Anatomia de órgãos e sistemas

Farmacocinética: descomplicando conceitos da farmacologia | Colunistas

Farmacocinética: descomplicando conceitos da farmacologia | Colunistas

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Stephanie Liberatori

10 minhá 53 dias

Introdução

A farmacocinética é uma parte essencial para o estudo da farmacologia, já que ajuda na compreensão da atuação de tais fármacos no organismo.

A farmacocinética estuda o caminho do fármaco no organismo, desde a sua administração, absorção, distribuição e metabolismo, até a sua excreção. Cada uma dessas etapas pode afetar positiva ou negativamente a ação do fármaco, dependendo da forma como for aproveitada – por exemplo, a absorção de fármacos como o omeprazol se dá de forma mais eficiente quando se está de jejum.

Farmacocinética

O estudo da farmacocinética é essencial para determinar a efetividade clínica de um medicamento, já que é a partir dela que saberemos os caminhos dos fármacos no organismo, se ele foi bem-sucedido em ultrapassar barreiras fisiológicas e em sua distribuição nos órgãos-alvo. A farmacocinética, dessa forma, compreende o estudo do caminho do fármaco no corpo humano, desde a sua administração até a sua metabolização ou excreção, passando por várias etapas, como a absorção, a distribuição e a metabolização. Durante esse estudo, adquire-se conhecimento sobre o que pode facilitar ou dificultar a absorção de um determinado fármaco, o que pode ser feito para melhorar sua distribuição, e, também muito importante, é possível determinar interações medicamentosas que podem ocorrer em diferentes fases, como na metabolização dos fármacos no fígado.

A farmacocinética se divide em absorção, distribuição, metabolização e excreção. Na absorção, é importante aprender sobre os diferentes locais em que ela pode ocorrer e as barreiras fisiológicas que dificultam o processo absortivo; já na distribuição, estuda-se os caminhos dos medicamentos até chegarem ao órgão-alvo, seja pela corrente sanguínea ou linfática; no metabolismo dos fármacos, vê-se que eles podem ser transformados em metabólitos inativos, prontos para excreção, ou até mesmo em compostos mais ativos que o inicial, e isso se dá por atividade enzimática; por último, na excreção, entende-se quais os locais por onde o organismo elimina o fármaco.

Absorção

A absorção de um fármaco se dá após a sua administração e depende da passagem desse fármaco pelas barreiras do organismo. Exemplos da proteção exercida pelo organismo são a secreção ácida no estômago e básica no intestino, que podem aumentar ou diminuir a entrada do medicamento, de acordo com as suas propriedades químicas.

Outro fator importante definido durante a absorção é a biodisponibilidade, ou seja, a fração do fármaco que alcançará a circulação sistêmica, de acordo com a forma de administração realizada, as propriedades químicas do fármaco e algumas características próprias do paciente. A respeito das formas de administração, podem ser divididas em vias enterais, ou seja, oral e retal, e parenterais, a exemplo das transdérmicas.

A via enteral é a forma mais simples e prática de se administrar um fármaco, já que engloba a administração oral. Apesar disso, é necessário que o medicamento apresente certa resistência, já que ele será exposto a ambientes ácidos, no estômago, e básicos, no intestino. De forma geral, para que um fármaco seja administrado via oral e seja bem absorvido pelo organismo no trato digestivo, ele deve apresentar característica hidrofóbica e carga neutra, já que essas são absorvidas de forma mais eficiente do que moléculas hidrofílicas e de carga negativa. Depois de absorvidos, os fármacos não cairão diretamente na circulação sistêmica. Antes disso, serão transportados pelo sistema porta até o fígado, onde sofrerão um processo chamado de metabolismo de primeira passagem. Nesse momento, o fármaco pode tanto sofrer uma baixa em seus metabólitos ativos quanto ser biotransformado em metabólitos mais ativos que o original, e é por isso que é necessário conhecer o metabolismo de cada fármaco no organismo e, também, a dose necessária para que, caso ocorra diminuição da concentração ativa, ainda exista metabólitos efetivos suficientes para alcançar o órgão-alvo. É possível concluir, portanto, que a biodisponibilidade do fármaco, quando administrado de forma enteral/oral, será menor que a concentração administrada originalmente, já que ocorrerão perdas durante o processo de metabolismo de primeira passagem.

TABELA: Vias de administração de fármacos

VIAVANTAGENSDESVANTAGENS
Enteral (p. ex., administração oral de ácido acetilsalicílico)Simples, de baixo custo, conveniente, indolor e não causadora de infecçãoO fármaco exposto ao ambiente GI e ao metabolismo de primeira passagem requer absorção GI, e sua liberação no local de ação farmacológica é lenta
Parenteral (p. ex., administração intravenosa de morfina)Rápida liberação no sítio de ação farmacológica, alta biodisponibilidade, sem risco de metabolismo de primeira passagem ou inativação em ambiente GI adversoEfeito irreversível; potencialidade de produzir infecção, dor, medo; necessidade de pessoal técnico experiente
Transmucosa (p. ex., administração respiratória de beclometasona)Rápida liberação no sítio de ação farmacológica, não sujeita ao metabolismo de primeira passagem ou a ambientes adversos do trato GI, frequentemente indolor, simples e conveniente, baixa indutora de infecção, liberação direta nos tecidos afetados (p. ex., brônquios)Existem poucos fármacos disponíveis para administração por essa via
Transdérmica (p. ex., aplicação de adesivo de nicotina)Simples, conveniente, indolor, excelente para administração contínua ou prolongada, não sujeita a metabolismo de primeira passagem ou ambientes adversos do trato GIExige fármaco altamente lipofílico, liberação lenta no sítio de ação farmacológica; pode provocar irritação
FONTE: GOLAN, David E. et al. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

