o exame psíquico é fundamental para todos os médicos — mesmo aqueles que não são psiquiatras, mas que atendem pacientes com transtornos mentais. Por isso, neste texto vamos revisar, de forma prática e objetiva, os principais pontos do exame psíquico, com ênfase nas funções mentais mais relevantes.

Lembrando que além do conhecimento teórico, é essencial que o médico desenvolva sensibilidade clínica e empatia. Isso não significa apenas oferecer um ouvido compreensivo, mas sim estabelecer uma conexão genuína e profissional com o paciente durante a entrevista psiquiátrica.

O exame psíquico

Divide-se o exame psíquico em três partes principais:

  1. Coleta de dados sociodemográficos e histórico do paciente;
  2. Exame do estado mental;
  3. Avaliação das funções psicofisiológicas.

1ª parte do exame psíquico: dados e histórico do paciente

Na 1ª parte do exame psíquico, investiga-se sobre dados sociodemográficos, histórico médico, psiquiátrico e familiar, além de aspectos da biografia do paciente. Portanto, é importante questionar sobre:

  • Relações familiares e sociais;
  • Motivo da consulta;
  • Histórico de internações e tratamentos prévios;
  • Escolaridade e situação financeira;
  • Uso de substâncias (álcool, drogas, etc.).

2ª parte do exame psíquico: exame do estado mental

Na 2ª parte, realiza-se o exame do estado mental do paciente. Para isso, realiza-se uma avaliação geral e o exame das funções mentais.

Avaliação geral

Para realizar avaliação geral deve-se analisar características como aparência, postura e atitude, sentimento, biotipo, vontade, insight e juízo da realidade..

Aparência

Corresponde a descrição física do paciente, ou seja, a forma como ele apresenta-se na consulta. Portanto, descreve-se com detalhes: roupa, presença ou não de adornos, cabelos, higiene e autocuidado do paciente.

Além disso, é importante a descrição de características como tatuagens, possíveis amputações, cicatrizes, ginecomastia, etc.

Postura e atitudes na situação do exame

Este aspecto refere-se à maneira como o paciente se comporta diante do examinador. O profissional deve observar e descrever se o paciente se mostra cooperativo, indiferente, passivo, fóbico, agressivo, petulante, cabisbaixo, dissimulado, entre outras possibilidades.

É fundamental registrar a situação ou os comportamentos específicos que levaram a essas conclusões, garantindo maior objetividade na avaliação.

Sentimento

Refere-se à impressão subjetiva que o paciente causa no examinador ao primeiro contato, ou seja, aquilo que se sente ao observá-lo. Trata-se de uma percepção inicial que pode sugerir uma hipótese diagnóstica provisória, a ser confirmada ou refutada ao longo da entrevista clínica.

Por exemplo, um paciente que usa roupas chamativas, está descalço e sentado de maneira relaxada, com os pés apoiados sobre a mesa na sala de espera, pode inicialmente sugerir um episódio de mania no contexto do transtorno bipolar, em vez de um quadro depressivo.

Biotipo

Embora não haja uma relação determinística, alguns estudos e observações clínicas sugerem que certos biotipos corporais podem estar mais frequentemente associados a determinados transtornos mentais. No entanto, é fundamental lembrar que essas associações não são regras fixas e não substituem a avaliação clínica criteriosa.

  • Longilíneo: pode estar associado, em alguns casos, a quadros de esquizofrenia.
  • Brevilíneo: frequentemente relacionado a transtornos do humor.
  • Atlético: ocasionalmente vinculado a traços de personalidade antissocial.
  • Displásico: pode ser observado em indivíduos com deficiência intelectual.

Todavia, deve-se interpretar essas correlações com cautela e sempre contextualizadas dentro de uma avaliação global do paciente.

Vontade

A volição, também chamada de energia volitiva, refere-se à disposição interna do indivíduo para viver, perseguir metas e concretizar projetos pessoais. Essa capacidade pode estar dentro da normalidade ou apresentar alterações, como:

  • Hiperbulia: aumento da vontade ou iniciativa;
  • Hipobulia: redução da vontade ou iniciativa.

Por sua vez, o pragmatismo diz respeito à habilidade do indivíduo de transformar essas intenções em ações concretas. Assim, descreve-se uma pessoa com metas grandiosas, mas sem um plano claro e realista para alcançá-las, como hiperbúlica, porém com o pragmatismo comprometido.

Autopatognose/insight

Refere-se ao grau de consciência que o paciente tem sobre sua condição psíquica. Avalia-se se o indivíduo reconhece determinados sinais e sintomas como manifestações de uma doença mental.

Nesse contexto, pacientes com bom insight compreendem que seus sintomas são patológicos, enquanto aqueles com insight prejudicado, negam ou não percebem a existência da doença.

