Medicina da Família e Comunidade

Fluvoxamina: o antidepressivo reduz o risco de morte por COVID-19?

Fluvoxamina: o antidepressivo reduz o risco de morte por COVID-19?

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Imagem de perfil de Claudio Afonso Peixoto

Em fevereiro de 2021, a fluvoxamina apareceu como uma opção de tratamento para prevenir a piora clínica em pacientes ambulatoriais adultos os quais estão infectados com o SARS-CoV-2.

Mas qual a ação medicamentosa desse fármaco? Os resultados são promissores? Esse e outras perguntas responderei nesse artigo.

Ação Medicamentosa da fluvoxamina

A ação anti-inflamatória da fluvoxamina (por meio da ativação do S1R) foi a principal razão pela qual os estudos se atentaram a esse medicamento como um possível tratamento para a COVID-19.

Essa proteína (S1R) está presente na membrana do retículo endoplasmático (ER) e dentre suas funções está a regulação de resposta de estresse, ou seja, regulação da produção de citocinas em resposta a gatilhos inflamatórios.

Assim, quando a fluvoxamina está em ação, a S1R (ativada) impede que a enzima 1α (a qual precisa do inositol do sensor de estresse de ER) ative a proteína X-box 1, que regula a produção de citocinas (dentre elas as interleucinas IL-6, IL-8, IL-1β e IL-12). 

O que dizem as pesquisas sobre este medicamento?

Apesar dos mecanismos detalhados de ação da fluvoxamina para COVID-19 ainda não serem claros. Atualmente, pesquisas sugerem que a fluvoxamina é agonista do receptor sigma-1, receptor esse responsável (junto a outros fatores) pela inflamação.

Estudos recentes indicam que essa ação sobre o receptor sigma-1 atenua a replicação viral do SARS-CoV-2.

Além destes, outros efeitos benéficos são evidenciados no uso de fluvoxamina como:

  • redução da desgranulação dos mastócitos,
  • inibição da esfingomielinase ácida (ASM),
  • redução da agregação plaquetária pela inibição do transportador de serotonina,
  • interferência com o tráfego lisossomal de vírus e
  • aumento dos níveis de metatonina pela inibição do citocromo P450.

Vale ressaltar que a fluoxetina e o escitalopram também são classificados como agonistas do receptor sigma-1, contudo seus efeitos são menos potentes.

Fig. 1 Mecanismos biológicos propostos de fluvoxamina no tratamento de pacientes infectados com SARS-CoV-2.
Fonte: HASHIMOTO (2021, p. 2).

Fluvoxamina: resultados de um estudo brasileiro

Orgulhando o Brasil, mesmo com tantos ataques a ciência e a saúde nacional no cenário vigente, o artigo “Efeito do tratamento precoce com fluvoxamina no risco de atendimento de emergência e hospitalização entre pacientes com COVID-19: o ensaio clínico de plataforma randomizado TOGETHER”, publicado em outubro de 2021 e aplicado em cenário nacional lança esperanças sobre o tratamento dessa enfermidade.

Trata-se de um estudo randomizado e controlado por placebo que tem como população adultos brasileiros de alto risco e sintomáticos com confirmação positiva para SARS-CoV-2.

Desfechos da aplicação da medicação

  Segundo o artigo, dentre aqueles em que se aplicou a fluvoxamina, um total de 79 (11%) tiveram um desfecho primário (hospitalizações pelo COVID-19) quando comparados com 119 (16%) em que se utilizou placebo.

Segundo o artigo em questão “a probabilidade de a taxa de eventos ser menor no grupo de fluvoxamina em comparação com o placebo foi de 99,7% para a população com intenção de tratar modificada” (REIS, 2021), definida como receber tratamento por pelo menos 24 horas antes de um desfecho primário.

O que se descobriu com o estudo?

Segundo os autores, a pesquisa deles pode evidenciar que fluvoxamina reduz a emergência de casos graves e cuidados de doença avançada dentre a população de alto risco para desfechos mais graves em relação ao Sars-CoV-2.

Além do mais, o artigo ainda afirma que:

“o número absoluto de eventos adversos graves associados com fluvoxamina foi menor do que para o placebo e isso pode refletir o efeito modulador da fluvoxamina sobre a inflamação sistêmica nestes participantes”.

Reis, 2021

Conclusão

Concluindo-se, a fluvoxamina é um medicamento que aparece no cenário médico de enfrentamento a COVID-19 recentemente e traz consigo muita esperança.

Segundo Gilmar Reis (2021),

“o número absoluto de eventos adversos graves associados com fluvoxamina foi menor do que para o placebo e isso pode refletir o efeito modulador da fluvoxamina sobre a inflamação sistêmica nestes participantes”.

Assim, fica evidente que este medicamento tem potencial para ser incorporado no tratamento da COVID-19.

Contudo, como os próprios autores do estudo “Efeito do tratamento precoce com fluvoxamina no risco de atendimento de emergência e hospitalização entre pacientes com COVID-19: o ensaio clínico de plataforma randomizado TOGETHER” indicam, este é somente o segundo grande estudo a mostrar um benefício importante no tratamento a que se propõe tal medicação. E – como todo estudo – este também traz limitações. Assim,

Por fim, vale ressaltar que para a produção do texto que vocês lêem foi utilizado como base artigos que evidenciassem ação positiva da fluvoxamina no tratamento da COVID-19, todavia (como foi citado diversas vezes ao longo do texto), esses dados são evidencias ainda não esclarecidas em toda a sua totalidade.

O que esperar no futuro?

Logo, não apenas são necessários novos estudos para demonstrar com clareza os efeitos desse medicamento no tratamento da infecção pelo Sars-CoV-2 como também é necessário cautela na administração desses medicamentos caso o risco evidenciado seja menor que o benefício.

Se cuide leitor(a), pois a pandemia ainda não acabou!  E bons estudos a você! 

Autor: Claudio Afonso Caetano Pereira Peixoto

Instagram: @claudioafon

O texto acima é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Sugestão de leitura

Referências

  1. HASHIMOTO, Yaeko; SUZUKI, Takuji; HASHIMOTO, Kenji. Old drug fluvoxamine, new hope for COVID-19. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, p. 1-3, 2021.
  1. REIS, Gilmar et al. Effect of early treatment with fluvoxamine on risk of emergency care and hospitalisation among patients with COVID-19: the TOGETHER randomised, platform clinical trial. The Lancet Global Health, 2021.
  1. SEFTEL, David; BOULWARE, David R. Prospective cohort of fluvoxamine for early treatment of coronavirus disease 19. In: Open Forum Infectious Diseases. US: Oxford University Press, 2021. p. ofab050.

SUKHATME, Vikas P. et al. Fluvoxamine: a review of its mechanism of action and its role in COVID-19. Frontiers in Pharmacology, v. 12, p. 763, 2021.