Nas vias parenterais, o fármaco é administrado diretamente na circulação sistêmica. Dessa forma, a biodisponibilidade do fármaco é igual à concentração original, já que não haverá perdas durantes a absorção. As diferentes formas de administração parenterais diferem entre si na velocidade de ação do fármaco, já que depende do fluxo sanguíneo no tecido em que o medicamento foi administrado. Assim, a administração mais rápida é a intravenosa, em que ocorre a introdução direta do medicamento na circulação. Enquanto isso, a administração subcutânea ocorre no tecido adiposo, que é pouco vascularizado e, portanto, leva a uma ação mais lenta do fármaco. Já a intramuscular, por ocorrer em espaço melhor vascularizado, causará uma ação farmacológica mais rápida, mas não se comparando à administração intravenosa.

Além desses dois principais tipos, os fármacos também podem ser administrados por membranas mucosas e por via transdérmica. O primeiro, sendo um ambiente altamente vascularizado, a exemplo das mucosas ocular, sublingual e nasal, apresenta rápida absorção e baixa taxa de infecção. Já o segundo é ideal para fármacos que precisam de uma administração lenta e por longos períodos de tempo, sendo absorvidos a partir da pele diretamente para o sangue, como o exemplo dos adesivos de nicotina.

Distribuição

A distribuição do fármaco é feita principalmente pela circulação sistêmica, e secundariamente pela circulação linfática. É a partir desse momento que os metabólitos são capazes de alcançar os órgãos-alvo.

Depois de chegar à circulação sistêmica, os fármacos distribuem-se rapidamente a outros compartimentos do corpo, chegando aos seus locais de ação ou sendo excretados. Para que não sejam excretados de forma muito rápida, podem ser armazenados em tecido adiposo ou muscular, de forma que são liberados desses reservatórios conforme a concentração do fármaco diminui na circulação sistêmica.

Além disso, a ligação dos fármacos a proteínas plasmáticas, como a albumina, também aumenta o tempo de disponibilidade do fármaco na circulação sistêmica e, consequentemente, o tempo de ação desse fármaco. Quando ligados a tais proteínas, os fármacos ficam inibidos de sofrerem difusão pela membrana dos órgãos-alvo, de forma que somente os metabólitos livres na circulação passarão para realizarem sua ação final. Depois, quando a concentração de fármaco livre estiver diminuída, aqueles ligados às proteínas plasmáticas serão liberados, de modo que conseguirão se propagar através da membrana.

Ligação das proteínas e sequestro de fármacos

FONTE: GOLAN, David E. et al. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

Metabolismo

O fígado é o principal órgão responsável pela metabolização dos fármacos no organismo, devido à grande quantidade de enzimas metabólicas presentes no órgão. Tais reações de metabolização são chamadas de biotransformação, nas quais o fígado é capaz de transformar o fármaco em metabólitos ativos, inativos e/ou facilitando sua eliminação.

As reações de biotransformação podem ser classificadas em duas fases: fase I ou de oxidação/redução e fase II ou conjugação/hidrólise. As reações de oxidação/redução mais conhecidas são aquelas realizadas pelas enzimas do citocromo P450 microssomal, e nelas grupos polarizados são adicionados ou encobertos, modificando a estrutura química do fármaco. Os pró-fármacos são ativados nas reações de fase I e são medicamentos administrados de forma inativa, ativados no fígado. Já as reações de conjugação/hidrólise têm como objetivo inativar um metabólito ou aumentar a sua solubilidade, de forma a aumentar a sua excreção na urina ou na bile.

Excreção

A excreção dos fármacos do organismo geralmente se dá por via renal ou biliar e é facilitada devido à metabolização dos fármacos nas fases de oxidação/redução e conjugação/hidrólise, já que podem aumentar a hidrossolubilidade dos fármacos.

A excreção renal é a mais comum, mas depende da natureza hidrofílica dos fármacos. Esses podem ser filtrados no glomérulo renal, secretados no túbulo proximal, reabsorvidos no lúmen tubular e transportados de volta ao sangue, e excretados para a urina. É o equilíbrio entre essas quatro dinâmicas que mostrará a taxa de excreção de fármacos pelos rins.

Filtração, secreção e reabsorção nos rins

FONTE: GOLAN, David E. et al. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

A excreção biliar geralmente se dá pela ajuda de alguns membros da superfamília de transportadores do conjunto de ligação do ATP. Para serem eliminados, os fármacos passarão por todo o intestino delgado e intestino grosso, podendo sofrer circulação entero-hepática, ou seja, ser reabsorvidos no intestino delgado, caindo na circulação porta e, depois disso, na circulação sistêmica.

Conclusão

A farmacocinética é parte importante da farmacologia para o entendimento da dose ideal de cada fármaco, as barreiras que ele precisará ultrapassar, a garantia de que a biodisponibilidade seja suficiente, além de ensinar sobre sua distribuição nos órgãos-alvos, metabolização – principalmente no fígado –, e excreção renal e biliar.

A absorção pode ser tanto enteral, sendo importante lembrar da biodisponibilidade e do efeito de primeira passagem, e parenteral. Já a distribuição dos fármacos explica o seu caminho na circulação sistêmica até os órgãos-alvos. O metabolismo, mecanismo muito importante, pode transformar os fármacos em metabólitos ativos ou inativos, facilitando a excreção, e ocorre principalmente no fígado. Por último, a excreção, ou seja, eliminação do fármaco do organismo, que ocorre principalmente por via renal ou biliar.

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto

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Referências:

FONTE: GOLAN, David E. et al. Princípios de farmacologia: a base fisiopatológica da farmacologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

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