Juízo de realidade

Refere-se à capacidade do paciente de avaliar a si mesmo, suas ações e a realidade ao seu redor de forma crítica. Esse julgamento pode estar preservado ou comprometido, como nos casos de delírios.

  • Ideia delirante primária: surge de forma autônoma, sem relação com outras alterações psíquicas, sendo percebida como absolutamente verdadeira pelo paciente.
  • Ideia delirante secundária (deliróide): decorre de uma disfunção em outra esfera psíquica, como o humor. Nesse caso, ao tratar a alteração primária, a ideia delirante pode desaparecer, permitindo a recuperação do juízo crítico.

Por exemplo, em um paciente com depressão, o humor rebaixado pode influenciar o conteúdo do pensamento, levando a ideias delirantes de ruína ou culpa, que tendem a regredir com a melhora do estado afetivo.

Exame das funções mentais

Nesta etapa do exame psíquico, o foco é a avaliação detalhada das funções mentais superiores, que fornecem informações fundamentais sobre o funcionamento cognitivo e emocional do paciente.

A análise criteriosa desses aspectos permite identificar alterações que orientam o diagnóstico diferencial entre transtornos psiquiátricos e neurológicos.

Entre os principais itens avaliados estão: consciência, orientação, atenção, memória, inteligência, pensamento, linguagem, sensopercepção, humor, afeto e psicomotricidade.

Consciência

A consciência representa nossa percepção global da realidade, funcionando como o alicerce fundamental sobre o qual todas as outras funções psíquicas manifestam-se.

Portanto, quando há qualquer alteração nesse estado, os demais aspectos — como atenção, orientação e memória — tendem a ser afetados, comprometendo a confiabilidade da avaliação clínica. Ademais, descreve-se a consciência sob dois aspectos principais:

  • Quantitativo: refere-se ao nível de alerta do indivíduo, podendo variar de vigilância plena até graus mais intensos de rebaixamento, como sonolência, obnubilação, torpor, estupor e coma.
  • Qualitativo: diz respeito à alteração no conteúdo ou na forma da vivência consciente, como nos casos de estreitamento do campo da consciência (foco excessivamente restrito), dissociação (experiências que não são lembradas posteriormente), sonambulismo, transe, estados crepusculares e hipnose.

Orientação

A orientação refere-se à capacidade do indivíduo de situar-se em relação ao ambiente e a si próprio, sendo classificada em dois tipos principais:

  • Alopsíquica: diz respeito à orientação no tempo e no espaço (ou seja, se o paciente sabe onde está, que dia é, em que contexto se encontra).
  • Autopsíquica: relaciona-se à consciência de si mesmo (quem é, sua identidade, e a crítica em relação ao próprio comportamento).

De modo geral, pacientes em surto psicótico apresentam algum grau de desorientação autopsíquica, já que perdem a crítica sobre si e suas ações.

No entanto, há uma linha mais rígida dentro da psiquiatria que defende que a desorientação autopsíquica só estaria presente em casos em que o indivíduo perde completamente a noção de sua identidade, um quadro mais raro na prática clínica.

Atenção

A atenção pode ser avaliada em dois aspectos principais:

  • Tenacidade: habilidade de manter o foco e a concentração em uma tarefa ou estímulo por um período contínuo.
  • Vigilância: capacidade de detectar e responder a estímulos do ambiente, ou seja, o grau de distração ou facilidade para se dispersar.

Pacientes em quadro maníaco, por exemplo, geralmente apresentam diminuição da tenacidade (hipotenacidade), mas aumento da vigilância (hipervigilância), demonstrando dificuldade em manter a concentração, porém com maior sensibilidade a estímulos externos.

Já em pacientes com esquizofrenia, por outro lado, é comum observar tanto redução da tenacidade quanto da vigilância (hipovigilância), caracterizando uma menor capacidade de concentração e menor resposta aos estímulos do ambiente.

Memória

A memória pode ser dividida em dois tipos principais:

  • De evocação: relacionada à capacidade de recordar fatos passados;
  • De fixação: referente à retenção e recordação de informações recentes.

De modo geral, pacientes psicóticos não apresentam déficits primários na memória. No entanto, pode haver comprometimento secundário devido à falta de atenção ou ao desinteresse durante a avaliação.

Inteligência

Refere-se à capacidade do indivíduo de se adaptar a diferentes situações. Durante a entrevista, as funções mentais podem ser avaliadas conforme a forma como são acessadas. Aspectos como aparência, nível de consciência e comportamento psicomotor são observados imediatamente.

Ao longo da conversa, é possível analisar atenção, concentração, fala, linguagem, pensamento, orientação, memória e afeto.

Por meio de uma investigação mais aprofundada, são também examinados humor, volição, percepção, conteúdo do pensamento, crítica e julgamento.

