Em fevereiro de 2021, a fluvoxamina apareceu como uma opção de tratamento para prevenir a piora clínica em pacientes ambulatoriais adultos os quais estão infectados com o SARS-CoV-2.
Mas qual a ação medicamentosa desse fármaco? Os resultados são promissores? Esse e outras perguntas responderei nesse artigo.
Ação Medicamentosa da fluvoxamina
A ação anti-inflamatória da fluvoxamina (por meio da ativação do S1R) foi a principal razão pela qual os estudos se atentaram a esse medicamento como um possível tratamento para a COVID-19.
Essa proteína (S1R) está presente na membrana do retículo endoplasmático (ER) e dentre suas funções está a regulação de resposta de estresse, ou seja, regulação da produção de citocinas em resposta a gatilhos inflamatórios.
Assim, quando a fluvoxamina está em ação, a S1R (ativada) impede que a enzima 1α (a qual precisa do inositol do sensor de estresse de ER) ative a proteína X-box 1, que regula a produção de citocinas (dentre elas as interleucinas IL-6, IL-8, IL-1β e IL-12).
O que dizem as pesquisas sobre este medicamento?
Apesar dos mecanismos detalhados de ação da fluvoxamina para COVID-19 ainda não serem claros. Atualmente, pesquisas sugerem que a fluvoxamina é agonista do receptor sigma-1, receptor esse responsável (junto a outros fatores) pela inflamação.
Estudos recentes indicam que essa ação sobre o receptor sigma-1 atenua a replicação viral do SARS-CoV-2.
Além destes, outros efeitos benéficos são evidenciados no uso de fluvoxamina como:
- redução da desgranulação dos mastócitos,
- inibição da esfingomielinase ácida (ASM),
- redução da agregação plaquetária pela inibição do transportador de serotonina,
- interferência com o tráfego lisossomal de vírus e
- aumento dos níveis de metatonina pela inibição do citocromo P450.
Vale ressaltar que a fluoxetina e o escitalopram também são classificados como agonistas do receptor sigma-1, contudo seus efeitos são menos potentes.

Fonte: HASHIMOTO (2021, p. 2).
Fluvoxamina: resultados de um estudo brasileiro
Orgulhando o Brasil, mesmo com tantos ataques a ciência e a saúde nacional no cenário vigente, o artigo “Efeito do tratamento precoce com fluvoxamina no risco de atendimento de emergência e hospitalização entre pacientes com COVID-19: o ensaio clínico de plataforma randomizado TOGETHER”, publicado em outubro de 2021 e aplicado em cenário nacional lança esperanças sobre o tratamento dessa enfermidade.
Trata-se de um estudo randomizado e controlado por placebo que tem como população adultos brasileiros de alto risco e sintomáticos com confirmação positiva para SARS-CoV-2.
Desfechos da aplicação da medicação
Segundo o artigo, dentre aqueles em que se aplicou a fluvoxamina, um total de 79 (11%) tiveram um desfecho primário (hospitalizações pelo COVID-19) quando comparados com 119 (16%) em que se utilizou placebo.
Segundo o artigo em questão “a probabilidade de a taxa de eventos ser menor no grupo de fluvoxamina em comparação com o placebo foi de 99,7% para a população com intenção de tratar modificada” (REIS, 2021), definida como receber tratamento por pelo menos 24 horas antes de um desfecho primário.
O que se descobriu com o estudo?
Segundo os autores, a pesquisa deles pode evidenciar que fluvoxamina reduz a emergência de casos graves e cuidados de doença avançada dentre a população de alto risco para desfechos mais graves em relação ao Sars-CoV-2.
Além do mais, o artigo ainda afirma que:
“o número absoluto de eventos adversos graves associados com fluvoxamina foi menor do que para o placebo e isso pode refletir o efeito modulador da fluvoxamina sobre a inflamação sistêmica nestes participantes”.
Reis, 2021
Conclusão
Concluindo-se, a fluvoxamina é um medicamento que aparece no cenário médico de enfrentamento a COVID-19 recentemente e traz consigo muita esperança.
Segundo Gilmar Reis (2021),
“o número absoluto de eventos adversos graves associados com fluvoxamina foi menor do que para o placebo e isso pode refletir o efeito modulador da fluvoxamina sobre a inflamação sistêmica nestes participantes”.
Assim, fica evidente que este medicamento tem potencial para ser incorporado no tratamento da COVID-19.
Contudo, como os próprios autores do estudo “Efeito do tratamento precoce com fluvoxamina no risco de atendimento de emergência e hospitalização entre pacientes com COVID-19: o ensaio clínico de plataforma randomizado TOGETHER” indicam, este é somente o segundo grande estudo a mostrar um benefício importante no tratamento a que se propõe tal medicação. E – como todo estudo – este também traz limitações. Assim,
Por fim, vale ressaltar que para a produção do texto que vocês lêem foi utilizado como base artigos que evidenciassem ação positiva da fluvoxamina no tratamento da COVID-19, todavia (como foi citado diversas vezes ao longo do texto), esses dados são evidencias ainda não esclarecidas em toda a sua totalidade.
O que esperar no futuro?
Logo, não apenas são necessários novos estudos para demonstrar com clareza os efeitos desse medicamento no tratamento da infecção pelo Sars-CoV-2 como também é necessário cautela na administração desses medicamentos caso o risco evidenciado seja menor que o benefício.
Se cuide leitor(a), pois a pandemia ainda não acabou! E bons estudos a você!
Autor: Claudio Afonso Caetano Pereira Peixoto
Instagram: @claudioafon
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Sugestão de leitura
- Coronavírus (COVID-19): origem, sinais, sintomas, achados, tratamento e mais
- Linha do tempo do Coronavírus no Brasil
Referências
- HASHIMOTO, Yaeko; SUZUKI, Takuji; HASHIMOTO, Kenji. Old drug fluvoxamine, new hope for COVID-19. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, p. 1-3, 2021.
- REIS, Gilmar et al. Effect of early treatment with fluvoxamine on risk of emergency care and hospitalisation among patients with COVID-19: the TOGETHER randomised, platform clinical trial. The Lancet Global Health, 2021.
- SEFTEL, David; BOULWARE, David R. Prospective cohort of fluvoxamine for early treatment of coronavirus disease 19. In: Open Forum Infectious Diseases. US: Oxford University Press, 2021. p. ofab050.
SUKHATME, Vikas P. et al. Fluvoxamine: a review of its mechanism of action and its role in COVID-19. Frontiers in Pharmacology, v. 12, p. 763, 2021.