Quando necessário, podem ser aplicados testes rápidos para avaliar com mais precisão memória, orientação, pensamento abstrato e inteligência. Nessa avaliação, devem ser considerados:

  • Raciocínio lógico;
  • Capacidade de realizar cálculos;
  • Dificuldades de aprendizagem;
  • Habilidade para abstração;
  • Capacidade de generalização;
  • Juízo crítico.

Pensamento

É avaliado em relação a:

  • Curso: se está acelerado ou retardado;
  • Forma: se é organizado ou desorganizado;
  • Conteúdo: tema predominante das ideias, como por exemplo ideias de grandiosidade, autorreferência, sexuais, místicas, paranoides, entre outras.

Ideias paranoides, por exemplo, englobam múltiplos temas, como grandiosidade, perseguição, misticismo, entre outros.

Linguagem

Avalia-se a linguagem principalmente em seu aspecto verbal, considerando também sua forma e conteúdo. Assim, devem ser observados:

  • Quantidade;
  • Velocidade;
  • Qualidade;
  • Volume.

Quanto à forma, analisa-se a velocidade do discurso, que pode estar lentificada. Nesse caso, costuma-se notar latência de resposta, que é uma pausa prolongada entre a pergunta do entrevistador e a resposta do paciente.

O discurso pode estar acelerado. Por exemplo, quando o paciente fala rapidamente e em grande quantidade, diz-se que apresenta logorreia. Além disso, se essa fala rápida vier acompanhada de volume alto e fala contínua, caracteriza-se a pressão de discurso, comum em quadros de mania e ansiedade grave.

Ademais, automatismos verbais incluem mussitação, verbigeração e ecolalia. Mussitação é uma fala contínua em voz baixa, semelhante a uma reza, enquanto verbigeração é a repetição incessante e sem sentido de palavras ou frases. Por sua vez, ecolalia é a repetição automática das palavras ditas pelo interlocutor.

O conteúdo do discurso geralmente reflete o conteúdo do pensamento, e devem ser descritos os temas predominantes, quando presentes.

Sensopercepção

  • Ilusão: distorção da percepção da realidade causada por um estímulo externo, geralmente associada a uma carga emocional;
  • Alucinação: percepção falsa sem a presença de estímulos externos, caracterizando um fenômeno interno. Pode ser auditiva, tátil, sinestésica, gustativa, olfativa ou visual (estas últimas menos comuns);
  • Despersonalização: alteração na percepção de si mesmo, manifestada por sensações de estranheza ou irrealidade;
  • Desrealização: alteração na percepção do ambiente ao redor.

No exame psíquico, é fundamental descrever não apenas o relato do paciente (como “ouço vozes” ou “não vejo nada”), mas sim o comportamento relacionado às alucinações: ele fala sozinho? Faz gestos com as mãos? Desvia o olhar para algo específico?

Humor

O humor representa a base da vida emocional, funcionando como a disposição afetiva geral, semelhante a uma média dos sentimentos. Pode apresentar polarização, manifestando-se em estados como depressão, hipomania ou mania.

Quando permanece levemente deprimido de forma contínua, é classificado como distímico. Já o humor hipertímico corresponde a uma elevação leve e constante do estado emocional. Por fim, o humor eutímico caracteriza-se pela ausência de oscilações marcantes, mantendo-se estável sem tendência clara para extremos ao longo do tempo.

Afeto

Avalia-se a relação do paciente com o mundo ao seu redor por meio do afeto, que sofre alteração primária principalmente na esquizofrenia. Quando o afeto está preservado, é denominado sintônico. As principais alterações do afeto incluem:

  • Distanciamento: o paciente interage apenas quando lhe convém ou por interesse próprio, demonstrando falta de empatia. Essa alteração compromete o afeto de forma menos intensa que as outras.
  • Incongruência: o afeto apresentado não corresponde ao conteúdo do discurso.
  • Indiferença: o paciente demonstra interação mínima, desinteresse em estabelecer vínculos e fala pouco, geralmente com respostas monossilábicas.
  • Embotamento: é o comprometimento mais grave do afeto, em que o paciente deixa de se relacionar com o ambiente completamente.

Psicomotricidade

Na psicomotricidade, avalia-se o padrão de comportamento corporal do paciente e as principais alterações incluem:

  • Hipocinesia;
  • Hipercinesia;
  • Tiques;
  • Estereotipias;
  • Maneirismos.

3ª parte do exame psíquico

Por fim, na terceira etapa do exame psíquico, avalia-se as funções psicofisiológicas, que são aspectos fundamentais para compreender o estado geral do paciente e sua saúde mental integrada ao funcionamento corporal. Essas funções refletem como as emoções e processos mentais interferem nas necessidades básicas do organismo e no equilíbrio do indivíduo.

Entre os principais itens a serem investigados estão:

  • Sono;
  • Apetite/dieta;
  • Sexualidade;
  • Exame físico.

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